segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Poesia Rebelde



Denuncie esse poema! Ele está vivo!
Não serei eu o responsável por oprimi-lo...
Esse poema que não tem rima, não tem métrica, nem regras
Nem gramatical, nem qualquer outra

Ousado, traquino e belo é esse poema
Ai de mim se não enviá-lo ao mundo!
Ai de meu peito se tentar oprimi-lo em mim
Denuncie você que tem pavor de ser alvejado por ele!
Agora, nessas palavras e versos dispersos mergulharei
Jogar-me-ei nesse concreto artístico com todo desprendimento
Nesse emaranhado de justos palavrões subliminares
Nesse texto onde não há mote, nem ritmo, nem leis

Nessas frases que descem verticalizadas
Mas que têm em si algo mais horizontal que o pôr do sol
Esse poema rasgou o romantismo, rasgou o realismo e é real
Esse poema tem cor, tem cores, tem cheiro de terra, tem gosto de seca
Tem fome e tem sede, tem coragem e energia

Ora sem vírgulas, ora com elas demais
Esse poema tem sabor de barulho
Tem jeito de povo, tem traços de grito
Esse poema corre e debate-se, estrebucha

Sua força me nutre e me perfura
Não tem rima, não tem métrica, não tem regras
Talvez, nem tenha autor
Esse poema não é meu
Estou nele e nele me permito
Permito-me ser ela
                           Ser homo
                                    Ser Negro
                                               Ser índio
                                                  Ser nordestino
                                                             Ser humano
                                                                                  Ser

Esse poema está vivo
Atrevido sou eu de assiná-lo
Pois ele não tem rima, nem métrica, nem regras
Nele, lutar rima com liberdade

Aqui, rima-se coração com juventude
Preconceito com desigualdade
Violência com exploração
Regras e métricas com prisão.

Esse poema madruga
Corta-te, penetra-te, sorrindo e chorando
Poema vadio, transcendente, travesso!
Ultraje para os verdadeiros poemas tão cheios de razão...

Vergonha para os poemas legítimos
Belos e limpos, tristes ou alegres
Esse, não tem rima, nem métrica, nem regras
É tudo ao mesmo tempo e simples como o sertão

E não se surpreenda se esse poema correr atrás de ti
Ou ao lê-lo de novo percebê-lo diferente
Ou ainda se ele resolver mudar-se em meio a um recital
Pois esse poema não tem rima, nem métrica, nem regras

Essas linhas poéticas ocupam não só o papel
Ocupam terras, fronteiras, corações e mentes
Esse poema sente dor e prazer, sente amor e saudade
Só não sente o peso da métrica e das regras

Esse poema não tem rima, tem marcas
Não aquelas fetichizadas, estampadas nas roupas das vitrines
Marcas de feridas, marcas longe das métricas
Esse poema marca, ferra a face com o fogo da inquietude

Poema feminino, de pele escura, clandestino
Imoral, ilegal, criminalizado
Letras sujas de lama, de sangue e de suor
Palavras que não fedem, exalam o mais belo aroma

Esse poema sem rima, sem métrica, sem regras
Propaga o cheiro da transformação
Essas linhas sem rima, sem métrica e sem regras pisam o chão
E tocam e riem e choram e pensam e vivem. Vivem no presente.

Dominou-me, libertou-me, inventou-me
Interrogou-me, exclamou-me, fez-se comigo
Mas além de mim, fez-se pra o além. Para o ser e o estar.
Não serei eu seu algoz, não o enquadrarei em vão

Poema do sim, cheio de nãos
Não veio do nada, mas do tudo,
Não tem ponto final, mas reticências...
Não tem rima, nem métrica, nem regras

Não é meu, nem seu, quiçá nosso
Esse poema não tem rima, nem métrica, nem regras
Atrevo-me a assiná-lo
Mas saibam: ele não tem dono!
...