sexta-feira, 13 de maio de 2011

Sexto Ato - Lágrimas e Desesperanças


Entrou no seu apartamento desarrumado, sentou no sofá e releu a carta. Já havia feito isso outras três vezes no ônibus. Queria respondê-la, não precisa mas continuar com isso. Ela não precisava dele.


Quis beber algo, mas relutou. Odiava pensar que poderia estar fazendo e pensando igual a ele. Logo ela, tão certa de si, jamais iria reproduzir tamanha estupidez. Só alguém muito imbecil pode achar que goles de vodka tornam palatáveis os sapos e lagartos dos banquetes amargos do cotidiano. Justificativas para um destino que não queria aceitar.


Ela sabia que naquele horário ele já deveria ter deixado o salão, provavelmente, estaria sentado no banco da praça, próximo ao jovem músico de vestes sujas e estragadas, com um copo numa mão e uma garrafa na outra.


Ela sabia que ele estava bebendo mais um gole naquele instante, que estava sentindo a brisa bater em seu rosto, ouvindo os sons das músicas que ele nem conhecia e imaginando coisas que nunca disse e nem iria dizer.


Quis fugir desse pensamento. Voltou à sua sala, aos seus fantasmas, ao seu vácuo, um refúgio ilusório, uma camada de proteção que de nada adiantava. Paredes, quadros, tevê, telefone, tudo sem porquês, nem serventia.


Estava cansada de tergiversações intermináveis sobre geometrias sentimentais que não mais valiam serem esculpidas com seus calos e seu sangue. Não poderia libertar-se do vício mórbido e pulsante sem as marcas visíveis, mas desprender-se daquele jogo era urgente. Cruzes e espadas apertavam suas entranhas e ela fugia com os recursos que tinha em mãos. Uma fuga em vão.


O passado era de fato uma das únicas companhias. Ao seu lado somente a mágoa, o rancor, o orgulho e a dor. Já não havia quase nada de amor ali. Abriu uma garrafa de vinho.


Deitou sua cabeça numa almofada, derrubou os livros que estavam ao seu lado e tentou expulsar toda e qualquer lembrança que denunciasse a inevitável semelhança dos atos, das cenas, das tragédias das últimas horas e seus personagens tão clichês.


Pensou em toda sua vida. Pensou em como ela tinha amigos, família, como os amava e a recíproca era verdadeira. Lembrou que muitos admiravam seu talento, sua coragem. Lembrou que nunca lhe faltou companhia nos momentos mais difíceis. 


Bebia mais um gole de vinho, enquanto pensava em como sempre ajudou a quem dela precisara e como também nunca lhe faltou auxílio. Olhou para a lista telefônica cheia de números. Olhou para o seu computador cheio de amigos invisíveis. Observou as janelas e as luzes acesas de seus vizinhos tão divertidos e agradáveis. Não tinha do que reclamar, vivia cercada de pessoas. Não entendia porque se sentia tão só. 


Lágrimas escuras, densas e cortantes desceram em seu rosto. Sabia que ele sentiria coisa igual longe dali. Ela bem sabia que ele também seria alvejado. Que sangraria com seu copo na mão, com o vento em seu rosto e com uma música qualquer. Máscaras, sofrimentos e desesperanças para além de contos, mitos e figuras de linguagens. 


Não era culpa de ninguém.