terça-feira, 10 de junho de 2014

A gratidão e o orgulho de ser professor

A gratidão e o orgulho de ser professor

Quando decidi ser professor sempre pensei que não queria ser nem o professor bonzinho, nem o professor temido pelos alunos. Esses dois lados estão marcando a aparência de uma mesma moeda que ferra o processo educativo num modo enviesado, superficial e arcaico.

A busca por agradar a qualquer custo, pelo caminho aparentemente mais fácil, ou melhor, que tenha menos esforço, fazendo assim um pacto de mediocridade em sala de aula não faz parte daquilo que acredito. Por outro lado, também não acredito num processo pelo autoritarismo, pelo medo, pelo pedantismo, num processo reprodutivo dos quarteis e suas fileiras, da confusão entre disciplina e ordem repressora, da vivência educacional mais conservadora e ignorante.

Quando um grupo de estudantes na semana passada resolveu espalhar cartazes pela internet e por todo o campus da universidade que trabalho pedindo para que eu e minha companheira ficássemos aqui, eu tive a certeza de que, embora ainda seja um jovem aprendiz nessa carreira, eu estou caminhando dentro da coerência, da ética e da convicção da busca por outro modelo no processo educativo.

Quando alunas que foram reprovadas nas disciplinas pedem para você ficar, há algo maior do que mero carisma, há a materialização de um trabalho que vai para além do aparente e isso ninguém pode negar. Por outro lado, quando alunas e alunos dizem que você foi um dos três melhores professores que tiveram na vida admito que fico feliz, mas tudo isso não me envaidece, posto que não estou numa disputa de ego, não participo de uma gincana infantil para saber quem e porque um ou outro é mais querido, nem faço parte da dissimulação de parte da comunidade acadêmica que constrói os púlpitos das cátedras, reproduzindo a moeda egoísta da vaidade pelos quatro cantos do mundo.

Mas sim, eu  fico orgulhoso do meu trabalho, fico orgulhoso dessa profissão e fico orgulhoso por sempre buscar tratar xs alunxs com respeito, sem subestimar a inteligência de ninguém, cobrando resultados e, acima de tudo, buscando construir um processo pedagógico onde elxs enxerguem sentido naquele lugar, naqueles conteúdos e, sobretudo, que enxerguem coerência entre o que eu defendo e o que eu faço.

A minha decisão de tornar-se professor não veio por súbito, foi construída ao longo do tempo e com a convivência com mestres que me inspiraram. Ao longo dos anos tive professores e professoras que com sua forma de apresentar o conteúdo superavam esse ato. Esses conseguiam construir algo novo ali, dialogavam, vivenciavam para além da lógica da educação bancária. Foram esses xs professores que me encantaram. Elxs que me faziam ter vontade de estudar mesmo quando que eu não tinha tanta identificação com o conteúdo ou quando o cansaço (ou a preguiça) limitavam as densas e intermináveis leituras. Essxs professores tinham uma capacidade de síntese impressionante e ao mesmo tempo podiam concatenar assuntos díspares e mostrar as mediações que eu ainda não tinha maturidade teórica para perceber, tudo isso me deixava admirado.

Esse encantamento foi primordial, algo que procurei apreender e aguçar, algo que depois eu iria perceber para além do trivial na metodologia do ensino, nos estudos sobre didática, no aprofundamento da dimensão pedagógica, mas também no exercício cotidiano de construção de um espaço educacional diferente do hegemônico. Não alijar a tessitura entre forma e conteúdo, entre  o arcabouço teórico, o sentido ético-político e a dimensão de que além de meras palavras ao vento é necessário agir de modo autêntico. Tudo isso foi modelar e tomou status de alicerce profissional para mim.

Do outro lado, também tive professorxs que me ensinaram o que eu não queria ser. Professorxs que faziam com que eu tivesse vontade de me afastar do conteúdo, que achavam que enfiando goela abaixo terrorismo, autoritarismo, palavras difíceis e seus discursos pedantes numa eloquência ignorante e enviesada poderiam conquistar um suposto respeito, no auge da falta de autoconfiança. Vi muita gente culpar a teoria pela falta de coerência dos interlocutores, acompanhei sujeitos com ojeriza dos espaços acadêmicos pelo que os agentes faziam ao expor colegas, estudantes e demais sujeitos a experiências constrangedoras.

Por isso, além do esforço teórico peculiar ao longo desses anos, além da mera experiência acadêmica em si, a compreensão de que o processo educativo não é um show de entretenimento, mas também não é um campo de concentração vem me formando professor. Como um jovem profissional, mas com bastante experiência nesses férteis e difíceis últimos anos, fico extremamente feliz que um grupo de alunxs, servidores técnicos e colegas professores reconheçam esse esforço. Fico extremamente feliz de ver estudantes ou pedindo para que fiquemos, ou simplesmente reconhecendo aquilo que foi trabalhado em sala de aula, desde aquelxs alunxs que tiraram notas altas até xs que estiveram com dificuldades e souberam perceber suas deficiências e o sentido para além do insucesso imediato.

As ponderações de minha decisão futura e sobre o caráter sentimental do movimento eu expus nos comentários que fiz na mesma hora que vi o início da campanha. Falei dos meus motivos e motivações, falei de que aquela iniciativa deveria ser politizada e voltada para outros atores, falei isso antes de qualquer outra pessoa e colocarei abaixo esse texto de semana passada. No entanto, compreendo e não deslegitimo o ato de carinho que foi construído e expressado ali. Valorizo sim a atitude de reconhecimento que foi ratificada, também acho que ninguém tem o direito de deslegitimar isso, buscar satisfações ou qualquer coisa do gênero.

O ato sentimental, o carinho, o respeito também faz parte da seara do que acredito e sim, agradeço àquelxs que se dedicaram nesse ato, guardarei para sempre esse momento e mais uma vez tive a oportunidade de aprender com meus alunxs.  Não se trata de demagogia, trata-se de convicção. De buscar sempre dialogar e não vomitar currículo, conteúdo, autoridade ou minha visão.

 Não estou aqui com essas palavras e nem em sala de aula "jogando pra torcida", fazendo proselitismo ou qualquer elemento similar. Minhas palavras, seja aqui ou acolá, não são nem para agradar todo mundo, nem para não agradar ninguém. Falo pelas minhas experiências, leituras e convicções. Minhas palavras e atitudes procuram sentido e direção político-pedagógicas claras e que a dimensão ética é tomada não como mera abstração, mas em seu sentido concreto, vivo, suspendendo essas esparrelas cotidianas e buscando construir algo diferente, primando pela qualidade, pela humanização, pela coerência, errando em muitos momentos, mas sempre querendo acertar e tendo a humildade de rever, refazer, reconstruir. Sei que não estou só, sei que não estarei e sei que quem acreditar nisso - apesar dos pesares - nunca estará.

Feliz, agradeço novamente a vocês por me ensinarem gratidão, agradeço aos meus bons professores e professoras por me inspirarem ao longo do tempo. Sei que tenho muito que aprender, sei que estou longe de ser o professor que quero ser, mas sei que estou ainda mais distante de ser o professor que eu não quero ser. Ainda bem!

Reafirmo o desejo de que possamos todxs aprendermos com os acontecimentos.  Que os pedidos e as buscas sejam maiores, que as discussões seja por projetos, sobre as práticas e que passemos a discutir menos as pessoas. Mas que também não eliminemos a ternura, o sentimento de bondade e a gratidão no ambiente educacional que em alguns níveis fica tão envolto de disputismos, melindres e vaidades.Como é bom encontrar companheirxs, sejam alunos, professores, técnicos ou qualquer um que construa outra lógica!

Valeu, pessoal! Reverbero o que escrevi semana passada:

""""""""""""""""""""A luta é outra! hehehe

Querid@s alun@s, 
Meu povo, oh a chantagem, a coisa é mais complexa, ehehe
O reconhecimento de vocês é o melhor prêmio que um docente pode receber. Para quem acredita na construção de uma universidade popular, socialmente referenciada na classe trabalhadora e pedagogicamente séria, perceber que o trabalho - ainda que dentro de um processo tão precarizado – pode gerar um ambiente de aprendizado e de edificação de uma parceria fraterna e respeitosa entre nós e vocês é maravilhoso. Mas a vida nos coloca dificuldades, nos oferece alternativas e nos desafia a construir nossas possibilidades dentro do que não planejamos.

Agradeço demais o carinho com que nos trataram, o esforço nas disciplinas e esse gesto de agora. No entanto, o leque de possibilidades que se abriram nas últimas semanas não surgiram do nada. Quando viemos para cá não foi pensando em ir embora, mas por uma série de fatores e sobretudo, pela incerteza na condição de substituto me fez decidir fazer esses concursos que surgiram para buscar uma condição melhor de trabalho. Pois bem, nesse meio tempo muita coisa aconteceu, boas e ruins, muitas que não convém explicitar, mas a morosidade para que os processos acontecessem aqui , junto com um certo desgaste pessoal, além da aprovação nos concursos nos fez pensar e repensar. A decisão nunca é fácil, mas é tomada de modo responsável e nunca de modo meramente instantâneo, há razões para tudo.

Vejam só, nós iremos, não sabemos quando, essa é uma decisão tomada por uma série de coisas pessoais e profissionais. Até lá, estaremos com vocês e com nossos colegas com o mesmo profissionalismo de sempre, com a mesma alegria e respeito em sala de aula. O que precisa ficar explicito é que a responsabilidade da falta de professores não é nossa, nem de nossos colegas. É preciso que tod@s possamos refletir sobre tudo que ocorreu e aprendemos com esse processo. Os cartazes precisavam e ainda precisam se voltarem de forma politicamente clara e por um projeto de universidade e não pela decisão de alguns professores que, repito, não foi em vão.

Agradeço o carinho e mobilização, vejo como uma homenagem. Mas rogo que ela se volte para que quem administra essa universidade em seus diversos níveis e o governo federal, para que os pedidos não sejam mais pessoais e individuais, mas sim numa campanha e luta por uma universidade pública, gratuita, de qualidade, laica, para todas e todos, anti-homofóbica, anti-racista e popular. Para que alun@s tenham condições reais de estudar, para que professores e técnicos tenham condições reais de trabalhar com qualidade e que ninguém mais precise, por ventura, pedir pessoalmente que ninguém não vá embora. Enfim, a campanha, embora carinhosa e que me encha de orgulho, deve ser direcionada para que os processos futuros sejam diferentes, o nosso é o nosso e ocorreu como ocorreu. E não cabe a nós agora a responsabilidade que era de outras.

No mais, só muita gratidão e a certeza de que onde estiver estaremos trocando saberes e construindo a formação profissional no rumo de nosso projeto ético-político, nos encontraremos nos congressos, nos espaços profissionais e demais esquinas da vida e vocês poderão até tirar uma foto mais bonitinha do que essa da gente com chapeuzinhos, hehehe .

Obrigado, levarei vocês no coração, até mais, revejam a campanha, construam muitas outras! Deixo uma reflexão mais que oportuna:

"Não podemos impedir que a burguesia e seus aliados expressem seus interesses no fazer diário da Universidade, mas temos o dever de apresentar ali os interesses dos trabalhadores. Devemos afirmar, parodiando Brecht, que ali onde a burguesia fale, os trabalhadores falarão, ali onde os exploradores afirmem seus interesses, os explorados gritarão seus direitos, ali onde os dominadores tentarem mascarar sua dominação sob o véu ideológico da universalidade, os dominados mostrarão as marcas e cicatrizes de sua exploração." Mauro Iasi""""