domingo, 26 de dezembro de 2010

Rio, choro

Comecei a sentir aquela sensação quando percebi os alto-falantes da estação propagarem sons de violinos pelos pesados ares daquele raro dia sombrio. Sentia-me em uma narrativa qualquer dos filmes exibidos nas madrugadas de segunda-feira e entrei no vagão imaginando qual personagem clichê seria eu. A música espalhava-se dando ênfase aos tons graves, o que me sugeria que pudesse ser um drama medíocre essa película em que eu, provavelmente, estaria imerso.

Não sei se por impressão, devido ao complexo de inferioridade, ou por fato inconteste, percebia em cada rosto uma estranheza carregada de desdém ao se depararem com minha camiseta do Fortaleza que , junto com meu olhar assustado e vislimbrado, denunciavam a imigração instantânea daqueles dias.

Estava na capital da contradição. Tudo era lindo e tenebroso, horrível e atraente. Em todos os cantos se podiam ouvir os mais dispares palavrões e xingamentos, mas quase sempre em tons corteses.

Por todos os lados respirávamos medo e poesia, tudo como nos passaram durante anos e anos nos relatos à distância sobre a combinação singular de tiros e pandeiros, de versos e gritos estridentes. Aquilo me encantava.

Era o sentimento de contradição do humor mórbido, da malandragem latente, de um folclore que quase não mais se materializa na selva de pedra em disputa com as belezas naturais. Elementos visíveis nas grandes cidades de nosso país, mas que aqui tomam cores, formas e intensidades singulares.



Imagino que seja esse sentimento de contradição que sinta o menino que ficava nos olhando por debaixo da passarela, enquanto pedia esmola aos transeuntes que iam rumo à estação Maracanã. Os olhos daquele negrinho magro eram a cidade, sorriam e choravam ao mesmo tempo, cantavam e berravam, temiam e causavam temores. Ele era a contradição


Tivesse mais tempo, conversaria sobre isso com aquele baiano que mora em Pernambuco e ama o Ceará, pois talvez se não saíssem os afagos e as respostas concretas sobre os enigmas desse lugar, ao menos bons versos e confortantes goles de cervejas estariam garantidos. Desconfio que seja disso, da arte, das gargalhadas e das lágrimas que esse povo se alimenta.

Não havia tempo para confirmar essas hipóteses, pois estava chegando o momento de partir. O silêncio em mim dizia que eu precisa me despedir, mas não sabia de que, pois estava só, tive assim que permanecer mudo.

Era óbvio que não partiria ileso. A contradição daquele lugar já estava em mim. Estava alegre e triste, com saudade de tudo, do ontem, do agora, do amanhã. Amava, odiava e temia o passado, o presente e o futuro. Queria ir e ficar. Talvez buscar coisas de lá pra cá ou levar coisas daqui pra lá, algo impossível em um enredo tão fiel ao real e amarelado cinema nacional.

Desci na Presidente Vargas. No caminho pelo Centro ia me convencendo de que a contradição ainda tomava conta de tudo e fazia em cada passo um paralelo com meu povo e meu lugar, mas a saudade agora já se reconhecia no que eu não podia ver.

Pude perceber que realmente estava chegando à hora de partir, mas que embora eu precisasse me despedir e não houvesse como, a chegada em minha terra seria repleta de palavras, sorrisos e... contradições, ainda.

Parei numa famosa confeitaria. Foi ali que puder matar aquela curiosa nostalgia do presente e vislumbrar a minha invenção de uma nova saudade. Talvez, o não querer ir fosse o medo do distante acender essa nova saudade e de perceber que essa contradição não morreria mais, mesmo sob ataque das barreiras geográficas.

Sim, era hora de voltar. As contradições, saudades e lembranças, as novas e as antigas, precisavam se misturar. Como percebi isso? Sentei-me numa mesa e pedi doces quaisquer. Ao provar o bolo de aipim constatei que ele não era tão saboroso quanto o bolo de macaxeira. Quis uma rede para deitar.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

UM CONTO DE NATAL (Epitácio Macário)


Para o amigo Elias de França.

Enquanto fecho os olhos, revivo a cena de trinta e seis anos atrás. O lume hesitante da lamparina a querosene continua aceso na lembrança e ainda sinto o cheiro da neblina que acalmou a poeira do terreiro misturado com fumaça de pavio e alfazema queimada. Afora o grasnar da coruja de vôo rasante sobre o telhado e ecos de conversas vindas da estrada que ia dar na cidade, ouvia-se apenas a respiração ofegante, os silvos do ar inspirado a força, as frases reticentes, ditas pela metade...

A tarde tinha sido enevoada, de clima abafado e muitos carros na estrada, levantando poeira seca. O pai demorou a voltar da cacimba e quando apareceu trazia a cabaça vazia. Lembro de vê-lo por trás dos marmeleiros sentado numa pedra, como a fitar a copa das árvores, e atravessar a cancela do quintal em passos planejados. A filha mais velha tomou-lhe das mãos a cabaça, esticou a rede do lado da janela, na sala de jantar, colocou o travesseiro de bater algodão para formar um encosto, acomodou-o e começou a balançá-lo. O suor escorria pelo pescoço de pele curtida, tamanho era o esforço. 

A noite se anunciava, cobrindo com manto negro os restos de raios a oeste, quando a mãe dobrou o canto da cerca, exalando o cheiro de assados e chouriço que preparara na cozinha da casa da fazenda. Foi direto a ele, fez-lhe uma carícia no rosto e enxugou-lhe o suor; acendeu o carvão no fogareiro, trouxe-o para perto da rede, lançou sobre o braseiro um punhado de folhas de alfazema e começou a abanar a fumaça para debaixo da rede. Serviu-lhe uma porção feita à base de entrecasca de jatobá, jenipapo, aroeira, angico e minúsculos pedaços de cabacinha. Nenhuma palavra, só um gesto, um olhar firme e um clima de ternura e cumplicidade. Lembro como fosse hoje do sorriso que ele esboçou e da serenidade que se fez no seu semblante. Adormeceu.

Um mexido de feijão com arroz, cuscuz e torresmos, acompanhado de carne de porco assada com sobremesa de coalhada adoçada com raspa de rapadura, ficou apenas na fantasia que fora sendo desfeita enquanto a noite avançava. Nada mais que uma panela de xerém ardia na fornalha e mesmo o café de boca de noite não exalava mais cheiro: ora, ele fora preparado com a borra do pó da manhã! Os ovos, duas cestas cheias, e dois capões cevados tinham sido levados para a cidade. O apurado deveria ser investido na compra de quatro pares de chinelos, um quarto de café, dois litros de querosene e pães da padaria.

Minha rede estendia-se bem no meio da porta do quarto contíguo a sala de jantar. De lá, acompanhei e compartilhei a aflição da nova crise por volta das vinte e três horas. Ele ergueu-se de supetão, agarrou-se aos portais da janela buscando a brisa que corria suave lá fora. Os pulmões contraíam-se forte em ritmo acelerado e seu rosto foi ganhando uma cor vermelha, depois roxa... “Senhor, tende piedade dele!” suplicou a mãe e, num misto de dor e ternura, continuou: “não se entregue, meu velho; eu estou aqui; seus filhos estão aqui!...”. Novamente o cheiro de alfazema, incensos e ervas diversas.

Na pequena mesa de pau d’arco, lavrada a enxó e formão, havia um velho rádio marca Semp que recepcionava sinal transmitido em ondas longas de alhures.. Impossível esquecer o vai e vem das ondas, os assobios e chiados das quedas de freqüência e o jingle repetido de dez em dez minutos: “Sociedade... Salvador Bahia”. Quando a missa começou, ouviu-se um concerto que misturava o dobrado dos sinos com as dezenas de vozes do coral e um sublime som de piano que pairava como uma cortina luminosa por trás de todos os ecos.

Ali, na pequena casa de beira de estrada, a angústia resignada da mãe coragem contrastava com o desespero de duas das filhas que, no terreiro, soluçavam lágrimas de ressentimento: “Deus, por que nos desprezastes!”. Outros transitavam entre a sala e o quarto, em voz de pensamento, como que aguardando alguma coisa que já não sabiam o que era. 

Fingi para mim mesmo que dormira, fechei os olhos, procurei subtrair-me da situação, divaguei em pensamentos... Os ruídos do instante foram se distanciando, enfraquecendo, até sumirem, como as ondas do rádio. Mesmo o primeiro cantar do galo desmanchou-se no ar antes que chegasse aos meus ouvidos. Foi então que vi o pai erguer-se revigorado, arrastar seus velhos chinelos de sola crua até a alcova, pegar o violão, chamar todos para o terreiro e, do lado de sua amada, cantarolar madrugada adentro...

O sol principiava a romper a placenta da noite, quando ouvi sussurros da conversa de todas as madrugadas, alguns sorrisos soltos, vindos do quarto da mãe. Os dois desenhavam em cochichos o futuro. O rádio, agora sintonizado na Globo do Rio de Janeiro, tocava uma canção de Jackson do Padeiro. Demorei a abrir os olhos para não perder a paz do momento, até que o avistei, ereto como sempre, indo ao terreiro pegar gravetos para a mãe acender o fogo e fazer o café trazido da cidade pelos irmãos mais velhos. A crise de asma havia passado e ele assobiava docemente: “noite feliz... noite feliz...”. Debaixo da rede havia um embrulho com pão da padaria e um par de chinelas japonesas.

Era natal de 1973, numa casinha de beira de estrada, na localidade de Riacho do Gado, no município de Tamboril/CE.



Esse texto não é de minha autoria, foi escrito por um grande amigo, Epitácio Macário, o melhor texto de natal que eu já li.

Delírios



Estava angustiado e febril. Cansada de engolir a seco, sua garganta latejava como se quisesse vingança de todas as vezes que fora obrigada a relutar.

A náusea e a vertigem o animavam de forma contraditória. Era como se o fizesse lembrar que estava vivo e o obrigasse a expulsar de si aquilo que sempre foi. Agora, indubitavelmente, teria que materializar o caos.

Porque escrevia tão mal nunca entendeu. Sempre achou que escrever tinha algo diretamente relacionado com a dor que perfura o coração dos poetas,. E ele tinha a dor não o talento. Mesmo assim fantasiou algum potencial devido à urgência da ocasião. As palavras vinham como coceira, eram inevitáveis, prazerosas, dolorosas, doentias.

O momento lhe pedia a realidade, mas ela se apresentava caleidoscópica, parabólica. Hesitou por um instante e vomitou por seus dedos os medos e as fantasias que se espalhavam cuidadosamente em doses homeopáticas, num receio psicótico, como se alguém o observasse.

Estava angustiado e febril. De alguma maneira isso o inspirava.

Wescley Pinheiro

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Soneto da Enganação


Quando a linha já gatuna percebe seu feito
Falseando verdadeiras mentiras sinceras
Quando o homem e sua tinta transformam-se em feras
No real fantasioso sonho e seus defeitos

É aí que o sentimento revira em seu peito
Com o ritmo descompasso que desacelera
A visão e a emoção dessa grande esfera
Desse círculo fechado da arte em seu leito

E a vida e a farsa dessa nossa era
Toma rumo, toma cana e caem no gueto
E faz dolorosa seca virar primavera

É por isso que o poema finge desse jeito
Mas no fim com seu aleijo sai de longa espera
E bradando se acusa por não ser soneto

Wescley Pinheiro

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Diário de Antíteses Coloquiais


E na festa ele chorava

E na dor ele sorria

E no silêncio cantava

E em sua morte vivia

 

E nas andanças parava

E na dormência sentia

E no seu olhar cegava

E na surdez ele ouvia

 

E na inocência julgava

E no rancor perdoaria

E nos sentimentos sangrava

E na impotência poderia

 

E na arte copiava

E no egoísmo cederia

E no seu verso proseava

E em sua prosa poesia

 

Wescley Pinheiro

O Arco-íris



O quadro azul
A nuvem negra
O papel branco
O sorriso amarelo
O choro vermelho

E todos os clichês cinzas possíveis.

Wescley Pinheiro

sábado, 4 de dezembro de 2010

O Vagão Anil




O barulho ensurdecedor, a pressa dos passantes e o desconforto tão peculiar não me faziam mal, acostumei-me ao protocolo cotidiano nestes anos vividos em demasia. Além disso, entrar naquele lugar era tão prosaico a mim que nada mais me fazia reclamar, embora nunca tenha deixado à mania do estranhamento e da observação constante.. 

A luz, já azulada do fim de tarde, começava a adentrar pelos orifícios das janelas mal fechadas e carcomidas, me fazia transcender a uma viagem muito maior que o pífio traslado que eu conhecia como palma de minha mão. Era notório que eu havia mudado muito e não poderia deixar de ser assim. Não pensava mais como outrora em que os sonhos comuns deixavam os apetrechos das miragens fortuitas aflorarem nas profundezas de minhas idiossincrasias me fazendo não conseguir perceber que as coisas poderiam ser muito mais que simples coisas. 

No entanto, não adiantava também me enganar em tamanho volume. A mudança nem sempre percorre uma linha ascendente, nem os anos de experiência podem fechar as cortinas do espetáculo da vida. As dores, os temores e as limitações teimavam em aparecer. A trivialidade não fazia parte dos atos que antes chegavam a julgarem-se invisíveis ou inexistentes. Num instante, pude perceber que era tão velho quanto aquele trem. 

Percebi também a razão de meu senso de observação ter aguçado em fórmula inversamente proporcional às moléstias, não por capricho, milagre ou prudência. O ocorrido se explicava pelo simples fato de que o meu descrédito com o gênero humano queria me afogar, me fazer um ser cada vez mais encanecido, ranzinza e desatento. Era uma luta constante e eu precisava sempre captar novos subterfúgios para munir-me contra esse que era o pior dos males.

Sentei-me como de praxe. As mãos trêmulas tentavam segurar firme no corrimão lateral, ao passo que pude observá-la novamente parada, hipnotizada por seu livro. Não era a primeira vez que a via ali, lutando contra o balé dos trilhos, devorando seu romance, cheia de fome e fervor. 

Era só uma mocinha lendo uma antiga estória policial, mas seus olhos me deslumbraram de forma a saltar em mim um regozijo das memórias de semelhantes viagens que também fiz da mesma forma, com o mesmo ímpeto. Comecei a divagar que talvez esses olhos fossem mais um desses elementos que recarregavam a poesia bélica rumo à batalha em prol da inspiração no coração de um velho como eu. 

E era assim que funcionava: eu sugava distintos elementos que estimava jubilares, externos a mim. Percebia as virtudes insistindo em se propagar, tímidas, sorrateiras, com seus instintos de sobrevivência afiados, se escondendo e se espalhando em diversos lugares, em diferentes pessoas, sob pena do açodamento, da falta de zelo, da mediocridade hegemônica da contemporaneidade lhe sufocarem. Era necessário garimpar.

E ali estava uma menina pequena, magra e de rosto bonito, só mais uma adolescente no meio da caravana, mas com uma forma de ler que me chamara atenção. Cuidadosa, com suas frágeis mãos segurando o livro firmemente, protegendo-o como a um filhote e passando as páginas com rapidez, como se na folha seguinte pudesse encontrar uma refeição majestosa para sua sede de espírito. Nada atrapalhava aquela cerimônia.

Ela nunca notara minha vigilância contemplativa ao seu ritual litúrgico. Muito provavelmente por não haver razão para se atentar ao seu redor que devia ser muito mais desinteressante que as estórias em que mergulhava em muitos fins de tardes de sua volta para casa, após enfadonhas aulas de matemática, química ou outras disciplinas que apenas lhe serviam como plataformas de potencialidade para sua imaginação fértil, naqueles períodos de falatório interminável dos professores prolixos de pouca didática.

Eu nada sabia dela e de fato não era ela quem eu admirava. Fascinava-me seus aspectos, feições, trejeitos. Sua energia transcendente traduzida em suas pálpebras paralisadas, em sua pirueta desprovida de pudor em mais uma fábula qualquer e no elevar de sua alma perante a grandeza da arte. Ritual mágico que só aqueles pobres diabos do vagão não poderiam notar, pois além de passageiros do trem, eram meros passageiros da vida.

De repente, uma gargalhada. O riso solto e rápido seguido por um suspiro inquietou-me ainda mais. Seus olhos brilhavam, não me contive. Subitamente perguntei se ela ria do livro, vejam que pergunta boba! Ela levantou a cabeça e respondeu de prontidão positivamente. A firmeza no olhar e a naturalidade da resposta me deram a certeza que tinha acertado nas proposições anteriores.

O mundo fala, discursa, cala, não dialoga. Não é mais comum conversarmos sem propósito, ainda mais com idosos desconhecidos. As palavras proferidas sem estranheza surpreenderam-me ao passo que abriram o canal para uma breve troca de frases sobre literatura, sobre a vida, sobre o trem.

Aquela menina tinha algo de filha, de mãe, de irmã, de amiga que eu nunca tive. Tinha uma força em sua voz que contagiava diametralmente. Era de fato sublime aquele encontro mais que intelectual, pujante. Não que eu não tivesse o devido apreço pelos meus pares, mas os traços sanguíneos são imperativos nessa questão, não nos dão direito à escolha. Neste caso, o processo se dava por potência e ato.

Enquanto ela falava, eu me perguntava silenciosamente se os familiares daquela mocinha sabiam da joia rara que tinham em seu convívio, me perguntava como seria sua vida, quais seriam os seus valores, quais seriam os seus destinos.

Não era minha tarefa descobrir, deixo as investigações para os personagens dos folhetins e, afinal, eu precisava apenas conviver um pouco mais com aquela áurea. Um pouco mais apenas, pois o trem parou. Despedimo-nos e naquele momento seguimos nossos dramas cotidianos como indivíduos que somos, singulares, únicos, buscando sempre algo para transcender, nos tornar coletivos, humanos.

Nos dias subsequentes, enquanto enfrentava a saga naquele mesmo vagão, com o mesmo rito, com as mesmas inquietações, fraquezas, fortalezas, munia-me de precauções especiais para que pudesse retribuir de alguma forma o bem que aquela jovem me proporcionara.

Os dias se passaram até que o reencontro, talvez inevitável, aconteceu, agora, ela que me viu. Um cumprimento fraterno, um sorriso breve e de novo um diálogo enriquecedor e inexplicávelmente desprovido de qualquer noção de temporalidade. Quantos minutos, horas, anos durou aquilo? Não Sei.

 Presenteei-a com um livro, a fiz prometer que leria (como se isso fosse preciso) e ficamos intermináveis e virtuosos minutos nos tornando humanos até que novamente, o barulho das máquinas diminuiu. Percebi a hora de mais uma despedida, esta, com um abraço de gratidão que nutriu minha alma, sustentou meu ser, e certificou ao universo que as chamas daqueles que contemplam, vislumbram e ousam sonhar ainda estavam aqui e principalmente por aí, caminhando, percorrendo as selvas de pedra, o cotidiano assassino, a poluição imagética de nosso concreto urbano tão fragmentado. As chamas permaneceriam acesas, vivas e sobrevivendo naquele púbere ser humano.

Nunca mais nos vimos, Não mais pude embarcar naquele vagão devido aos fantasmas da velhice que, paulatinamente, se materializavam sob nomenclaturas de novas enfermidades. No entanto, aquele abraço não só tornou os raios anis oriundo do pôr-do-sol muito  sobre as janelas do vagão mais poéticos, como também preencheu uma lacuna de fé na vida desse pobre velho que busca sugar do mundo o que há de mais belo para sobreviver: a simplicidade, a firmeza, o benefício da dúvida e a beleza da poesia, somente encontrada no âmago de um verdadeiro coração juvenil, um relicário.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Dormindo de um Pesadelo

Boa noite, madrugada.
Decreto acabado  esse dia.
Dia que quero deixar aqui,
Nesse presente que transforma-se em passado.
Que o futuro que transforma-se em presente acalente meu espírito!
Pois decreto agora o fim dessa tormenta.
Que o amanhecer traga a bonança...

Wescley Pinheiro

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Haikai da Poesia

- Minha rima é popular
Tão errada como esta.
- Caro poeta, não existe rima certa


Wescley Pinheiro

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O Parto


Escrever deveria ser admirável. Não essa admiração de fora para dentro tão propagada no mercado das sensações. Falo da admiração de dentro para fora, refiro-me à satisfação por si só, ao deleite incidente.

Não, escrever não é sexo, é parto. Não é prazer, é sacrifício. É a incongruência de nossas almas atormentadas sendo postas à prova, nos obrigando a pensar e expulsar quaisquer coisas que sejam da gente. É a prova da racionalidade e da possibilidade de transformação ao colocar em um papel aquilo que só existia em nós. Vejam que metafísico!

Gozo e depressão, tragédia e farsa, parto.  Escrever deveria ser admirável, deveria ser sublime, mas ao colidirmos com nossos relatos e nos deparamos com a obviedade de nossa produção, com o difícil e doloroso percurso da légua tirana da mente até a ponta do lápis, percebemos que o que está escrito não é digno de todo esse ritual, de que o espírito é mais prolixo que nossas mãos.

Não temos técnica, mas isso é o menor dos problemas. Assustamo-nos mesmo quando nos descobrimos com a incapacidade adquirida na dureza do cotidiano. Ficamos putos ao sermos incompetentes na missão de transformar as emoções em palavras, pois petrificamos os nossos peitos, quantificamos todas as sensações e sentimentos e somos inaptos a fazermos o caminho inverso.

Escrever é fado, é peso, é parto. Pior, apesar disso é impreciso, inevitável, necessário. No mundo imagético, rápido, fugaz, fluido, escrever é aquela moda que não tem mais valor de troca, é o exercício mais temido da obesidade mórbida cerebral. É a atividade mais próxima de nós mesmos, por isso desejamos rechaçá-la.

Transcrevemos relatórios, artigos, resenhas, receitas, mas não somos capazes de inventar. Ficamos pasmados ao conjecturarmos a possibilidade de mente e coração se acharem no papel, duas linhas paralelas se encontrando no infinito.

 Escrever é criação, transformação, desprendimento, parto.

Escrever dói.


Wescley Pinheiro.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A Parábola do Pássaro


Queriam que ela estivesse lá
Branca, bela e imponente
Mas ela não foi
Estava presa em uma gaiola de ouro

Queriam que ela estivesse lá
Com suas asas largas e eficazes
Com o seu busto estufado e charmoso
Mas estava faminta, não pode decolar

Ainda sim, queriam que ela estivesse lá
Desfilando seu andar simpático e faceiro
Apresentando-se como regozijo frente à angústia
Mas ela tinha medo do barulho dos fogos

Eles a queriam lá, mas ela não foi
Usaram a força, mas ela não foi
Preparam o espetáculo, mas ela não quis ir
Pois era acostumanda com o teatro de rua, não com palcos

Não entendiam como ela não estava lá, pois eles queriam!
Queriam-na simbólica, inspiradora, emblemática
E eles sempre conseguiam o que queriam
Mas tímida, ela não abriu o bico

Eles a queriam muito
Não compreendiam sua ausência
Ora, uma pomba não voa assim
Presa, com fome e com medo!

Wescley Pinheiro

domingo, 28 de novembro de 2010

Recital Urbano


Havia lágrimas e sangue
Havia gritos e sussurros
Havia tiros, cortes, mortes
E o poema era de amor

Wescley Pinheiro

sábado, 27 de novembro de 2010

A vítima negra



O bandido é preto
O mendigo é preto
O desempregado é preto

O PM é preto
O fuzil é preto
O camburão é preto

É preto.
São... Eram.
A página do jornal é vermelha

Wescley Pinheiro

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A Fuga


Sempre após o jantar ia ao banheiro fumar escondida. Não queria que seu marido soubesse que descumprira novamente a promessa, mesmo que fosse apenas mais uma de tantas outras ocasiões e de tantas outras promessas.
Apesar dos melindres, o mau cheiro que escapava por debaixo da porta esbarrava na indiferença dos demais, impedindo que o triste e monótono habitual fosse quebrado.
A fumaça abafada parecia deixar aquele ambiente pequeno e sujo ainda mais caótico. Ela sugava o cigarro de olhos fechados, prendia respiração como se fossem seus desejos e depois baforava devagar, transferindo para esse ato toda a crosta opaca de sua vida. Repetia o gesto várias vezes.
Lá fora, a casa desarrumada, as contas espalhadas na mesa da sala, a louça suja empilhada na pia, os gritos de sua filha ao telefone, a televisão hipnotizando o marido...
Mais um trago, uma tosse forte, um escarro. Estava feliz.

Wescley Pinheiro