sábado, 6 de novembro de 2010

Ontem bati o carro e li um livro

Ontem bati o carro. Sim, bati da forma mais patética que se pode bater um carro, numa coluna do estacionamento. Vejam só que emblemático: Um sujeito toma seu remédio tarja preta e a caminho da consulta psiquiátrica fica tonto e bate o carro. A comicidade e a tragédia são extremamente simbióticas nos fatos cotidianos.

O simbolismo do dia-dia vive confirmando aquilo que os orientais chamam de karma, mas que nada mais é que a junção do imponderável com a implacável relação de “causa-e-consequência”. Ora, o que seria mais revelador sobre mim do que esse fato. Um falso pessimista, um inquieto exacerbado, um estressado constante, um sonhador inveterado que, depois de muito sofrer, vejam só, descobre que tem déficit de atenção.

Descobre também que isso não é nenhum pesadelo, mas não tem cura. Que muitos de seus problemas, crônicos às vezes, vieram daí. Que sua insônia, seu sono atrasado, sua capacidade de se motivar rapidamente e de se desmotivar na mesma velocidade e até sua obesidade foram elementos daquela bolinha de neve crescente que vai montanha abaixo enquanto você sonhava e sofria no meio dela. Um sujeito desses com uma monografia atrasada e com tudo mais atrasado em sua vida só poderia mesmo bater o carro, tonto, numa coluna do estacionamento da clínica.

Sua dificuldade de dirigir, de se concentrar, seu angustia por gostar de ler e não consegui fazer isso mais que duas páginas... Tudo era atraso. Como seria um escritor assim? Um escritor que não ler, pode isso? Não, ele não seria um escritor agora, nem nunca, mas não era isso que importava, importava sim saber que sua tristeza ao tentar, sempre em vão, tirar o estigma jogado sobre si desde a infância acusando-o, com razão, de desorganizado, impaciente, bagunceiro e preguiçoso tinha uma base que, afinal, apresentava-se com uma explicação lógica que justificava suas derrotas diárias contra si mesmo.

Sempre achei que não conseguia prestar atenção nas pessoas porque as achava desinteressantes demais, descobri que não é apenas uma questão de opinião, que essa justificativa cortinava a verdadeira causa, encobria o fato de que eu nunca prestava atenção nas pessoas não apenas porque não quisesse, mas porque não conseguia. Era uma justificativa, lógica, mas dessa vez, improcedente para explicar uma limitação.

E, sinceramente, eu não estou nem aí se vão ou não continuar me taxando de todas as coisas que eu coloquei aqui. Ou se farão a leitura inversa colocando o déficit de atenção como álibi da “preguiça inata” dentro de mim. Isso não seria exclusividade minha e nem posso obrigar as pessoas a se colocarem no meu lugar, só posso torcer que tenham alguma sensibilidade, até porque isso não é o fim do mundo, nem algo digno de pena.

Dentre todas essas descobertas dos últimos meses descobri, há dois dias, como é estudar, como é ler um livro, como é passar 4 horas numa mesa sem sentir-se absurdamente sufocado com a monotonia tão trivial para os outros. Deve parecer mentira ou um exagero para as pessoas, mas foi assim mesmo que aconteceu. Fico pensando como os outros devem achar estranho alguém não conseguir dormir, alguém não conseguir se concentrar, alguém não conseguir prestar atenção somente em uma conversa, são coisas tão simples, não é fácil compreender quando não se consegue o simples e quais as conseqüências disso.

Não me lembro de ter lido um livro todo nunca, até hoje. Sempre passei pelas páginas com mil outros pensamentos na cabeça. As sílabas de um poema ficavam em mim, mas as de um livro de poemas se perdiam nos meus pensamentos, nos meus sonhos, nos meus pesadelos. “Tive um sonho”, “Tive um pesadelo”, ninguém pode dizer “tive um pesadelo” só porque acordou. Você ainda o tem, ele está lá sendo regado por ti, só apareceu para visitar ti quando você dormia, expulse-os ou regue-os, faça sua escolha. Os meus, sonhos e pesadelos, me visitam a toda hora em demasia.

E não reclamo de só hoje me conhecer melhor, de só hoje consegui explicações para essas coisas. Acho até que foi melhor assim, sou grato a tudo que aconteceu, no tempo que aconteceu, pois se não pude até hoje me concentrar melhor, essa limitação me fez forte, me fez pensar, ser introspectivo, me fez sensível e sei lá se não tive minha criatividade aguçada... Mas a melhor parte é que minhas dificuldades me fizeram chegar até aqui com as pessoas maravilhosas que tenho ao meu lado. Afinal, quem eu seria se tratado desde a infância? Ser saudável é necessariamente ser melhor? Não sei.

Nem da paralisia facial e da depressão eu reclamo. Medo tenho eu de não ter passado pelo que passei, de não ter fracassado, desistido e recomeçado tantas e tantas vezes e de não ter tido oportunidade de viver esse processo de construção e reconstrução de meus valores e de minhas convicções. Hoje, é bom me olhar e poder vislumbrar a potência virando ato. Não trata-se de cinismo, nem de não querer que as coisas tivessem sido mais fáceis, mas se elas não foram, trouxeram suas perdas, mas também seus valiosos ganhos.

Anteontem li um livro banal e despretensioso, parecido com esse texto. Ontem bati o carro. Tudo por causa do meu tratamento. E por causa do que me tornei hoje tive alguém que encontrei nesses atropelos da vida para me consolar, me acalmar, me ajudar. Bati o carro, li um livro, dormi como nunca e ainda farei muitas outras coisas. Ainda vou escrever, ler, produzir, trabalhar e espero não bater mais o carro. Mas caso isso aconteça que seja de novo numa coluna de estacionamento e não numa Ferrari, que eu tenha novamente uma pessoa ao meu lado para dizer que está ao meu lado e que isso seja contrabalanceado com minha boas noites de sono, meus livros lidos, meus textos escritos... E minhas fantasias, utopias e reticências que nenhum tratamento vai tirar de mim...