sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Calendário

Pedaços de passado nos iludem
As tardes são quentes
E despedaçadas

Migalhas de futuro nos confortam
Os dias são raros

E desperdiçados

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Mais uma noite

Em frente aos olhos
Uma janela e o botão verde
Outra janela e o traço azul
Há muitas portas fechadas em meu peito
Com o silêncio dessas letras denunciando tudo
E a solidão gritando sem parar

Na fechadura da mente
A herança de um blog moribundo
Frases tortas perfurando o abismo
A lembrança triste daquele dia e do sofá
E o medo do medo do medo


Não há com quem conversar

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Café

A sensação agridoce da saudade
E o desconcertante gosto da surpresa
Temperaram a xícara de café
Junto com a doce textura do texto
E a fome insaciável do desejo
No banquete deletério da ilusão

E eu que outrora morri de inanição
Já não reclamo de minha própria companhia
E me sacio com doses de solidão

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Angústia

Aqui estrebucha
Um vácuo estranho e gélido
Um buraco que cresce sem parar
No vazio que a incerteza cavou
Grita o oco do mundo
Em mim

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Gotas de resistência

Pelejar nesses tempos arenosos
É um caminhar constante sobre espinhos
Labutar contra seus próprios vacilos
E saltar as esparrelas do mundo
Nesses tempos arenosos
Onde os sonhos estão no volume morto
Onde o luto seca a luta
É difícil não sucumbir
Quando nos querem pedra
Quando nos querem máquina
Querem-nos presos
Querem-nos presas de nós mesmos
Pacificando nossos passos
Apassivando nossos sonhos
Petrificando o horizonte

Pelejamos sobre o chão seco
E o nosso único trunfo
Ainda em tempos arenosos
São os olhos das/dos camaradas
De onde caem gostas de coragem
Olhares que resguardam no fundo
Tempestades de força, um céu de possibilidades
Um mar de ousadia, um solo de fertilidade
Nesses tempos difíceis e arenosos
Basta um olhar para o outro,
Basta uma mão sobre a outra
E as restantes em punho
Para que saciemos nossa sede
De busca por transformação
E possamos semear outro tempo

Tempo de realizar

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Saudade

No riso frouxo e sem sentido
No silêncio que afagava
Na lembrança que aperta
Como o abraço de outrora
No vazio do agora

Moram vocês em mim

Insta

Poesia hoje em dia
São apenas quatro estrofes
Com uma foto de academia
Ou de um prato de strogonoff

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Muro branco
Homem Preto
Com tinta vermelha
Pintando respeito


Liquidificador

Na boca do estômago
O soco
No saco de temores
Sufoco
No suco de lembranças
O louco
Gosto amargo de viver

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Qual é o seu problema?


Patife! – Me engana a dublagem
E eu retruco em silêncio.
Com um palavrão verdadeiro
Como quem grita por dentro
Como a raiva de Skylab
Como pateticamente sentir raiva de Skylab
Ou do mundo das dores
Onde no fim vem os créditos
 E os débitos dos versos
E dos roteiros de uma vida
Que eu nunca escrevi

sexta-feira, 31 de julho de 2015

A luta.

São uma e meia da madrugada. Deve haver uma boa frase, dessas de facebook, que resuma bem a surra que estou levando. Desde onze da noite, a cada meia hora, entro em um novo round contra essa maldita companheira. Fecho os olhos e mil coisas enchem minha cabeça de porradas, cruzados de sonhos para cá, jab´s de preocupações para lá, fortes chutes de devaneios quaisquer e sequências de socos certeiros de certeza de que estarei um caco na hora que eu deveria acordar.

E é assim que funciona: Vou apanhando, apanhando e quando estou quase sendo nocauteado, apelo para o gongo, ligo a tv ou vejo um vídeo no youtube e ganho cinco minutos de distração. Depois desligo, me viro na cama, me reviro logo após e lá vamos nós novamente.

Os ponteiros ultrapassam minha consciência. Penso que deveria ter lavado aquela pilha de pratos, passado as roupas, feito a mala, lido aqueles livros que estão na mesa... teria dado tempo. Penso que poderia ser um desses vlogger´s que estão na moda, que ganham uma grana falando trivialidades na internet, ou que talvez o melhor teria sido ir tomar uma cerveja e pelo menos ter vencido parcialmente a tosse seca intermitente que me ataca a garganta, tempero peculiar dessa batalha noturna.

Penso em levantar. A dura ironia é que, ao contrário do boxe, nessa analogia infeliz, ir à lona seria a minha vitória, ao passo que ficar de pé e ir aos afazeres urgentes e devidamente procrastinados, demonstraria a evidente derrota ante à minha adversária irremediável.

E esse barulho lá fora? Será o caminhão do lixo? Está atrasado hoje. Uma e quarenta e quatro. Talvez eu fale demais durante o dia, talvez eu reclame muito de tudo, talvez eu cobre muito do mundo e de mim mesmo. Hora da severa avaliação sob o som do caminhão do lixo. Momento tradicional. É provável que eu esteja um caco amanhã. Olheiras enormes, de mau humor, tossindo e com uma pilha de pratos para lavar, com roupas para passar e uma mala por fazer. Se eu fosse um desses caras que fazem sucesso com as amenidades na internet talvez tivesse tudo isso ainda, mas poderia ganhar dinheiro com essas lamúrias.

Se eu fumasse teria acabado meu sexto cigarro agora. Eu bem que poderia ser um desses humoristas de stand up comedy e reclamar disso tudo com o microfone na mão num desses barzinhos chiques. Poderia fazer piada com a proposta do ministro da educação para as universidades, poderia publicizar aquela piada que pensei sobre o fato de que ser professor é ter pelo menos trinta e tantas pessoas  torcendo para que você adoeça num dia de prova. Ou ainda partir para o golpe baixo dos trocadilhos e falar do currículo “que latte mas não morde” e dessa sanha maluca produtivista e a exigência do talento de escritor para exercer a dádiva da invenção com aqueles relatórios intermináveis e repetitivos e da prática do pior neologismo da face da terra: artigar. Seria legal falar sobre essa ficção científica que alimenta o insaciável monstrinho que nos capta o espírito. Acho que ninguém veria graça.

Pois é, tudo não passa de mais golpes nessa tempestade de pensamentos. Falando em ser escritor, bem que eu poderia ser um de verdade e transformar esse lenga-lenga numa crônica com alguma qualidade. Ao invés disso estou perdendo a luta contra minha inimiga íntima. Levando porrada do invisível, sendo enxotado por um caleidoscópio de auto-cobrança, ansiedade e falta de foco.

Uma hora e cinquenta minutos cravados no relógio . Preciso achar uma saída. Vou achar e quando encontrá-la escreverei sobre ela. Farei um livro de autoajuda daqueles de vitrine de livraria e ficarei rico com essa pancadaria. Ou melhor, vou recorrer para esses contos de bruxas, vampiros e fadas ou ir para frases de efeito que possam ser recortadas e colocadas nos giff´s das correntes de e-mail´s ou nas fotografias compartilhadas nas redes sociais. Um escritor de 140 caracteres!

Ser um bom frasista poderia ajudar a transformar essa tortura em algo produtivo. Eu poderia escrever sobre política, mas eu seria assassinado pelas torcidas organizadas das eleições, eu poderia escrever sobre futebol, mas os beatos dos clubes não me deixariam impune. Eu poderia ainda profanar alguma religião, mas algum deputado certamente iria me processar. Preciso de uma boa frase, mas  assim fica difícil. Triste de um povo que trata política como futebol, futebol como religião e religião como política.

Duas horas da madrugada. Necessito de uma frase já. Deve haver uma boa frase, dessas de facebook, que resuma bem a surra que estou levando. O relógio denuncia meu estado deplorável, a escuridão tonifica meu desespero e o cursor piscando insistentemente na tela do editor de texto desse notebook evidencia o fracasso dessa última estratégia.

Preciso de uma frase. O despertador vai tocar em quatro horas  e não existe felicidade as seis horas da manhã.

Sétimo round!

quarta-feira, 29 de julho de 2015

O corpo

Dias e dias bem vividos, noites e noites mal dormidas, sol e lua testemunhas da vida e da morte nas ruas de nossas lutas. Aí o tempo passa, o corpo cobra e é preciso lembrar que atenuar também é humano. É necessário, a fina força, recordar a beleza de fechar os olhos.

Lá fora o tempo não espera, mas não será a esperança que irá me mover de novo. O corpo cobra, mas o espírito exige. E a exigência faz todo o sentido quando a direção se assevera queimando o combustível da indignação.

 Por dias muito mais bem vividos, com noites muito mais bem dormidas.


“Me poupa do vexame de morrer tão moço, muitas coisas ainda quero olhar”.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

A GRÉCIA E OS LIMITES DA ESTRATÉGIA DEMOCRÁTICO-POPULAR

http://pcb.org.br/portal2/8873

Os olhos voltados para Grécia não são por acaso, as análises divergentes também não. Há ali expressões mais evidentes da crise do capital, há também as manifestações mais explícitas das estratégias e táticas diante dos embates apresentados. Nesse sentido, o regozijo de certa esquerda do lado de cá com a política nos moldes hegemônicos, sob a faceta supostamente progressista e combativa do Syriza representa o último fôlego da estratégia democrática-popular e seus limites reformistas.
Se em nossas terras a crítica ao que se transformou essa estratégia fica, por vezes, no superficial moralismo e eticismo, referendando os erros dos mergulhos na jogatina da política formal, da disputa do estado burguês e do rebaixamento de pautas, a experiência grega surge para esses grupos como algo que poderia demonstrar que o erro não seria de concepção, mas de como se colocou em prática. Ledo engano, se é que se pode chamar isso de engano. Os olhos voltados para Grécia, nessa perspectiva, representa a centelha do reformismo tomando mais um gole de superficialidade para capitalizar seu protagonismo como suposta alternativa na complexa conjuntura atual.
Mas aqui também há crítica pela esquerda aos rumos da política grega. E o alerta e a crítica sobre os limites da política do Syriza pelos comunistas de cá nunca foi somente porque tem um partido com uma foice, um martelo e a cor vermelha em sua bandeira do lado de lá. O internacionalismo não se faz por uma adesão mecânica e/ou religiosa. Tem muito partido comunista mundo a fora que degenerou e está bem longe da reconstrução de um projeto revolucionário. A análise é de estratégia e não um proselitismo barato.
Felizmente o KKE não está nesse bolo reformista e demonstrou nos últimos acontecimentos o que muitos de nós já colocávamos em reflexões sobre nossa conjuntura: em tempo de alto desenvolvimento das forças produtivas, de mundialização e crise estrutural do capital, da explicitação da função do estado burguês, em tempos de barbárie não há nenhuma outra estratégia capaz de enfrentamento real que não seja a socialista.
Quando as contradições explodem como um vulcão, quando o povo trabalhador se percebe nos limites da superexploração, quando as pessoas não mais aguentam as desculpas, os arranjos, os acordos da muleta estatal ante os detratores do capital produtivo e financeiro, há dois caminhos para os coletivos de trabalhadoras e trabalhadores organizados politicamente: um é fomentar táticas de uma ruptura real com o âmago dessas contradições; o outro é arrefecer essa direção, buscar o mal menor, o supostamente possível, aquilo que já se coloca em frente aos nossos olhos. Um é o caminho da ruptura, o outro, da afirmação.
Não há meio termo. Não há ”não” para a austeridade que seja um sim para uma suposta “austeridade humanizada” ou a conta gotas. Não há esperança no campo da mera retórica, não existe trincheira onde não se busca lutar. Enquanto a crítica for moral, enquanto a crítica for contra um “tipo” de capital, enquanto a crítica for contra a forma de gestão, enquanto a luta for por “mais” direitos e não por todos os direitos estaremos sempre lamentando o aparente acaso de nossas derrotas. Seja na Grécia, seja aqui, quem sucumbe ao reformismo terá perenemente o enorme esforço de sempre buscar uma nova desculpa, uma nova miragem, uma nova roupa para seu rebaixamento do horizonte. O capital agradece.​
*Wescley Pinheiro é ​professor e militante do PCB em Mato Grosso

terça-feira, 26 de maio de 2015

Avançando

A caravana passa
Frente aqueles que refutam
Enquanto uns latem

Outros lutam

segunda-feira, 6 de abril de 2015

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(Essa não é uma historia de amor)

Maria (per)seguia João
E João irritava Maria
Sem saber
Sem saber que ela existia

E Maria quase morria
Com as falas de João
Assim a vida corria
Maria na aflição
Enquanto João sorria
Sem saber
Sem saber que ela existia

Triste vida de Maria
Correndo na contramão
Fofocando de João
Procurando a alegria
Plantando destruição
Enquanto João vivia
Sem saber
Sem saber que ela existia

E então num belo dia
João descobriu Maria
E tratou com ironia
Toda aquela afobação
Pois quando a pobre Maria
Berrava na covardia
João em sua canção
Vivia, sorria e dizia

“Sai dessa
Sai dessa, Maria”

quinta-feira, 5 de março de 2015

Sobre o reconhecimento do trabalho docente (ou Para além do "O que é um professor universitário?")


A difícil conjuntura que vivemos faz com que caiamos em diversas armadilhas  para lidarmos com os desafios de nossa vida cotidiana. No espaço das universidades, o profundo desrespeito dos governos brasileiros com a categoria docente coloca em impasses que enfrentamos de formas bastante distintas. Diante do descaso e do desrespeito há quem busque saídas individuais, alguns clamam resiliência, outros, resignação. Suspeito que precisamos ir mais além.

Esses dias li um texto* muito interessante sobre o que de fato é/seria/deveria ser um professor universitário. O texto do professor Marco de Melo, da UFMG, é um bom ponto de partida e demonstra uma série de elementos do quanto o trabalho docente e a universidade sofrem com a desvalorização e desconhecimento de sua importância no Brasil. O autor derrama uma gama de informações e argumentos da especificidade da docência nas universidades internacionais, trazendo aspectos relevantes sobre a importância da pesquisa, o respeito ao esforço intelectual inerente a essa atividade e o vácuo cada vez maior nosso país.

O texto em questão releva elementos que de fato devem nos preocupar, problemas que nós docentes passamos e que precisamos fazer o enfrentamento. Mas ao lê-lo sinto a necessidade de provocar e falar sobre outros incômodos que envolvem esse “título de professor universitário” e aquilo que muitos almejam dele. Digo isso, pois acredito que exista muito mais para ser revelado a fim de compreender a essência da problemática que aflige o trabalho docente e a universidade brasileira.

O texto expõe importantes considerações sobre os desafios que a lógica enviesada e superficial nos coloca cotidianamente nos espaços de trabalho cada vez mais precarizados, aprofundando a banalização da atividade docente, com a reprodução de uma cultura requentada de subestimação da pesquisa, do ensino e da extensão. Essas são visões historicamente construídas no desrespeito aos profissionais e demais sujeitos que fazem parte do processo educativo, mas também na ignorância funcional sobre o caráter da universidade.

Tudo isso é somado ao presente e oportuno caráter mercadológico e tecnicista da educação. O trato do docente como mero instrumento da mercadoria educação, o aulismo como modus operanti, a pesquisa sob os ditames das “parcerias” com o mercado, a precarização da carreira e das condições de trabalho e a multiplicação de uma concepção de formação profissional distante da formação humana fazem parte da retroalimentação desse triste e desgastante jogo de desvalorização.

No entanto, é preciso ainda considerar outros elementos. Do lado cá há também muito a se avançar em concepções e práticas mais profundas. Ainda que concorde com os problemas colocados sobre como o professor universitário é visto na sociedade brasileira, não posso me furtar de refletir também sobre esse “título” de professor universitário almejado por muitos de nós dessa categoria. Pois dentro dessa cultura que desvaloriza a atividade docente, o outro lado da mesma moeda revela uma histórica reprodução do elitismo, do pedantismo e dos jogos de poder que o saber universitário permite em seus espaços.

O bichinho da vaidade, o espectro da distância teoria-prática, o abismo entre forma e conteúdo e as vendas nos olhos frente aos interesses de classe rondam os gabinetes e as salas de aula de nossas cátedras e desafiam cotidianamente a materialização de uma universidade verdadeiramente popular, pública, estatal, gratuita, democrática, contra a exploração e contra as opressões, ou seja, com a construção do conhecimento que mire a emancipação humana.
É inegável a dificuldade de nos reconhecermos dentro da gama de seres humanos que vendem sua força de trabalho, daqueles que sofrem com a precarização e a exploração e que, por isso, tanto nossa atividade profissional, como a urgente e necessária organização política deve ser fortalecida para desvendar os limites de onde trabalhamos e as possibilidades que devemos construir. Envoltos nos contos que as camadas médias da sociabilidade de classes nos permitem nos acolhemos no mito da temperança, da imparcialidade e do individualismo.

Há boa vontade, focos de resistência, coletivos organizados, iniciativas importantes e gente que compreende esses desafios. Mas há também muita contradição e incoerência no cotidiano de nossas batalhas, dificultando desde a aglutinação de aliados até mesmo a necessária referência que as/os discentes procuram nas brechas de um belo discurso do professor que, eventualmente, pode permanecer absolutamente descolado de suas atitudes dentro e fora da sala de aula.

O vácuo entre a mera abstração de um projeto profissional ou de elucubrações teóricas aliadas às ações que reivindicam o autoritarismo, a reprodução do poder pelos títulos acadêmicos, as pesquisas, ora descolocadas dos interesses concretos dos sujeitos, ora simplesmente apresentando e representando a superficialidade tecnicista hegemônica da avaliação da aparência, tudo isso reflete mais do que elementos isolados dos nossos dramas cotidianos.

Obviamente, nesse emaranhado de questões, os elementos subjetivos também se fazem presentes. As balizas que nos saltam aos olhos fazem com que muitos se peguem no pragmatismo, no preconceito intelectual e na frustração com sua prática profissional. Isso permite a multiplicação de sensações e análises que individualizam causas e consequências, seja na própria culpabilização, seja no dedo em riste para seus pares e/ou para as/os discentes.

As cisões encontradas em sala de aula diante dessa lógica historicamente reproduzida e consubstanciada com o desmantelamento da educação básica (parte desse mesmo processo), por vezes, são “enfrentadas” ou com voluntarismo condescendente, com o rebaixamento da qualidade, ou com o suposto outro polo de personalismo e culpabilização dos indivíduos por suas limitações. É aí teremos os docentes bonzinhos e os docentes tiranos como partes aparentes de uma diferença que só se estabelece na lamentável lógica de unidade.

Corremos atrás do próprio rabo, jogatinas políticas ou negação da política se estabelecem como únicas saídas: produtivismo ou desinteresse, pedantismo ou superficialidade, tecnicismo ou filosofismos, irresponsabilidade ou sacerdócio. Falsas polêmicas, falsas alternativas que se materializam em nossos espaços e escondem as verdadeiras disputas de projetos de universidade. 
Quando menos percebemos somos o professor-pesquisador-empreendedor que detesta a sala de aula e encontra seu escape nas parcerias com as empresas privadas; o professor “aulista” que tem a pesquisa e a extensão como obstáculos; o professor-autoridade que quer, como pressuposto, ser adorado pelos seus títulos e produções; o bem intencionado professor-tecnicista que acha que a universidade é ensino-pesquisa-extensão, mas que esquece do necessário quarto pilar, a organização política; ou ainda o professor frustrado com a reprodução dessa cultura, que está insatisfeito (e com justiça) por suas limitadas condições de trabalho, mas que não se organiza coletivamente e desconta seus dramas nos sujeitos que estão em seu cotidiano.

E de repente lá estamos nós falando de horizontalidade, ética e respeito e mobilizando os alunos pelo medo em nossas salas de aula, ou utilizando argumentos moralistas para defender nossas posições, fazendo o uso de discursos rasteiros e sendo condescendentes com os ataques perenes que sofremos no cotidiano universitário. De repente estamos falando de solidariedade, de outro modelo de conhecimento e nos julgando por quem tem mais publicações, por quem “doa seu sangue” pela pesquisa mesmo em “condições adversas”. De repente estamos falando de classes sociais e da precarização do trabalho, da função social da universidade e sem nos organizamos nos nossos sindicatos, fazermos nossa luta, sermos capazes do exercício pedagógico de demonstrar capacidade de reação e proposição diante do desmantelamento da educação superior. De repente estamos falando de educação e reproduzindo o academicismo.

Há desafios enormes dentro e fora dos muros da academia. Há batalhas do plano cotidiano que estão estreitamente ligadas à nossa concepção e para onde queremos ir. É urgente o fortalecimento da organização política por outro modelo de universidade. Nesse sentido, a luta por melhores condições de trabalho e pela nossa valorização na sociedade perpassa por um mesmo caminho. Esse caminho é muito maior do que uma reflexão sobre como somos vistos.

Dessa forma, reivindicar o respeito ao título “professor universitário” é tão importante e necessário quanto reivindicar esse mesmo respeito ao estudante, ao técnico administrativo, assim como o respeito para o mecânico, para o agricultor, etc. Para além de exigirmos e buscarmos o respeito e o conhecimento individual é preciso que nos reconheçamos e nos respeitemos enquanto trabalhadores. Para além de nos embrenharmos na lama das regras da meritocracia e do produtivismo, a fim de termos a excelência que nos exigem aqueles que ditam os modelos de universidade, é necessário que tenhamos força para exigirmos condições para isso e para muito mais.
É preciso cotidianamente lutar e construir uma concepção outra de universidade. Não é o padrão de pesquisa do primeiro mundo que devamos almejar. Ele é muito pequeno e estreito. É o padrão de uma universidade popular, laica, antirracista, anti-homofóbica, anti-machista, pública, estatal, socialmente referenciada na classe trabalhadora e plenamente coerente, com os sujeitos que a constroem pautados numa concepção profunda e de rigorosa vigilância por uma educação para a emancipação humana.


É preciso construir conhecimento e materializar ações que determinem em sua essência que o/a trabalhador/a, que todo/a trabalhador/a, seja plenamente respeitado/a, que isso se construa quebrando os muros da universidade, com todas/os podendo entrar e sair dela, que nós docentes façamos também esses caminhos para as ruas, na luta e em nossa atividade profissional e que quebremos também nossos muros individuais e possamos enfrentar sempre o bichinho da vaidade, o espectro da distância teoria-prática, o abismo entre forma e conteúdo e as vendas nos olhos que escondem os interesses de classe em nossas atitudes e nesse projeto de precarização e privatização das universidades brasileiras, que todos nós sentimos na pele, mas que muitos ousam esconder, seja por estarem assoberbados pela lógica produtivista, seja por pura consciência de assumir um projeto de poder que referenda o fim dos direitos dos trabalhadores.

*MELLO, M. O que é um professor universitário. https://marcoarmello.wordpress.com/2015/02/12/professor/

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Quando o carnaval chegar

A carne que queima no sol é temperada pelo riso que esconde e pelo riso que desvenda. O gosto dessa carne é o gosto dessa festa, agridoce, multiforme, bela e trágica, triste e sorridente, assim como a vida, mas muito mais pujante no despejar voraz de quatro dias alegóricos.

A festa dos sonhos e dos desafios, das máscaras que assombram e que encantam , das pernas que dançam como numa luta contra o real. A festa da carne desnuda o corpo e a alma, acalenta dramas e encobre desafios.

Do lado de fora imberbes tentam compreender, alguns desmerecer, outros vilipendiar. Entre o elogio ufanista e acrítico de sempre, as críticas intelectualóides e ainda o elitismo pedante fantasiado de moralismo, passam sorrateiras as ondas da mais bela (e terrível) contradição.

As onomatopeias brigam e beijam com os mais belos versos. As figuras de linguagens mais rasas disputam e se curvam ao lirismo voraz, os acordes mais pueris bailam e se abraçam aos arranjos sofisticados. As melhores e piores músicas do mundo foram feitas para/no carnaval.

Quem só conhece o lado ruim, ou o lado bom, ou o lado de fora conhece pouco. É a celebração do absurdo, da reprodução de desvalores e da subversão deles. Não é ditadura da alegria, nem obrigação de ser feliz, mas é a coragem de sambar na cara da tristeza. O carnaval é tudo-ao-mesmo-tempo-agora e pode ser apenas o nada. Ele não tem receita nem forma. Pode ser a proteção e valorização das raízes e ainda sim a colheita de frutos melhores.

Críticas ao carnaval? Muitas! Nenhuma moralista, rabugenta ou rancorosa. Todas problematizadoras, alegres e irreverentes. Críticas por dentro, no âmago do riso denunciante e na construção e reconstrução daquilo que há de mais belo na festa popular! A rua é do povo, o povo é da alegria e é direito cantar, dançar, sorrir e sonhar. Faz parte da luta.

Esse ano o meu será lembrando dos carnavais passados e planejando os futuros. Infeliz daquele que não tem carne de carnaval, que não ousa não se levar a sério e que desconhece o viés libertador da profanação!

Bobos-da-corte, uni-vos" - Carnaval de 2014

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Manhã

Escondo-me do medo
Do supersticioso receio do profeta
Daquela ponta do lápis certeira e reta
Que me faz correr e percorrer o enredo
Que me bota frente a frente com o destino
Que revela o pavor de um menino
No escuro que revive o seu temor
Na sua mente que fermenta esse topor
Onde corro e me escondo desse medo

No espelho corro, socorro e vejo
Fujo de mim logo cedo