quarta-feira, 5 de julho de 2017

O inquilino do não-lugar

Especialista em nada
Indigno até pra sarjeta
Sem o boné e sem a farda
Sem dançar tango nem lambada
Não é anjo e nem capeta
Sem a bandeira hasteada
Sem a testa endereçada
Sem torcida organizada
Dispensado do time careta
Gandula da mão fechada

Esteio no ninho
Estranho na nau

Fez farofa de conceitos
Fez um farelo de fatos
Foi concerto de notas
Conserto denota
Coberto de gastos

No ninho de estranhos
Na nau, o esteio

Deslocado
Descolado
No colo
Do outro
Lado

terça-feira, 4 de julho de 2017

O Rastro

Quando deram asas à cobra
Ela permaneceu rastejando
Prova que não há pior veneno
Que aquela mediocridade

Roídos

A ratazana
Roeu
O ralo
Do réu
Da rima

E na ratoeira
Ruídos por cima

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Batendo ponto

Da cor de burro quando foge
Afogado pelo barulho
Pelo falso gozo
Pelos carros e pelos gases
Disfarço o desespero e a saudade
Com essa minha cara de segunda-feira

Anamnese no bar da esquina

Paladar de guarda-chuva
Língua afiada
Calo na voz
Dor de cotovelo
Frio na barriga
Coração amargo

Não há remédio
Para o estrago

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Contrassenso

Há quem prefira a pedra
Quem despreze a flor
E valorize o espinho
Há quem goste da gaiola
Mais que do passarinho

Há quem escreva poema
Para recitá-lo sozinho

Lente

Faço jus
Nada muda
Foco e fito

Olhos nus
Que desnudam
O espírito

sábado, 17 de junho de 2017

Ficcional

Pelas letras entrelaçadas
E os verbos conjugados
Pulsão lírica
Pressão cítrica
No terreno fértil
Da liberdade possível

Erótica

Os mares do não-dito
E a fúria de suas ondas
Rondam
A delicada pele branca
O envolvente batom vermelho
E os corajosos pés descalços
Dançando por cima dos de Eros

Espionando pelo espelho
Apenas quero

Métrica

Peço
Na harmonia do poema que eu lanço
Meço

Danço
Na melodia do subtexto de seu verso
Manso

Absolvição

Estou com saudade
Estou me sentindo sufocada
Mas não é você
Vem
Vamos
Vai
Fica
Tchau
Estou com saudade
Dorme aqui
Hoje não
Sim, agora
Quando você quiser
Não sei
Claro que sim
Estou com saudade

Dias escuros
Noites em claro
Tardes secas e quentes

E nesse vai-não-vai
No morde-e-assopra
Na confusão do medo e do desejo
Despidos de tudo
O fogo queimou qualquer culpa
Abracei-a
Libertamo-nos juntos
Para sempre juntos
Para nunca mais

Era domingo

Ela me falou de um bule vermelho
E do óculos de mergulho
E do desejo de trazer tudo em sua mala
Eu que há muito já havia abandonado a minha
Lia suas mensagens com a única certeza
De que já carregava a dela em mim

terça-feira, 13 de junho de 2017

Elis

Bem que me faz
Bem que te quis
Flores e paz
Versos e bis
Bem que me traz
Gosto de anis
Tons de lilás
Riscos de giz

Vem e me faz
Feliz

SP I

Um homem dorme
Sob o sol
Uma mulher grita
Para vender
Uma garota sorri
Para o colega
O motorista canta
Do lado de lá do parabrisa
O pedestre atropela
O pé do porteiro
O verde da cidade cinza
Na esquina mais famosa do Brasil
Testemunha um beijo de saudação
Enquanto tudo isso acontece
Eu observo e penso
Oh vontade de cagar

SP II

Massagem no ego
Um boquete com dentes
Omelete de almas
Um chute nos ovos
São Paulo
Não é
Meu país