terça-feira, 21 de novembro de 2017

Espera

Carrego em meu bornó
O otimismo da baladeira
O pessimismo das pedras
E a realidade
De quem não caça só

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Arapuca

Assim ou achado
Em Exu ou Assaré
Há sins, xaxados
Afins, afagos
Oxente
Assum
Axé

sábado, 18 de novembro de 2017

Maldito

Dormi pesadelos
Acordei temores
Engoli choro
Vomitei mágoas
Não defequei borboletas

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Acordo

A água gelada, porém incolor
Caprichosamente se disfarça de carrasco
Enquanto a sede seca, mas silenciosa
Aceita e se finge de morta

Sono leve, distância
Retorno mais forte
O público pede a dança breve
Do frio e do calor

O espetáculo recomeça
Regado por pingos de satisfação
E goles de acordo de paz

sábado, 11 de novembro de 2017

Café-com-leite

Fomento da massa
Fermento da papa
Farinha de tranca
Trigo requentado
Troco rebuscado
Trupe sacripanta
Sobe a fumaça
Do pão na chapa
Branca

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Ao editor

Caro editor que nunca tive
Estive pensando
E desisti do livro
Não quero ser lido
Pelo que não quero falar
Pelo que não sei anotar
E pelo o que querem os ouvidos
Não quero ser lido
Em retângulos repetidos

Editor caro
Desisti do livro
Serei um desses poetas vivos
Que usa como conforto
A ilusão que será lido
Depois de morto
Torto rescaldo
Poeta medíocre
Com medo do resultado

Quisera declamado
Foste reclamado
Quisera aclamado
Sobrou-me inflamado
Caro editor
Desisti do sonho
Desisti do quadro
Não sou competente para ser
Enquadrado

Não sirvo para o papel
De escritor
Não falo como um
Não visto como um
Não atuo como um
Não vejo como outro
Autor
Não sirvo para o papel
Que estou

Desisto
Edito pelo não dito
Existo pelo não cisto
Não quero ser lido
Por escrever florido

Caro editor de texto
Que como pretexto
Digito
Desisti do livro
Agora quero o livre
Mais do que o escrito

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Túrbido

Deslocado
Descolado
No colo
Do outro
Lado

Meandros

Esteio no ninho
Estranho na nau

Farofa de conceitos
Farelo de fatos
Concerto de notas
Conserto denota
Coberto de gastos

No ninho de estranhos
Na nau, o esteio

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Contracorrente

Ela e ela
Ele e ele
Laço e elo

Corre rente
Rua, relo
Violeta
Violento
Foice e martelo

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Decepção

​Reneguei o bom-mocismo
Fragilizei a imagem do anti-herói
Desconcertei a expectativa do prodígio
Decepcionei os ruídos sobre a genialidade
Sobrou-me humano
Tenso
Quebradiço
Autêntico

Ao menos
Tento

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Tato

À flor do pelo
Ao por do prelo 
Apelo ao gelo
Pele, polo, pulo
Surra, sola, selo
Cela, sê-lo
Selo

Penitência

Que hora são?
Aponta o ponteiro
E aquele ponto 
De interrogação 
Bate o ponto 
E o desespero 
Carrega a cruz 
Os pregos e o cheiro 
De sua missão 

Reza o terço 
Não ganha um quarto 
Quando não farto 
Quebra o martelo
Motor e chinelos 
A fé e as marchas 
E sem calmaria 
Reza a desgraça 

Ave maria! 
Cheio de graxa... 

Espertina

Uma hora e cinquenta e seis minutos 
Os números por extenso 
Atravessam em claro 
A madrugada 
Escura 

terça-feira, 5 de setembro de 2017

A marca

Tudo que é só 
Lido 
Dez manchas 
Noir 

domingo, 3 de setembro de 2017

Dívida

Com as penas de Ícaro
Colori de vermelho
E maculei o papel
Com a flecha de Aquiles
Marquei meus passos e versos
Com as gotas que escorreram
No chão que rastejaria
Com a amiga de Eva
Arranquei peles das estrofes
Conheci as dores e os aromas
E saldei minhas angustias

Nem sempre cobra é serpente
Tem dias que é verbo
Dormente