quarta-feira, 25 de maio de 2011

Cuba

Por que mandam descrer-te
Se tu és firme e real?
Acredito em ti, ilha guerreira
Duvido é desse mar
Que te envolve, que te sufoca

terça-feira, 24 de maio de 2011

Campo

Não há mais cantigas
Nem fogão a lenha
Nem o assobiar dos pássaros
As cores dissolvem sob o silenciar

O verde acinzenta
O cinza avermelha
E amarela a estrofe
Que sucumbe, ajoelha

Estopins, estilhaços
Por felpas, por galhos
Pergunto-me até quando
Questiono-me atônito

E nesse descampado
O silêncio é quebrado
Por sons de motosserras
Por roncos de máquinas

Vejo tratores e detratores
Penso nas mentes e nas sementes
Olho as tiras e as mentiras
E novamente me pergunto:

Terra, por que és sem lei?




em memória de Dorothy,Zé Maria,Zé Claudio,Rose e tantos outros 




Wescley P.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

A Bula

O efeito 
É feito
De feitos
E defeitos
Colaterais

Cola 
         Até 
                Ais

Wescley P.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Axioma


Como trilha 
Fora dos trilhos
Como errante maltrapilho
Não sou mais eu
Sou apenas estribilho

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Metrô-politana


É dura
É dita
E bate
E quica
É farda
É fita
E cala
E grita
E anda
E fica

E fica
Fica
Fica
Fica
Aflita

Investe
Aplica
É pobre
É rica
E perde
E bica
E deve
E quita
E ferve
E frita

E fica
Fica
Fica
Fica
Aflita
Wescley P.







sexta-feira, 13 de maio de 2011

Quarto Ato - Des-prende-mento



Foste canção e eu fui cântico
fui voz
Subi no palco e o espetáculo
À sós

Mostrou-me o cálculo e os obstáculos
De nós
Ao desprender-me de seus tentáculos 
após

Foste o canto, eu fui o pranto
fui sim
Neguei os nãos que não haviam
em mim

E ao negar e na razão
enfim
Rasguei a seda, o linho,
cetim

 Nos nossos nãos, nos nossos cantos
Assim:

Fim

                                                                                       

Sexto Ato - Lágrimas e Desesperanças


Entrou no seu apartamento desarrumado, sentou no sofá e releu a carta. Já havia feito isso outras três vezes no ônibus. Queria respondê-la, não precisa mas continuar com isso. Ela não precisava dele.


Quis beber algo, mas relutou. Odiava pensar que poderia estar fazendo e pensando igual a ele. Logo ela, tão certa de si, jamais iria reproduzir tamanha estupidez. Só alguém muito imbecil pode achar que goles de vodka tornam palatáveis os sapos e lagartos dos banquetes amargos do cotidiano. Justificativas para um destino que não queria aceitar.


Ela sabia que naquele horário ele já deveria ter deixado o salão, provavelmente, estaria sentado no banco da praça, próximo ao jovem músico de vestes sujas e estragadas, com um copo numa mão e uma garrafa na outra.


Ela sabia que ele estava bebendo mais um gole naquele instante, que estava sentindo a brisa bater em seu rosto, ouvindo os sons das músicas que ele nem conhecia e imaginando coisas que nunca disse e nem iria dizer.


Quis fugir desse pensamento. Voltou à sua sala, aos seus fantasmas, ao seu vácuo, um refúgio ilusório, uma camada de proteção que de nada adiantava. Paredes, quadros, tevê, telefone, tudo sem porquês, nem serventia.


Estava cansada de tergiversações intermináveis sobre geometrias sentimentais que não mais valiam serem esculpidas com seus calos e seu sangue. Não poderia libertar-se do vício mórbido e pulsante sem as marcas visíveis, mas desprender-se daquele jogo era urgente. Cruzes e espadas apertavam suas entranhas e ela fugia com os recursos que tinha em mãos. Uma fuga em vão.


O passado era de fato uma das únicas companhias. Ao seu lado somente a mágoa, o rancor, o orgulho e a dor. Já não havia quase nada de amor ali. Abriu uma garrafa de vinho.


Deitou sua cabeça numa almofada, derrubou os livros que estavam ao seu lado e tentou expulsar toda e qualquer lembrança que denunciasse a inevitável semelhança dos atos, das cenas, das tragédias das últimas horas e seus personagens tão clichês.


Pensou em toda sua vida. Pensou em como ela tinha amigos, família, como os amava e a recíproca era verdadeira. Lembrou que muitos admiravam seu talento, sua coragem. Lembrou que nunca lhe faltou companhia nos momentos mais difíceis. 


Bebia mais um gole de vinho, enquanto pensava em como sempre ajudou a quem dela precisara e como também nunca lhe faltou auxílio. Olhou para a lista telefônica cheia de números. Olhou para o seu computador cheio de amigos invisíveis. Observou as janelas e as luzes acesas de seus vizinhos tão divertidos e agradáveis. Não tinha do que reclamar, vivia cercada de pessoas. Não entendia porque se sentia tão só. 


Lágrimas escuras, densas e cortantes desceram em seu rosto. Sabia que ele sentiria coisa igual longe dali. Ela bem sabia que ele também seria alvejado. Que sangraria com seu copo na mão, com o vento em seu rosto e com uma música qualquer. Máscaras, sofrimentos e desesperanças para além de contos, mitos e figuras de linguagens. 


Não era culpa de ninguém.

sábado, 7 de maio de 2011

Terceiro Ato - Marco Zero


Voltando ao salão principal, escorou-se discretamente na parede oposta à grande janela que dava para a praça. Observou a pequena multidão ao redor da mesa, admirou o aparente estado de felicidade de todos e fincou seu caprichoso olhar para fora dali, onde um sujeito maltrapilho tocava violão num banco debaixo de uma antiga árvore.

Mais uma vez estava presente em si a angustia de focar-se sempre nos fragmentos. E o dilema, o delírio e o espetáculo onírico que atuavam internamente eram estarrecedores, mesmo ali, no meio de todos, eram estarrecedores.

Suas mãos trêmulas só anunciavam a ineficácia de tudo que havia feito tentando diminuir suas náuseas. Reter o choro era o menor dos desafios. "Como pode escrever aquilo? Como pode?"

Tentava organizar os pensamentos, traçar uma estratégia, ser racional, tudo em vão. Buscou ajuda em lugares já esquecidos, nada conseguiu. Pensou em desistir, não podia. E continuar nunca foi uma opção, sempre foi imperativo, não por que queria ser herói, pois a muito dispensara esse título. 

Queria sair dali, achava que precisava fazer algo, mas nem nisso estava certo. Àquelas palavras tinham razão. Ficar estático já era tomar posição, lançar mão dos sentimentos e disparar o gatilho. Para qual lado não sabia. Era um daqueles casos em que as consequências se antecipam às causas. Pouco importava o que fizesse, ele já era uma vítima.

De repente, um cumprimento, os sorrisos automáticos, os apertos de mãos, abraços e palavras desconexas como escudo das desesperanças. Verbos conjugados por lábios desinteressados e desinteressantes, saltando para seus ouvidos e estuprando seu cérebro com uma violência peculiar. Sentia-se preso numa terra sem grades, sem correntes, sem armas. Preso às aparências, à si mesmo, em si mesmo. 

Um brinde, um gole, um olhar. Retirou sua caneta do bolso, pegou um guardanapo, fitou sua visão mais uma vez pela janela, observou o jovem maltrapilho com seu violão sob o sereno e o orvalho libertador. Saiu do salão, caminhou pelo jardim, atravessou a rua irregular, aproximou-se da praça e pode ouvir “aqui é festa amor e a tristeza em minha vida...”.

Segundo Ato - A réplica

Querida Luiza,

Saiba que suas rancorosas palavras, carregadas de verdades assustadoras, não me chegaram como ofensa. No entanto, preciso dizer-te que sou muito mais do que o silêncio covarde que fez voz no ato de recuo da fala, que definhou-se perante as barrerias do cotidiano.

Peco por ser assim, mas não sou o único. Muito menos não posso limitar minhas definições e justificativas ante o argumento raso de paralisia por medo. Não.

Há muito mais em mim. Sou mente, sou sentimento, livre dentro de uma gaiola, preso nos céus de outrora e num futuro que pode nunca acontecer. Sou dúvida, isso me move, me estagna, corta-me, faz-me assassino.

Sei que entre o certo e o duvidoso só há incertezas. Porém, o silêncio, o não falar, o calar-se, não permite suas afirmações de que não existam vozes em mim. Elas estão aqui, maturando minhas entranhas. 


Meu pesadelo solitário é viver assim sonhando. E veja que loucura, mesmo assim minha dádiva é que há um lugar em que sou deus. Um canto infinito e mortal onde vivo como, onde e com quem quiser. Onde tempo, espaço e lei são minhas escolhas mutáveis, complexas e gritantes, saiba você.

Aqui eu sou feliz (e triste), mesmo no escuro (e no nada). É na penumbra, no ar pesado, no caos naturalizado de meus fantasmas que posso transformar potência em ato. É aqui que eu encontro você.

Tens razão quanto ao silêncio, mas não tens razão quanto a nada mais. Escrevo-te essas palavras da mesma forma que você, um bilhete sem assinatura, só com marcas de sangue e solidão.

Amiga, sou sonho, sou pesadelo. Talvez nem mesmo minhas dores e medos sejam reais, quiçá meu sorriso de ontem.

Não me espere, viva. Não queira me encontrar no sol, sou chuva. Não queira me encontrar em contos, sou verso. Não espere por mim, um dia, eu encontrarei você. 

E caso queira me ouvir tape os ouvidos.

Primeiro Ato - O Bilhete



Caro Eduardo,

Passei dias tentando entender o que se passava por suas vísceras espirituais, aquelas veias invisíveis e capilarizadas no marasmo tão característico de suas idiossincrasias.

O momento de rara tonalidade revelou apenas o quão a penumbra e o barulho das ondas denunciavam o poder mordaz da sua maneira de desejar perfurar o peso do ar com a contraditória fantasia do silêncio.

Não me entenda mal. Peço-te que não perceba isso como uma cobrança, pois não há má fé em minhas palavras pueris. Muito menos teria a petulância de ousar lograr diagnósticos por meio de relatos e recortes, onde só pude presenciar as piores partes.

Há aqui uma mera visão. Um conselho (se isso fosse possível) ou mesmo uma trivial constatação. Nesse pequeno pedaço de papel vai o resultado de horas de divagações sobre o nada que foi presenciar sua ausência e desatenção.

O silêncio não é indiferença, não é mera omissão. O silêncio é um ato, uma atitude de recuo. Saiba, rapaz, o silêncio não é indiferença, é somente covardia.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Desencontro

O tempo se perdeu da hora
A hora se perdeu do espaço
O ontem mudou-se pro agora
E o hoje tropeçou no passo

Compasso despacha o futuro
No encontro do presente aqui
E o tempo e o canto inseguro
Se perdem no que há de vir

Sentir o tempo perdido
Cantando calado o encanto
No antes agora sentido
Desencontrado no canto

E o pranto do espaço e da hora
Pedidos no hoje e no tempo
O sonho amanhã outrora
Não mais encontra momento
Lamento

Unidimensional


Adorno 
Há dor no
Contorno  
Do Entorno 
(Do caldo 
Já Morno)

Adorno
Ah corno
Há dor nú
No Forno
(Do alvo
Do estorno)