terça-feira, 15 de agosto de 2017

A casca

Apelo à pele
Cena sem cerne 
Sonho sem sono 
Vermes 
Na Epiderme 

Danos e donos 

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Sem-vergonha

Um poema deflorado
Perdeu a flor e a pureza
Para então ser declamado

Para instigar a beleza

Verso desavergonhado 

Recorrência

Toda segunda 
A saudade do domingo
Todo segundo
O desespero da chegada do minuto perdido 
Toda minuta 
Tudo aquilo que é permitido e não mais se escuta 

Todo primeiro
Dia do mês sendo miragem e esperança 
Toda primeira
Vez no dia que minha alma reluta e cansa 

Sobre o ofício de transformar ódio em poesia

Saca a arma
Ressaca
Para a bala
Repara
Quita a briga
Desquita
Cara a cara
Encara

Tira o tiro
Retira 
Põe em letras 
Compõe 
Lira toca 
Delira 
Fixa a lírica 
Prefixa 
 

quarta-feira, 5 de julho de 2017

O inquilino do não-lugar

Especialista em nada
Indigno até pra sarjeta
Sem o boné e sem a farda
Sem dançar tango nem lambada
Não é anjo e nem capeta
Sem a bandeira hasteada
Sem a testa endereçada
Sem torcida organizada
Dispensado dos caretas
Gandula das mãos fechadas

Esteio no ninho
Estranho na nau

Fez farofa de conceitos
Fez um farelo de fatos
Foi concerto de notas
Conserto denota
Coberto de gastos

No ninho de estranhos
Na nau, o esteio

Deslocado
Descolado
No colo
Do outro
Lado

terça-feira, 4 de julho de 2017

O Rastro

Quando deram asas à cobra
Ela permaneceu rastejando
Prova que não há pior veneno
Que aquela mediocridade

Roídos

A ratazana
Roeu
O ralo
Do réu
Da rima

E na ratoeira
Ruídos por cima

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Batendo ponto

Da cor de burro quando foge
Afogado pelo barulho
Pelo falso vigor
Pelos carros e pelo asfalto
Disfarço o desespero
Com essa minha cara de domingo à noite

Anamnese no bar da esquina

Paladar de guarda-chuva
Língua afiada
Calo na voz
Dor de cotovelo
Frio na barriga
Coração amargo

Não há remédio
Para o estrago

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Contrassenso

Há quem prefira a pedra
Quem despreze a flor
E valorize o espinho
Há quem goste da gaiola
Mais que do passarinho

Há quem escreva poema
Para recitá-lo sozinho

Lente

Faço jus
Nada muda
Foco e fito

Olhos nus
Que desnudam
O espírito

sábado, 17 de junho de 2017

Ficcional

Pelas letras entrelaçadas
E os verbos conjugados
Pulsão lírica
Pressão cítrica
No terreno fértil
Da liberdade possível

Erótica

Os mares do não-dito
E a fúria de suas ondas
Rondam
A delicada pele branca
O envolvente batom vermelho
E os corajosos pés descalços
Dançando por cima dos de Eros

Espionando pelo espelho
Apenas quero

Métrica

Peço
Na harmonia do poema que eu lanço
Meço

Danço
Na melodia do subtexto de seu verso
Manso

Absolvição


Dorme aqui
Hoje não
Sim, agora
Quando você quiser
Amanhã, talvez
Ora é
Ora essa
Que horas são?

Falava e relutava
Deixando-me em confusão

Dias escuros
Noites em claro
Tardes secas e quentes

E nesse vai-não-vai
No morde-e-assopra
Na briga do medo com o desejo
Despidos de tudo
O fogo queimou qualquer culpa

Abracei-a
Libertamo-nos juntos
Para sempre juntos
Para nunca mais