domingo, 23 de dezembro de 2012

Amém


Do carrasco
Tenho asco

Pego sua língua
Faço Churrasco
Em suas pragas
Eu jogo água
E cheiro o mormaço

De suas preces
Eu dou risada
E fico bem

De sua jornada
Faço piada
E digo amém

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Quero


Quero uma sopa de letrinhas
Temperada com lirismo
Pra cozinhar os meus versos
Na fogueira das vaidades
Quero embebedar-me de sonhos
Cambalear-me em rimas
Ressaquear a saudade
Amarga, num fim de tarde
Quero a ebriedade
Para depois vomitar
Tudo aquilo que alucina
E doses dessa verdade

Não quero as frases de defeitos
Nem nossos ditos ditados
Quero que falem os calos
Que calem os falos
E que o doce pós-banquete
Lambuze-me de ousadia
Quero tudo e quero o nada
Beber a noite, comer o dia
E vomitar madrugada

Quero que destilem em meu sangue
Gotas de versos ardentes
Que fermentem em meu espírito
O não-lugar mais bonito
Onde o que reluz é couro
E o que é louro não brilha

Quero a linha do horizonte
Pra costurar meu poema
Vou escrevê-lo com os pés
E recitá-lo com as mãos

sábado, 27 de outubro de 2012

Gonzagas



Como contar a história de dois artistas incríveis, de um pai ex-militar, de um filho de esquerda, de um pai autoritário e ausente, de um filho revoltado e rancoroso? Como contar uma história de homens tão marcantes para a arte desse país?

Quando vi o trailler já me arrepiei com a caracterização do ator que interpretou Gonzaguinha, desde então esperei a estreia desse filme de dois personagens impressionantes. Hoje vi o filme e não me arrependi, fui coberto pela mais intensa chuva de sentimentos que essa junção de drama familiar, biografia de dois grandes artistas e espetáculo de música de qualidade dentro de uma obra audiovisual muito peculiar por esse desafio descomunal que a própria historia que propôs contar proporcionou.

O filme Gonzaga é emoção a flor da pele. Quem é fã de um ou de outro, ou de ambos não tem como não se emocionar. A complexidade de tais personagens, as contradições, os conflitos, os talentos singulares nos envolvem como a sanfona de um e o violão de outro. As diferenças e semelhanças, a construção de mitos e a desconstrução “humanizadora” com os defeitos de um Rei e as mágoas de um Príncipe, entre ausências e erros, a admiração, a arte e a superação.

O triunfo do sertão, a maestria da luta do povo, a sagacidade da cultura popular, a poesia de quem sonha outro mundo, os limites e as possibilidades, perpassadas, transformadas, contrariadas em artistas de tempos e espaços distintos, pai e filho, ao encontro e de encontro por aspectos universais, por cisões materializadas em conflitos singulares, de homens, artistas, pai, filho. O acerto de contas entre eles, dois gênios, aflorou o orgulho que tenho de ambos. A identificação estética e cultural com o pai, a identificação artística e política com o filho e uma confissão minha aqui de ter ficado com um gostinho de poder ter visto mais da trajetória, seus sonhos, suas bandeiras do Gonzaga filho, mesmo que dentro do contexto abordado tais construções tenham contemplado isso também.

O filme está à altura de sua história? Digo com toda certeza que não! Acho até que seria impossível fazer algo próximo de chegar à história tanto de Luiz Gonzaga, como de Gonzaguinha. Tarefa difícil também retratar a amplitude artística de ambos e, por último, uma relação familiar tão intensa e cheia de sentimentos dos mais diversos, mas nada disso tira o brilhantismo da obra, posto que ela chega até onde qualquer um que não seja um dos dois Gonzagas conseguiria chegar. A despeito de alguns clichês e do drama quase constante, gargalhadas aparecem, sorrisos de canto de boca, uma nostalgia bonita, seja da cultura popular tão ataca e massificada hoje em dia, seja pela saudade, pelas saudades dos artistas, do artista que é gente e do artista que é luta.

Não tem como não se emocionar com dois personagens tão incríveis, não tem como não se vê em seus conflitos como pessoas, nem tem como não admirar o sertanejo Seu Januário e ainda não se lembrar do legado dos mesmos e de sua família que ainda hoje canta com suas semelhanças e seus ineditismos tão peculiares e evidentes naquela prole.

Os Gonzagas já me encantavam e me emocionavam, cada um de  sua forma. Vê-los magicamente juntos, conversando, brigando, rindo, chorando e cantando foi estado de graça. Só a arte, só a música e só o cinema para proporcionar isso tudo aqui e agora!

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Fiz



E fiz da luta força
E fiz da terra moça
E fiz da guerra puta
Fiz da labuta louca
E da disputa entrega
E fiz para ser livre

Mas Liberdade
Também tem suas regras

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Quatro horas



Tino e Destino
Se atracam em desatino
Já é dia
E não há sol

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Nós



Não estou falando de sangue
De algo naturalizado
Nem de DNA, nem de tradições
Nem de preces e sermões
Falo de nós

Falo dos elos
Singelos
Apertados em calmaria
Nos desejos paralelos
Em tristezas e alegrias

Não falo da nostalgia
Falo dos sonhos roubados
Dos pecados perdoados
Falo dos aprendizados
Do eterno construir
Sim, falo do passado
Do presente (e do ausente)
Falo do devir

Falo dos nós
No cordão do inesperado
Dos desafios lançados
Do olho do furacão
Do alicerce  testado
Firmando-se em decisão

Falo dessa compaixão
De algo maior que o sangue
Muito mais que sobrenome
Falo do que somos: Nós
Somos juntos e somos sós

Nós
Difíceis de desatar
Tão distintos e tão únicos
Mas com a capacidade de ser
De sermos
Juntos
De sermos muitos
Entrelaçados e abraçados
Sempre atentos, em vigília
Diferentes entre si
E ainda uma Família


Para meus pais Beto e Lídia e meu irmão Pacato 

terça-feira, 4 de setembro de 2012

POETA

Assim
Sagaz

Só Góes



Pequena homenagem do fã aqui  a uma referência, Poeta dos bons: Múcio Góeshttp://www.facebook.com/photo.php?fbid=279187212190520&set=a.108457535930156.15133.100002977317102&type=3&theater

terça-feira, 28 de agosto de 2012

A Sina do Histrião


(Essa é a sina
Do histrião
Que usa a risada
Como espada
E Faz piada
Contra opressão)

Amordaçaram
O palhaço louco
Que fazia pouco
Daquele opressor
E torturam,
Rasgaram seu corpo
Só porque ousou
Rir de tanta dor

O espancaram,
Tiraram do palco
O pobre palhaço
Que quis ser bufão
E ele torto
Fingiu-se de morto
E deu um sorriso
De subversão

(Essa é a sina
Do histrião
Que usa a risada
Como espada
E faz piada
Contra opressão)

Conta anedota
Segue a rota
Fazendo chacota
Do grande opressor
Ele é artista
Truão terrorista
Com bomba humorística
Explode o terror

Nosso palhaço
Bobo-da-corte
Xingou o açoite
E pôs-se a sorrir
E no deboche
Curou-se dos cortes
Fez pouco da morte
Resolveu partir

O tal opressor
Não entendeu nada
Como a palhaçada
Não pode acabar
Sendo a piada
A arma ilibada
Que mira na alma
Ao te alvejar

E o palhaço
De ponta-cabeça
Corre, pula e deita
No seu picadeiro
Fazendo pouco
Até ficar rouco
Compondo a vida
Peça sem roteiro:

Dores depois
Amores primeiro

sábado, 25 de agosto de 2012

A Ave de Minerva


Sonhos em vão
Tortos problemas
Bolo de pena
Voa (aparentemente) serena
Ossos e ócios na madrugada
Ela vinha, ela voa
Ateia, à toa
Tarda

Enquanto eu fito
Calo e reflito:
Pare com isto
Fogo de palha!
Voe mais alto
E nunca mais fuja
Tu és coruja
Preste atenção
Rasga-mortalha,
Não!

sábado, 11 de agosto de 2012

Estante



Discos
Com refrãos e firulas
Folhas com rabiscos
(E censuras )
Estiletes e bilhetes
Lembranças boas
(algumas duras)

Berimbelos da Índia
(Pra dar sorte)
Aparelhos e bilotos
Lá do norte
E alguns livros velhos
Cor-de-morte

E que ninguém nunca leu

terça-feira, 31 de julho de 2012

Fronte


Quando o antídoto do veneno do cinismo
E o limiar das baionetas da maldade
Se fundamentam em valores e verdades
Não há receio ao bradarmos na disputa
Se nos espera sempre em frente a vil conduta
Que seja a luta nosso norte permanente
Que seja a cor dessa coragem a semente
Para fazer de nossa ação mais forte e viva
Ao colocar nessas feridas os nossos dedos
Pois quando não há mais nenhuma expectativa
Não há medo

sexta-feira, 27 de julho de 2012

O PATO E O PINTO (OU ESQUIZOFRENIA ELEITORAL GRATUITA)


Havia um pato faminto
Havia um pinto gaiato

O pato pacato
O pinto sucinto
Viviam brigando
No labirinto

Pato e pinto
Tão concorrentes
Quanto distintos
Pinto e pato
Feito cão
Feito gato
Dando patadas
Dando pintadas
No abstrato

E assim deu-se o ato:
O pinto bicou o pato
O pato bateu no pinto
O pato pintou o pinto
E pinto pagou o pato

Até que o Pinto disse:
- Não minto!
E o Pato lhe retrucou:
- Não mato!
E o Pinto junto do Pato
Por um mandato
E o Pato junto do Pinto
Contrato extinto
Gritaram: - Sinto muito! Muito sinto!

Pinto e pato
Caminharam em ultimato
Dentro daquele recinto
Para o fim
Para o prato
Pato e pinto
Tão contentes
Quanto indistintos
Pinto e pato
Feito chão
Feito ratos
Dando patadas
Dando pintadas
No abstrato

Pato e Pinto
Amando-se no labirinto
Pinto e pato
Cozidos, casados
Traídos, tratados
Carrapichos, carrapatos
Famintos, gaiatos

Tristes fatos

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Sina



Mal sabiam
Que o deixando com fome
Alimentavam um monstro

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Sinal




Mente correndo
Corpo parado
Copo quebrado
Dentro do Carro
Tosse e escarro
Me acabo
Em catarro

Em cubo
Não caibo
Em foda
Enfado
Em moda
O Mundo mudo
Roda
Engarrafado

Corro
Paro
Acelero
Disparo
- Corra! -
Tolero!
- Porra! -
Espero
O freio
O fim
O inicio
O meio

Tenho morrido mais a cada dia

sábado, 7 de julho de 2012

Arte


Feito de sangue e de versos
De ritmo e de feridas
De metáforas, de crimes e de lágrimas
De lamentos poéticos perfeitos
E desse ar rarefeito
Como é lindo o teu sofrer!

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Clichê



Dia e noite
Eles andaram
Eles amaram
Eles choraram

Noite e dia
Eles rimaram

Paixão com coração
Tédio com remédio
Amor com dor
Samba com bamba

E o poema
Antes no cio
Ficou
Vazio

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Para Luan



Vejo esse céu mais azul
Vejo essas nuvens mais brancas
Sinto o sangue mais vermelho
Olho-me no espelho
E vejo você

Reflexo da ousadia
Com o olhar de verso e rima
Espalhando alegria
E vontade de vencer

Vejo você em cores
Em dores
E amores
Como acreditar no fim?
Como não te ver em mim?
Posto que és coração

Como não te ter em mim?
Se tudo parece sonho
Nessa batalha da vida
De aguerridos poetas
De charangas e charadas
E vibrações tão discretas

Como não lembrar de ti?
Sonhador inveterado
Aguerrido, obstinado
A vencer qualquer partida
Vencedor do invencível
Ousando ser um menino
Que riu da sobrevivência
Que driblou o desatino
No jogo da existência

E sabendo dessa essência
E que estás presente aqui
Não posso crer nesse fim
Pois viverás nos meus gritos
Nos alegres e nos aflitos
Como forte inspiração
No amor compartilhado
E nesse jogo jogado
Posto que és coração

Em seu sonho inacabado
Só desejo que recebas
O abraço tão leal
De quem vibrou na torcida
Até a sua partida
E o apito final

Vejo esse céu mais azul
Vejo essas nuvens mais brancas
Sinto o sangue mais vermelho
Olho-me no espelho
E vejo você

Vejo alegria e tristeza
Vejo sonhos e certezas
Vejo reflexo de força
Vejo Luan: Fortaleza

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Prólogo



E quando me faltar força
Sobrará coragem
Quando me faltar ideia
Sobrarão meus ideais
Quando me faltar água
Sobrará sede de justiça
Quando me faltar alegria
Sobrará minha utopia
E quando faltar a noite
Sobrarão Dias

E em cada tiro de maldade seu
Atirarei um verso de verdade meu
Um verso que componho
Do fruto de minhas sobras
De minhas obras
Daqueles sonhos

Versos bélicos
Para alvejar-te sem dó

terça-feira, 22 de maio de 2012

Silêncio

Não me pergunte sobre meu dia
Sobre esse trêmulo sol que me queima
Com o capricho agonizante
 De quem já não teima em sonhar

Não me pergunte sobre minha noite
Obscura e em claro
Sobre meu peito rasgado
Por minha voz que calei

Pergunte-me sobre esse silêncio
Posto que é semente
Plantada por outros
Regada conosco
No centro de meu jardim

Pergunte-me sobre o silêncio
 Um verso torto
Morto
Escorraçado
Cavalo alado
Que voa em mim

Esse silêncio é fiapo
Trapo de rima
Dependurado
Num fio cortado
Na estrofe do fim
É passado e é devir
Máscara de dor
Que eleva o medo
E sucumbe o desejo
De quem queria um abraço
E não precisa pedir

O silêncio é desamor
Palavra não dita
Que quer perdão
Seria consolação
Se pudesse ser quebrado
Pois tudo que quer és tu
Ao lado
Com olhos de aceitação

Esse silêncio é um grito
Aflito
Talvez em vão
Talvez
Não

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Finito


Odeio o ponto
Odeio aquilo que me encanta
E é o humano

Odeio aquilo que desaba
Que acaba
É leviano

Odeio o verso
Odeio aquilo que seduz
Que é cruz
E é profano

Odeio o que é belo
E vai embora
Odeio o que é rima
E chora

Odeio aquilo que me excita
E me despreza
A qualquer hora

Odeio aquilo que reza
Que preza
Não  por mim
Mas por Nossa (Senhora)

Odeio aquilo que é humano
E berra
E erra
E é demais

Odeio aquilo que é humano
Que é fulano
E se desfaz

Odeio aquilo que é humano
mas é divino
Odeio primeiro
e primo
o tiro
certeiro
do todo
da parte
daquilo
que chora
que vem
que vai
embora
na arte

Sim
Odeio não
Odeio aquilo que é humano
Que é engano
Que é assim

Sim
Odeio o ponto
O pronto
A base
A frase
O fim

Wescley

terça-feira, 24 de abril de 2012

Trabalho


Penso em versos
Fantasio 
Quase crio

Quase
um rio
de palavras
Se derrama 
em alvoroço

Mas não:
Fim do horário de almoço

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Quarta-feira

Restam cinzas e lembranças
Desses dias que vivi

Pro pecado fui afoite
Fui lua daquela noite
Fui pesadelo e açoite
Que sofri e que sorri 

Fantasiei-me de espelho
Fui saudade da minha rua
Fui a minha carne crua
Pronta pra queimar ao sol

Fui um peixe no anzol
E isca da alegria
E dose de nostalgia 
Jogador de Futebol

Fui palhaço e feiticeiro
Fui um gole de cerveja
Fui um bolo de cereja
Que sozinho engoli 

Restam cinzas e lembranças
Desses dias que vivi

Fui a cozinha do medo
Fui o tempero da vida
Adocei minha ferida
Na panela do segredo

Para os sonhos fiz a massa
Com as mãos do sentimento
Das dores fiz o fermento
Da força fiz minha graça

Esquentei-me com o abraço
E servir-me de ilusões
Fiz piada de sermões
E jantei o meu compasso

Fui a canção que ouvi
Fui teatro abandonado
Fui verso despedaçado
No poema que escrevi

Restou cinzas e lembranças
Desses dias que vivi

Wescley

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Fértil-mente

Minha abeça não para
Dispara
E não me deixa viver

Minha cabeça é gelada
Minha cabeça vê

O espetáculo
O obstáculo 
Teatro menino
Onde o tino e o destino
Se atracam em desatino


E em vão
Se atracam
Buscando abraçar 
O meu mundo com as mãos

Assisto
Na minha cabeça eu crio
Enquanto tremo de medo
e frio


Á fio
No teatro de minha cabeça
Nesse ato pequenino
Suvino
Eles (tino e destino)
Estrebucham
E murcham

Alucinam tentativas
Onde sonho e pesadelo
Fotografia e espelho
Problema e solução
se abraçam (também) 
em vão
(Não!)

Se agarram
Passeiam pelo vagão
No trem de uma estação
Das flores
das dores
Outono ou
Verão

E vocês verão
Tanto  o tino 
como o destino 
Sofrem
Em minha cabeça
Que (agora) voa
Numa boa

E eu no meio deles
Daquele tino tão sujo
E do destino confuso
Fujo

Vou, mas volto
Antes do inverno chegar

quinta-feira, 22 de março de 2012

Ruminante

Tenho fome
Sinto falta do ar e do mar
Sinto falta da sede
De amar

A vida me sufoca
Me soca
Pede gana
Pede grana
Escana
E eu aqui sem ar
Não paro de pensar:
Tenho fome

Grito!
Peço socorro!
Corro
Caio e perco
Esse todo
Sem nome
Que me faz
Nada mais
Que ter fome


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Amigo, feliz ano novo (Fortaleza-CE, 02/01/12)



Caro amigo,

Desculpe-me o atraso em te escrever, sabe bem como é essa época de fim de ano, muitas festas, muitos presentes, muitas luzes, pouco tempo. Você conhece bem e deve achar também uma época mágica. Há de convir que trocar o ano velho por um novinho, brilhando, cheio de energia, pronto para ser todo gasto, é pra lá de salutar!


Quero que você me conte as novidades, pois aqui está tudo muito bem! A confraternização do dia trinta e um, como foi a sua? A nossa foi uma maravilha! Fogos, votos de felicidade, promessas para emagrecer, para estudar mais, para parar de fumar... É, sem dúvidas, um tempo em que a reflexão, a solidariedade e a esperança imperam em nossos corações, alegramo-nos com a possibilidade do que o novo pode nos revelar e isso é incrível.


Aqui em nossa festa bebemos muito, vimos e ouvimos os fogos, comemos pratos deliciosos, contamos piadas, cantamos e dançamos, enquanto tínhamos a absoluta certeza de que a partir de meia noite tudo iria mudar, que nada mais seria ruim, que as palavras “amor”, “amizade”, “paz”, “sossego” se transformariam em sinônimo do cotidiano desse ano novinho que estava chegando. Aliás, que benção o ano começar num domingo ein? Uma feliz coincidência cristã, um dia de descanso, de ressureição, de fé.


Como disse, ficou difícil de escrever antes em meio a tantas sensações saborosas, com essa data e suas certezas inexoráveis que nos afogou em alegria e satisfação. Foi uma boa algazarra madrugada afora, não só aqui, com os amigos e a família, mas nas casas dos vizinhos, na multidão que foi à praia, nas grandes casas de shows, nas igrejas, etc. É muito bom iniciar o ano assim, nesse clima de otimismo e paz. Impossível não ser feliz, contigo certamente não foi diferente. 

É uma sensação bem curiosa, camarada. Sobretudo hoje, dia dois de janeiro, segunda-feira, dia de começar tudo novamente, quando estamos todos prontos para materializar todo esse bem estar que temos a convicção de que agora é pra valer. É isso, estou assim, convicto, feliz, dentro da minha casa, enquanto o exercito está nas ruas da cidade, com seus fuzis, suas fardas e suas ordens tentando proteger todo esse povo inocente e bem intencionado, buscando garantir que as lojas obtenham seus lucros com tranquilidade e, principalmente, defender a integridade do governador e do patrimônio público que teme as manifestações dos policiais grevistas que estão lutando para serem valorizados.


Tenho que admitir que não demorei à escrevê-lo somente pelas festas, tem sido um pouco difícil sair de casa. Sim, mas estou certo que tudo ficará bem, nada poderá me tirar a confiança nesse novo ano, mesmo as notícias que leio nos jornais agora, com todos os acidentes, furtos e roubos que ocorreram naquelas lindas festas que exalavam boas energias antes de ontem. Nada pode me tirar esse bom sentimento! Nem esses fuzis, nem essa estranha inversão de valores de “polícia x governo”, muito menos o fato de que aqui na cidade aconteceram cinquenta homicídios nesse fim de semana. Não, esse ano vai ser diferente, mesmo que só na noite de ontem dezoito pessoas tenham sido assassinadas aqui, sim, ontem, domingo, dia de ressurreição, de fé, de esperança, o primeiro dia do ano que prometemos que seria diferente.


Amigo, ouço um barulho agora, não sei se são tiros ou fogos de alguém tão otimista quanto eu que ainda comemora esses dias de sossego, paz e prosperidade. No caso da primeira opção, talvez seja uma boa ideia improvisar um ano novo de novo, logo esse mês, caso este se desgaste demais prematuramente.


Mas quero crer que nada disso abalará o que este novo ano nos reserva. Os hospitais abandonados, as escolas sucateadas, as estradas esburacadas, nada me fará esquecer o quão firme foram aquelas promessas, quando todos disseram que fariam deste ano feliz. Não perco a fé, nem pelo fato de Bombeiros e Polícias não terem um salário digno, nem boas condições de trabalho (e não serem exceções), nem também por termos governantes tão pedantes e incompetentes, um estado falido, um salário de fome, uma desigualdade social tão acentuada e aquele velho conhecido fenômeno da corrupção perene e capilarizada, isso não é motivo para ficar triste, nem pessimista.

Não será também por que outros trabalhadores, com medo de tudo isso e cansados de também serem desrespeitados e explorados, como os bancários, os motoristas de ônibus, os socorristas das ambulâncias, estarem ameaçando parar de trabalhar, exigindo um basta nesse caos generalizado, que eu perderei a esperança em tudo aquilo que acreditei quando os ponteiros dos relógios anunciaram o novo ano. Confesso até que renova minhas esperanças.


Tenho absoluta convicção de que isso tudo faz parte de um conjunto de casos isolados, o mundo mudou, os sorrisos e as preces, as orações e as simpatias, os presentes trocados e os abraços sentidos não foram em vão, tenho fé. Talvez, não devamos prestar muita atenção nessas coisas, afinal, vida nova. Operários, professores, estudantes todos disseram que seriam felizes a partir de hoje... e somos.


Quase me esqueci, feliz ano novo! Evite sair de casa a noite, não use cordão de ouro, economize energia, obedeça as ordens de seu chefe, tente pagar a fatura do cartão de crédito esse mês e não atrase o IPVA. Eu vou ali me esconder debaixo da cama e atualizar meu currículo, depois do tiroteio irei em busca de um emprego. A propósito, onde passará o carnaval?