terça-feira, 28 de junho de 2016

Termo

E o cuidado que vem
Nos momentos de descuido
A carinhosa atenção
Ao coração desatento
Arrebata feito o tempo
Que esfria por capricho
Pregando peças na previsão
E exigindo de nós o abraço
Para juntar o que não mais se parte
E esquentar aquilo que já é fogo

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Deriva

Imerso nessa sina
De sentir demais
Caindo em armardilhas
Amar ilhas sem cais
Navegando nesse mar
Sina minha
Sinto muito
Sinto mais

domingo, 26 de junho de 2016

Endêmica

Ruim de vírgulas
Adicto das reticências
Vivendo estrofes endêmicas
E sem encontrar ponto final
Entre uma coisa e outra
O lirismo vem bailando
Numa festa
Dentro de mim

sábado, 25 de junho de 2016

Hora de dormir

Desde quando os lábios se tocaram
Lua e sol se confundiram
Nuvens e estrelhas se abraçaram
E a terra celebrou os raios
Na pele que arrastou o tempo
Por toda a escuridão
A cada beijo um ode ao momento
Em que a madrugada vira dia
Misturando o céu e os sonhos
Profanando a noite vã

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Frestas

Entre botões, alavancas, maçanetas
Escrevia seus versos em sua caderneta
Sob a vigilância e a distração do capataz
Nas frestas da mais-valia
Valia mais

Tecnicolor

No clichê da aquarela
A beleza de um beijo
O borboletear do estômago
Um arco-íris em cada abraço 
E a sentença desmedida 
Dessas tintas improváveis
Culpadas por colorir o mundo

Contra do poeminha

Todos estes que aí estão
Atravancando meu caminho
Eles, passarinho
Eu, espingarda de chumbinho!

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Chave

Os cadeados
Não são culpados
As correntes
São inocentes

As portas que estão erradas
Já que elas não são entradas 
Nem muito menos saídas
As portas são objetos
De madeira carcomida 
Que escondem alternativas
Para depois revelarem
Fingindo ser acolhida

Horto

O coração partido
Foi aos cacos no terreiro
Aguou-se com as lágrimas
Para florescer um campo
De coração em pedaços
Foi crescendo as plantações
Deu flores, frutos, paixões
Poema pra tudo que é lado

No terreiro semeado
É tempo de amor
Espalhado

Mal do século

Foi-se o frio
E eu fiquei
Com um coquetel alcoólico
E com esse ar bucólico
Que não é meu

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Chegada

Atraso
Pista de pouso
O frio atípico se mistura
Com a típica ansiedade
Dylan nos fones de ouvido
E no coração
A beleza do inesperado
E o lirismo do impossível
É madrugada em Cuiabá

sábado, 11 de junho de 2016

Meta

Se em certa manhã eu acordar de sonhos intranquilos
Ser uma barata
Será um alívio

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Pra espantar a desgraça

Tem dias que a noite de Fortaleza
Tem outros que o céu de Cuiabá
Há dias que só você basta

Há outros 
Que nem a cachaça

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Na varanda

Observo enquanto rio
Um ângulo reto entre a grade e o fio
Dentro, eu na grade
No fio, o passarinho
Do meu ângulo, admiro
Do dele, desalinho

Voa
Tão livre
Quanto sozinho

terça-feira, 7 de junho de 2016

Licença

Nesse céu turvo e fechado
Vou cultivando nas nuvens
Gotinhas de resistência
Atravesso-as e roubo estrelas

Para essa noite cética
Peço licença
Poética

Lista de afazeres

Varrer a poeira da solidão
Rasgar os fiapos de distância
Preencher os buracos de saudade
Cozer os temperos dos quereres
Sarar o suor do sereno
Tecer o terço do tato
E cantar o canto que no cio
Apodera-se de tudo que ora crio

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Confissão

Das vezes que matei o tempo
Que surrupiei lamentos
Ou fiz conchavos de versos
E formação de quadrilha
De quando calei nossa trilha
E das letras me apropriei
De quando escondi beleza
E quando fui à natureza
Reinventar sua lei
Só de um crime me arrependo
O beijo que não roubei

sábado, 4 de junho de 2016

Ventura

Por cima dos cacos de pretérito
Mais-que-imperfeito
E das lâminas de presente
Cheio de ausência
Pulsam suas dores
Embora grandes, pusilânimes,
Sucumbindo sorrateiras
Diante dessa arma
O seu sorriso

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Currículo

O que fazer
Com essa capacidade de ser torto
De tropeçar como uma dança
De quebrar coisas como quem constrói?

O que fazer
Com esse talento de confundir
Coisas, gestos, palavras
De constranger a si mesmo
De cultivar gafes e medos como num dramalhão?

O que fazer
Diante de tantas desqualidades
De anti-herói trapalhão
De palhaço de circo sem lona
De ator de teatro sem palco
De homem com coração inapto
E de alma inepta para os dias de hoje
Tão cheios de certezas, de excelências
E perfeições

O que fazer?
Poesia, talvez...