sábado, 7 de maio de 2011

Segundo Ato - A réplica

Querida Luiza,

Saiba que suas rancorosas palavras, carregadas de verdades assustadoras, não me chegaram como ofensa. No entanto, preciso dizer-te que sou muito mais do que o silêncio covarde que fez voz no ato de recuo da fala, que definhou-se perante as barrerias do cotidiano.

Peco por ser assim, mas não sou o único. Muito menos não posso limitar minhas definições e justificativas ante o argumento raso de paralisia por medo. Não.

Há muito mais em mim. Sou mente, sou sentimento, livre dentro de uma gaiola, preso nos céus de outrora e num futuro que pode nunca acontecer. Sou dúvida, isso me move, me estagna, corta-me, faz-me assassino.

Sei que entre o certo e o duvidoso só há incertezas. Porém, o silêncio, o não falar, o calar-se, não permite suas afirmações de que não existam vozes em mim. Elas estão aqui, maturando minhas entranhas. 


Meu pesadelo solitário é viver assim sonhando. E veja que loucura, mesmo assim minha dádiva é que há um lugar em que sou deus. Um canto infinito e mortal onde vivo como, onde e com quem quiser. Onde tempo, espaço e lei são minhas escolhas mutáveis, complexas e gritantes, saiba você.

Aqui eu sou feliz (e triste), mesmo no escuro (e no nada). É na penumbra, no ar pesado, no caos naturalizado de meus fantasmas que posso transformar potência em ato. É aqui que eu encontro você.

Tens razão quanto ao silêncio, mas não tens razão quanto a nada mais. Escrevo-te essas palavras da mesma forma que você, um bilhete sem assinatura, só com marcas de sangue e solidão.

Amiga, sou sonho, sou pesadelo. Talvez nem mesmo minhas dores e medos sejam reais, quiçá meu sorriso de ontem.

Não me espere, viva. Não queira me encontrar no sol, sou chuva. Não queira me encontrar em contos, sou verso. Não espere por mim, um dia, eu encontrarei você. 

E caso queira me ouvir tape os ouvidos.