terça-feira, 3 de junho de 2014

A Copa do Anticlímax - Relato de quem está longe



Eu sempre adorei futebol. Sempre consegui entendê-lo como complexo multiforme, como mercadoria, como instrumento ideológico, mas também como um esporte educativo, como entretenimento sadio, como possibilidade de contradição. O meu amor pela disputa nas quatro linhas, por assistir, por vibrar nas arquibancadas, pelo aspecto cultural daquela boba irracionalidade premeditada nunca me deixou desmerecer as questões problemáticas que envolviam a relação "política e futebol". Sempre torci sabendo e criticando o que achei errado. Hoje não será possível.

Torcer, gostar de futebol nunca foi necessariamente sinônimo de despolitização ou condescendência com o status quo. No entanto, eu não estou falando exatamente de futebol, eu estou falando do megaevento Copa Do Mundo, dessa aberração sediada no Brasil. Eu estou falando da decisão de reproduzir ou de criticar e combater aquilo que vem sendo edificado  com mãos de ferro pela FIFA e pelo Estado em cima da população brasileira. Desculpem-me mas não tem como se ligar nos jogos e simplesmente esquecer o que há por trás, pois não se trata apenas de uma questão política no sentido estrito, há sangue, suor e sonhos derramados por brasileiros e brasileiras para que o lucro levante a taça nesse torneio.

Entendendo todas as contradições, há quatro anos eu estaria animado, hoje, tanto distante dos jogos, como há milhares de quilômetros de todas as legítimas e corajosas manifestações, vejo essa Copa como anticlímax voraz para o meu espírito. Não sei o que fazer. Talvez eu tome uma cerveja, talvez eu faça uma pipoca, talvez eu assista algum jogo na casa de amigos, talvez eu comente algo sobre futebol. Talvez eu até precise enganar minha frustração. Estou longe de meus companheiros de rua, será tudo superficial para mim. O meu coração brasileiro quer que eu tenha orgulho do povo que luta e não se rende mais do que daqueles que exacerbam nacionalismo, vomitam ufanismo, distorcem as bandeiras de luta e são incapazes de entender uma simples provocação como a expressão "não vai ter copa".


Na real, embora eu adorasse futebol, a Copa do Mundo sempre foi para mim tão importante quanto distante. Cresci acompanhando, torcendo e adorando o evento, mas ele sempre foi um evento distante. A Copa acontecia em países longínquos e demorava quatro anos para aquele movimento todo no país acontecer de novo. Quando sonhava ser jornalista esportivo sempre imaginava trabalhando numa cobertura de uma Copa aqui no Brasil, onde o evento seria finalmente próximo de mim e de todos. Do sonho ao anticlímax.

O tempo passou, não virei um jornalista e desde que o Brasil se candidatou a sediar o megaevento eu bem sabia que ele não me seria próximo. Os preços dos ingressos - imaginava - já  iriam me fazer acompanhar pela televisão assim como em qualquer outra edição . Mas não era só isso, a coisa já se anunciava como tragédia. Os primeiros atos, o planejamento, os conchavos políticos, tudo aquilo já demonstrava onde iria descambar. Não seria apenas o lúdico jogo antropológico nosso de vibrarmos e chorarmos pelos dramas de mentira, esquecendo um pouco nossos dramas de verdade. Não seria apenas a brincadeira, a festa, o carnaval para reafirmarmos nossa identidade, para encontrarmos os amigos, para vivermos um pouco mais feliz. Foi realmente outra coisa.

É aí que o jogo começou: de um lado a destruição e do outro a resistência popular. E jogávamos em casa, mas o árbitro sempre esteve com o adversário. As ruas foram tomadas por quem defendia o direito, a soberania, o respeito e a dignidade contra o lucro desmedido e o rolo compressor da repressão. Dias de dores, dias de sorrisos, dias de resistência. Não há como esquecer desses anos de mobilização, muito menos o estopim em Junho de 2013.

Um ano depois, minha situação é difícil. Hoje me encontro distante em vários sentidos. Há quilômetros e quilômetros de qualquer manifestação contra a copa, fico eu aqui constrangido, sem saber bem o que são essas bandeiras verdes e amarelas nos carros. Ligo a tv, vejo o futebol, mas o barulho das bombas em minha cabeça superam qualquer vinhetinha, apitos e gritinhos da torcida.

A contradição, as mediações, o entendimento de que futebol não é mera alienação ideológica e que não é preciso desgostar do esporte para ser crítico, tudo isso não serve para as questões que se apresentaram na construção desse megaevento. A questão não é somente ideológica, é material. Pessoas perderam casas, foram e serão presas arbitrariamente, trabalhadores morreram.

O futebol? Nossas praças esportivas foram colocadas nas mãos de consócios internacionais e nossos clubes agora serão reféns de fato e de direito das arenas sem alma, mas com belos banheiros de mármore. Para a torcida restou a caricatura, o manual, a elitização, a classe média vislumbrada brincando de glamour enquanto cospe ufanismo. Já bastava isso para desanimar. Mas relembro as bombas, os tiros, as demolições, o dinheiro público pelo ralo, a violência policial, a condescendência da mídia, o luto das famílias dos operários, é demais. A desculpa de que se deve protestar nas urnas, de que uma coisa é a paixão pelo futebol e outra a indignação, nada disso é suficiente dessa vez. Aliás, você que acha que se deve protestar nas urnas, o quanto revolucionário você foi nas últimas eleições?

Enfim, há muitos quilômetros das manifestações resta-me pouca coisa. A internet, a observação de longe e uma torcida pelos que estarão no campo... de batalha. É isso que o Estado, a FIFA e as elites transformaram o país. Uma batalha marginal daqueles que não foram convidados para festa. Uma repetição em farsa e fascista do construto nacionalista em torno da Seleção da CBF.

Fico aqui, longe, apenas com as lembranças, os desejos, a participação virtual. Ligo a tv, vejo o futebol, mas apenas constrangimento me cabe. Talvez uma cerveja alivie a angustia individual, talvez um sorriso amarelo seja necessário nos dias dos jogos para sobreviver à euforia de plástico que arrodeia o cotidiano nesses dias, mas como não ficar próximo aos companheiros que estarão sangrando pela verdade? Enquanto outros gritarão gol, eu não saberei bem o que fazer. Viverei a copa como um véu de ficção que cobre a real partida que ocorre no país.

Pode até ter futebol, gol e essas coisas todas, mas a Copa para mim só chegou por meio da violência, da destruição, do progresso para as elites. Não vai ter copa, já não teve copa. Aquele evento que me fazia vibrar quando criança não era isso, ao menos eu não sabia que era. Agora, distante quilômetros e quilômetros dos estádios só resta angústia, indignação e orgulho do povo, daquele povo que estará do lado de fora, nas ruas, lá onde eu queria está. Pra frente, Brasil!