sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A Fuga


Sempre após o jantar ia ao banheiro fumar escondida. Não queria que seu marido soubesse que descumprira novamente a promessa, mesmo que fosse apenas mais uma de tantas outras ocasiões e de tantas outras promessas.
Apesar dos melindres, o mau cheiro que escapava por debaixo da porta esbarrava na indiferença dos demais, impedindo que o triste e monótono habitual fosse quebrado.
A fumaça abafada parecia deixar aquele ambiente pequeno e sujo ainda mais caótico. Ela sugava o cigarro de olhos fechados, prendia respiração como se fossem seus desejos e depois baforava devagar, transferindo para esse ato toda a crosta opaca de sua vida. Repetia o gesto várias vezes.
Lá fora, a casa desarrumada, as contas espalhadas na mesa da sala, a louça suja empilhada na pia, os gritos de sua filha ao telefone, a televisão hipnotizando o marido...
Mais um trago, uma tosse forte, um escarro. Estava feliz.

Wescley Pinheiro