domingo, 16 de março de 2014

Ontem

Houve uma época em que desafiávamos a noite, rasgávamos o céu estrelado e deixávamos ele sangrar suas águas e mágoas, apenas para o nosso deleite ou somente para nos vingarmos da brevidade do espetáculo lunar.
Edificávamos o palco no vento frio e desenhávamos um enredo no vazio de nossas construções. Papos não-lineares, questões não respondidas e teorias complexas que se findavam em segundos. Houve um tempo em que a ousadia da penumbra precedia dores, horrores e tremores nos nossos corpos. Valia a pena. 
Os sorrisos sinceros e atrevidos peitavam a amargura cotidiana, vilipendiava os acertos, os tropeços. Era um tempo onde os abraços não cabiam no poema. Aqueles abraços eram muito mais que qualquer coisa e eram ainda apenas coisas de bêbados. Houve um momento em que os laços despretensiosos pretendiam nos completar.
Houve uma época em que éramos jovens, não tão saudáveis, ébrios e tragicomicamente riamos de nossas desgraças. 
Foi ontem.  Passou.

terça-feira, 11 de março de 2014

Uma Fortaleza de vazio (ou minhas lembranças da Praça Portugal)


A Praça Portugal sempre me deixou curioso. Desde os tempos da pré-adolescência, quando eu saia de Jaguaretama de carona num caminhão em plena madrugada para ir fazer a manutenção de meu aparelho ortodôntico no shopping Aldeota para, logo depois, pegar uma “Topic” de volta para o interior.

As luzes da área nobre da cidade me hipnotizavam, via tudo ali como um não-lugar, era muito diferente de onde eu vivia e eu sempre imaginava que se eu tivesse que morar ali jamais iria aprender a andar naquela cidade.

Anos depois, já morando na região metropolitana de Fortaleza, acabei conhecendo uma galera que frequentava aquela praça. Eu saia do Tabapuá, pegava o ônibus metropolitano, depois o “Circular” e dava a volta na cidade para chegar naquela ilha urbana. Seguramente foi ali que eu conheci a diversidade, o urbano e, entre muitos papos, aprendi a beber.

Tudo aquilo que muita gente via como assustador me provocava. As diferentes tribos urbanas convivendo no mesmo espaço, jovens, a maioria de classe média, outros tantos vindos da periferia, ali, num espaço no meio dos carros, ao lado de um shopping, vivendo suas neuras, suas crises, suas rebeldias despolitizadas, experimentando e lutando contra moinhos de vento.

Passei a transitar por diversos grupos e tentar entendê-los, tinha uma curiosidade antropológica. Queria saber por que eles conviviam de modo muito mais pacífico do que em outras metrópoles e, mesmo assim, como a praça tinham tantos microterritórios. Emos, punks, otakus, gays, lésbicas, skatistas, metaleiros, tinha uma porção de todos.

Por ter muitas amigas lésbicas, muitas delas fugindo da repressão na praça da Gentilândia , os passeios na ilha Praça Portugal se tornaram frequentes para mim e sempre me provocavam:  era algo corriqueiro o desafio de comprar bebida no supermercado do shopping, sob o olhar contrariado da classe média, driblar os seguranças e depois enfrentar a dura batalha de atravessar o maremoto de automóveis até a praça. Os meus papos se desenrolavam, conversávamos até a hora de irmos para o Dragão-do-mar e parte da turma se separar na rua José Avelino, onde alguns iam para o Noise 3D e outros, como eu, para o Hey Ho Rock Bar.

Nunca fui romântico com aquela juventude. Nunca a achei revolucionária. No entanto, aguçava minha curiosidade aquele não-lugar, um símbolo da cidade, território daquilo que a sociedade fingia que não reproduzia, com seus jovens sedentos por socialização, pelo coletivo, por integração, mesmo dentro de um modo de vida individualista, consumista, hedonista como o nosso, correndo sem direção, mas correndo. Filhos da classe média branca e pseudo-culta ali, ora brincando de periferia, ora brincando ser de "londrino". Filhos da periferia furando o bloqueio invisível das barreiras socioeconômicas que imperam na Fortaleza da desigualdade, desfilando pelas avenidas e unindo o lado leste e o lado oeste da cidade numa ilha de concreto.

Sempre refletia de que a dinâmica daquela praça esquisita, com aqueles  seus frequentadores, era um ultraje para a farsa da elite local e sua árvore de natal tradicional. Sempre refletia a fúria dos motoristas ao redor dali, dos olhos tortos e do preconceito não somente por conta das dezenas de erros e excessos comuns do início da juventude, mas principalmente pelo moralismo e puritanismo hipócrita ante principalmente as/os homossexuais.

Refletia também como aquele território poderia ser qualitativamente melhor, quais as estratégias para que se transformasse em um polo cultural daqueles atores que ali vivenciavam suas experiências. Pensava ainda em como poderia se ampliar, incluir, desenvolver novos e ainda mais diferentes frequentadores. Acessibilidade, mobilidade, segurança, lazer, cultura, preservação, transformação, tudo isso passava pela minha cabeça sem jamais deixar de pensar que um dia escolheriam o caminho inverso: a destruição.

É agora, não sob silêncio, há luta e resistência, porém é mais um lugar de Fortaleza que caminha para o passado, mais uma tentativa de transformar essa cidade em um local sem alma. A Praça Portugal, seus frequentadores, suas práticas e linguagens já eram resultados disso, frutos do não-lugar, da não identidade, no entanto, faziam ali uma nova história, um novo significado e uma potencialidade resistente, ainda que pueril.

NA essência da coisa existe o óbvio interesse econômico e a concepção tosca de cidade. Mas não é surpresa que também apareçam os comentários moralistas na defesa do fim da praça. Não é surpresa que esse seja um dos motivos de que muitos queiram que isso aconteça. O medo de ter vomitada em sua cara, ou cuspida no vidro fumê de seu carro, aquela imagem de uma sociedade onde nem tudo é pureza e onde a futilidade não está somente nos discursos das dondocas, mas em seus filhos rebeldes de modo muito mais sincero e, talvez, com possibilidade de se tornar algo bom, tudo isso se junta com a ganância e a cultura do desenvolvimentismo barato, do histórico de destruição e irresponsabilidade tradicional de Fortaleza.

Nas discussões sobre o fim da praça já falaram da mobilidade, da questão ambiental, do caráter histórico, dos trâmites legais. Venho aqui dizer que essa praça tem sim história recente, reveladora, emblemática, real. Nada mais revelador do que dizerem que não há frequentadores na praça, aliás, que não há sequer uma praça. Trata-se da vontade explícita ou sorrateira de jogar para baixo do tapete a vergonha de suas próprias contradições. Trata-se de aumentar o muro invisível da cidade, de buscar maquia-la de Miami (como já tentaram de Paris) sem saber que as cisões sempre cobram, se metamorfoseiam e ressurgem mediadas, complexificadas e bem mais próximas.

Longe do debate moralista e sem entrar nos outros  e fundamentais méritos da questão, tão bem debatidos em outras reflexões, afirmo que tenho sim lembranças daquela praça, "sem suco e sem sanduíche", mas pensando, contemplando e amadurecendo. Essa experiência e os fatos atuais reafirmam: Fortaleza vive da desconstrução, vive do concreto e do asfalto, do shopping e do viaduto, do carro e dos semáforos. Vive principalmente do nada. Querem transformar Fortaleza em nada. Entre tantas estratégias, a do pó e do cimento é a que sempre prevalece.

Fico aqui lamentando e relembrando um vídeo amador (MUITO AMADOR) que fiz alguns anos atrás com jovens da Praça Portugal e da Praça da Cruz Grande, ambos territórios com jovens diferentes e desiguais, viventes e sobreviventes da Fortaleza da contradição, da Fortaleza da segregação, da cidade que promove aprofundamento do vazio, de um forte sem alicerces, uma cidade cada vez menos humana e de pessoas que são ainda mais desumanizadas.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Espinhos

Onde se esconde a desconfiança?
Qual o tempero de tal amargura?
Qual é a fórmula do nó na garganta?
Onde reside aquela censura?
Qual é a técnica da desesperança?
Onde é que fica a raiz dos espinhos
Que estão escondidos no seu coração
E só aparecem em redemoinhos
Que surgem calados nos gritos vizinhos
Aos medos plantados na voz da razão?

Resiliência

Foi alvo de praga
De mágoa
De chacota
De futrica
De feitiço
De fofoca

De peleja
De inveja
De lorota
De mutuca

De maluca
De marmota
Mas sempre seguiu sua rota

segunda-feira, 3 de março de 2014

Lucy mundo cão: pedigree vida loka!!!


 Com a chegada do feriadão de carnaval nos encontrávamos num dilema sobre a ração da Lucy que já estava acabando. Não iriamos até Palmas comprar antes do carnaval, também não queríamos aquelas mega-vagabundas bem baratinhas parecidas com as rosquinhas Chocoleite da fábrica de biscoito Estrela.

 A ração que utilizamos é de um meio termo, nem sofisticada, nem fuleiragem, sendo assim, por falta de opção, não havia outro jeito do que comprar emergencialmente um pequeno saco da mais recomendada pelo veterinário, da mais reconhecida no mercado e da mais cara da prateleira: a pedigree.

 Imaginei: Lucy vai ter o carnaval de gente rycca!!! Do jeito que é gulosa e come tudo, quando olhar pra isso aqui vai colocar a casa abaixo (não que ela já não faça isso, no entanto, imaginei ela dançando lepo-lepo ao som de "Os Negos" até em deixar ela comer todo o pacote de uma vez só).

 Doce ilusão. Na real, dona Lucy nem tocou na ração. Detestou! Comia só quando já estava definhando, morrendo, fazendo cosplay da cachorra Baleia no Morte e Vida Severina. Lucy, a contragosto, ia catando alguns grãos, tirando os mais macios e coloridos de lado e deixando quase tudo para as formigas. Em dois dias comeu pedra, capim, besouros, formigas, lesmas, papel, sua próprias fezes (isso mesmo!), mas não quis acordo com a tal pedigree.
 
O momento mais crítico (e preocupante) foi quando as obvias irregularidades intestinais começaram a aparecer. Lucy começou a vomitar todo esse universo de coisas que estava colocando para dentro.
Naquela gosma asquerosa tinha de tudo, menos pedrigree. Lucy, empenhada em suas convicções resolveu degustar seu próprio vômito como se dissesse: prefiro os detritos daquilo que sobrou dentro de mim a sucumbir aos deleites da comida da elite, das desigualdades caninas e do discurso nazista de raças superiores!

 Agora aproveitei que os mercadinhos daqui abriram pela manhã e comprei uma ração mais dura do que rapadura! Virou festa, virou farra, virou banquete! Viva a Lucy que é do povão e prefere merda a caviar, gosta mesmo é de farinha e água, vira-lata original, pedigree das ruas, vida loka desse mundo cão!!!

 (Foto[flagra!] da Lucy no seu lugar preferido [e proibido!])

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Grito


Como as cinzas acabadas de um incenso
Um vazio rápido, mas imenso
A parafina grudada em castiçais
Os temores gigantes e os triviais
As verdades fundadas nos achismos
Ou essas meras frases tolas e verticais

 
Como pretensos versos sem qualquer lirismo
É o mundo onde acordo, peito e cismo
E grito em meu silêncio “aqui jaz”

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Endurecer sem perder a ternura

Esse texto foi originalmente publicado no blog "Azia e á digestão" em 04/06/2012

Crítico como procuro ser, quase sempre me pego apontando o olhar para o outro lado da trincheira. Hoje, no entanto, quero trazer algumas reflexões para @s companheir@s do lado de cá, não como advogado do diabo, nem numa atitude de fogo amigo, mas exercitando aquilo que há de mais valioso do que a crítica: a autocrítica.

Digo isso pois tendemos aos debates acalorados, as disputas acirradas, aos imbróglios que causam esparrelas entre os lados político e o pessoal. No entanto, me incomoda muito como a ânsia por mudanças ou as dores dos duros golpes sofridos obscureçam tanto a maturidade política de valoros@s companheir@s, bem como, sendo mais pragmático, façam desperceber o jogo venal que se encarregam de alimentar em termos de táticas para consolidação de suas ideias.

Observando o desenrolar dos “antes-durante-depois” de diversas eleições, debates, correlações-de-forças em espaços mais distintos, não se pode deixar de notar que o destempero é sempre danoso para nós que queremos uma sociabilidade para além do capital. Trazer o debate de ideias para o rancor é tirá-lo do campo que sempre desejamos e reproduzir um clima de revanchismo, mesmo que não seja essa a intenção. No clima quente da divergência a hostilidade e o pedantismo saltam ao semblante e a ponta da língua como uma tentação inexorável.

Criticar o proselitismo, a ineficácia, a falta de radicalidade de outrem reproduzindo o fofoquismo ou utilizando de uma linguagem ferina sem mediação não é somente a transformação imediata do crítico em criticado é também um tiro no próprio pé. Refletirmos se a maneira como estamos fazendo e falando está passando o que realmente queremos passar é crucial.

É imperativo que a afirmação de nossa radicalidade, algo caro e fundante, ultrapasse os dilemas e dores inevitáveis para que possamos saber o que fazermos com eles e não perdemos nunca nosso horizonte, chegando a nos nivelar no jogo baixo que tentam submeter.  Penso que a profundidade de nossos propósitos, bem como as estratégias bem delimitadas e posições explicitadas garantindo clareza e não esquecendo da dimensão pedagógica são elementos categóricos, atinentes á dimensão ética e afirmando também  certo amadurecimento para que possamos passar a mensagem sem que ludibriem nosso sentido.

Entramos numa seara que pede atenção à necessária dinâmica entre forma e conteúdo, entre estratégia e tática. Conteúdo sem a forma adequada é quase dispêndio vão de energia militante, forma sem conteúdo é a pura reprodução do status quo, ou seja, é exatamente do que trata a hegemonia atual, dos grupos políticos que disputam por cima a administração do capitalismo e que vem atropelando os processos de diversas organizações que se propõem a contraposição dessa lógica, ora por repressão, ora por cooptação. Nesse quadro desafiador afirmo que criatividade e inteligência são ferramentas essenciais.

Pensar a forma é mais que determinar linguagens e arregimentar um plano de excelência, mas exercitar a ética no cotidiano das ações e fazer diferente na radicalidade dessa expressão. Quando afirmo isso estou dizendo que a autocrítica é fundamental e que é preciso não moldar a realidade e suas determinações às nossas convicções e sim fazermos do real o alicerce de nossa ação.

Sei que esse é um exercício difícil. A indignação que nos é comum nesse mundo cada vez mais desigual soma-se muitas vezes às historias particulares de pessoas que sofreram e/ou ainda sofrem pressões e perseguições políticas, pessoais e profissionais ao longo do seu processo de construção coletiva, consequência da coragem de dizer “não” aos que estiveram e aos que estão se reproduzindo no possibilismo, no minimalismo, nos conchavos, nas negociatas rasteiras e na conformidade na política. Sei muito bem o que é isso. Esse tipo de situação muito corriqueira, diga-se de passagem, não pode transformar a militância crítica e radical em um amontoado de “rancorosos” (como querem fazer parecer os nossos reais adversários), mas em lutadores perspicazes e maduros para fazer frente na teoria e na prática de forma verdadeiramente diferente. Assim, saber o que dizer e o que fazer é tão importante do que saber como, quando e onde dizer e fazer.

Se ainda não deixei claro esse texto fala de firmeza. Não se trata de recuos, de abrir concessões e afirmar diálogos vazios, mas de garantir nossa radicalidade sem desvios de quaisquer tipos. Trata-se também da firmeza pessoal, da certeza de que não somos seres meramente reativos, amargurados pela nossa luta e nem temos o raso entendimento messiânico de carregar em nossas costas todo o peso do mundo. Ao contrário, trata-se da firmeza de que a luta perene e radical é não só legítima e necessária como o único caminho para a plenitude do gênero humano e, assim, negamos tudo que está posto que não condiga com esse sentido, somos dessa forma alegres, criativos e fortes na construção coletiva.

Discutamos projetos, posturas e não nomes, pessoas e grupos de maneira abstrata e vazia. Se a prática é o critério da verdade e se a confusa contemporaneidade faz com que na noite escura do capitalismo tardio o descrédito na política e na luta coletiva reproduza no senso comum que todos os gatos são pardos, é imperativo que tenhamos a firmeza do nosso conteúdo, as absolutas persuasões da direção e do sentido de nossa luta e, a partir disso, que possamos garantir a melhor forma de explicitar o que nos diferencia, materializando isso cotidianamente ao negarmos a maneira de fazer política hegemônica, tanto no plano universal, como nos planos particulares.

Esse indicativo de nossas proposições, a clareza da dureza do longo processo e o entendimento de que há um cunho coletivo intrínseco nessas questões tem de alicerçar os pilares para que não percamos a objetividade, nem dilaceremos nossas subjetividades.  Pouco vai adiantar encarar plenárias com pessoas que estão suspensas das particularidades dos debates e raivosamente se intitular como representante do melhor grupo. Não será nada produtivo fazer cara feia e reclamar de modo inveterado nos corredores, nas surdinas e porões dos processos vividos, sobretudo aqueles que já passaram.

A raiva e o rancor não são instrumentos políticos e eles causam muitos prejuízos no acúmulo de nossas construções. Quantas vezes vi pessoas afirmando que não conseguiam perceber as diferenças reais entre os grupos que se digladiavam em algum processo eleitoral (em âmbitos variados) ou ainda que se distanciaram de determinado processo pelo aparente "pedantismo, arrogância e demonstração de ódio pessoal" d@s integrantes de grupos que no início demonstravam coerência e integridade, mas mergulhavam no espetáculo imediato da disputa.

Utilizemos o passado, o distante e o próximo, como base histórica fundamental, mas vamos construir o presente olhando para frente. Não estou falando de nos calarmos diante dos absurdos, de vilipendiarmos nossas convicções ou muito menos de juntar todo mundo no mesmo saco e obscurecermos as divergências. Estou falando de não confundirmos luta com disputinha, convicção com raiva, radicalidade com sectarismo, compromisso coletivo com missão heroica e individual e, ao invés de combatermos o bom combate, afastarmos do nosso palco aquilo que afirmamos que nos diferencia dos outros.

Há ainda uma amenidade que deveria ser desnecessária falar, mas que não é: existe vida além de toda picuinha. Cumprimentar as pessoas, desarmar-se no dia-a-dia e saber distinguir diferentes espaços e planos tanto políticos como na vida pessoal é algo muito salutar. Quando descobrimos que existe gente interessante e que podemos conviver, respeitar, até aprender e mesmo assim discordar  deles no plano político, estamos praticando e dando uma lição de como fazer política com P maiúsculo.

Isso significa também encarar o adversário com firmeza, mas sempre perceber os seres humanos que estão ali, com seus defeitos e suas qualidades, encarando os seus grupos da mesma forma, percebendo avanços e retrocessos e a partir daí combater a estrutura contraditória que se reproduz a partir deles, não caindo jamais num “reclamismo” vazio de sentido, nem também afirmando um viés ingênuo e condescendente de mera conciliação.

Nas tortuosas e complexas vias desse caminho é preciso entender as mediações pedagógicas junto àqueles que estão se aproximando dos debates e do processo político para que não se exija tomadas de partidos superficiais, abruptas e sem convicções reais, para que não se transforme as sérias e necessárias reflexões públicas em clássicas gincanas. Não estamos numa mera competição ou numa conversão religiosa, mas buscando algo muito maior e mais concreto: A disputa político-ideológica é algo que se faz sem perder a noção de onde queremos atingir. Garantir uma construção profunda, firme e ética é primordial para o fortalecimento político que mira a emancipação humana.

Entre os aprendizados que os erros e os acertos vão nos fazendo acumular é central que passemos a desconstruir qualquer desvio de nossas convicções. Essa é uma luta cotidiana e que se fortalece desde a prática diária do fazer político, passando pelas reflexões individuais e coletivas e chegando também em todos os planos de nossa vida, exigindo coerência junto àquilo que defendemos.

Dito isso tudo, finalizo esse texto desejando que ele possa contribuir, mesmo não se tratando de uma análise teórica e política profunda, para que possamos enfrentar nossas lutas com coragem, lutando sem cessar, mas não enfrentando os moinhos-de-vento, mas sim @s verdadeir@s dragões. Nenhum tirano resiste a um opositor sorridente, convicto e feliz. Nenhum cinismo é capaz de resistir à prática ética, coerente e tranquila. Nenhuma injustiça vencerá a indignação politizada e insaciável pelo fim de toda desigualdade.

Conquistar corações e mentes para a causa revolucionária é também afirmar a ternura que existe em nós, mesmo aqueles que somos duros na queda. Engrossar o coro dos descontentes é também fazer entender que existe vida fora das divergências pontuais, que as pautas comuns podem ser conquistadas em comum e que a nossa política se afirma na prática combatendo também o debate rasteiro, o personalismo, o revanchismo e a politicagem. Vamos explicitar as divergências, trazer à tona as cisões desse sistema e avançar na construção de outro mundo sem exploração, sem opressão e sem relações calcadas na hostilidade, no “disputismo”, na vaidade, nas mentiras, na desigualdade e na competitividade.

Combater o bom combate é o que a conjuntura nos pede e a estrutura nos exige. Façamos isso com toda a força e energia que esse desafio nos permite, façamos isso também com muita indignação, mas também com criatividade e sorrisos. Saltemos nas ruas, nas praças, nas plenárias com uma prática viva e profunda e endureçamos, sem perder a ternura jamais, porque nenhum dos soldados do capital, nem adversários políticos em nossos espaços, por mais venais que sejam, podem nos tirar a alegria e a ternura de lutar, de amar e de viver com coerência.

Wescley Pinheiro - 04 de junho de 2012

domingo, 17 de novembro de 2013

Noite

Ratos da madrugada
Cães ensandecidos
Sirenes desafinadas
Um medo,  um muro, um marido
Um grito, um tiro, uma escada

Nada novo, não foi nada

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A lição

Todos vão chegando
O campus lotado
Tumultuado
Tomado de gente
Tem gente ensinando
Tem gente aprendendo
Tem gente inventando
E reinventando-se
No meio da gente

E entre essa gente
Um desavisado
Que logo pergunta:
 - E hoje tem aula?
A gente responde:  - Tem!
E é fora da sala!
No meio da rua!

Os/as estudantes ensinam:
É dia de greve
É dia de luta!

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Clichê

Inicio pedindo desculpas, pois hoje não venho escrever poesia, nem conto, nem crônica. Hoje venho trazer um simples clichê. Sim, uma pieguice dessas bem repetidas, batidas e rebatidas, como um velho ditado ou uma canção popular de amor.

Carrego esse clichê como um sujeito que levanta um cartaz onde está escrito “eu já sabia”. Um cartaz comum, onde todos leem e logo pensam “nós também, todos já sabem”. E é verdade, todos já sabem. E apesar disso o cartaz precisa ser levantado, pois de tanto todos saberem, alguém precisa lembrar.

Essa é a maldição e a dádiva de qualquer clichê. Ele está claro, concreto e posto em nossa frente, o vemos e não enxergamos. Ele é a pedra que você tropeça, é aquele móvel que sempre esteve ali no mesmo lugar e, mesmo assim, você vai e bate sua canela com toda força, pra depois sair gemendo de dor.

O clichê é a caneta que você procura desesperadamente para anotar um recado, quando de repente percebe que ela está dependurada em sua orelha. Você se acha um bobo, rir de si mesmo, pega a caneta e quando vai anotar o recado já o esqueceu.

É imperativo lembrar das obviedades, daquilo que julgamos desnecessário pensar, e falar, e fazer. Recordar aquilo que subitamente nos salta aos olhos, nos coloca o velho e novo numa coisa só, nos deixa no ridículo de nossa pequenez, nos emociona, nos ensina, delata a ineficiência de nossa suposta autossuficiência, nos põe no chão.

Nesse clichezinho brega e melódico que carrego existe um elemento próprio de todo clichê: a sua verdade. Trago nele a obviedade subestimada, naturalizada sob os mecanismos obscuros das repetições.

Pois é, nesses últimos dias um clichê me pegou. Agarrou em minhas costas e me fez carregá-lo por cima de minha solitária pretensão.  Agora eu preciso falar dele, sobre ele, ainda que pareça tolice. Mesmo que esse texto se revele ingênuo e medicante em essência poética, frígido de rigor teórico. Ainda que se confirme em seu inequívoco, pobre e inglório lugar-comum.

A vida me exige um chavão. Sinto-me tentado, mais que isso, convocado, impelido ao testemunhar seu poder inexorável. Preciso falar de amizade.

Sim, é isso, preciso falar de amizade. Esse termo curioso, plural ainda que singular. Essa relação dotada da mais complexa diversidade de expressões, a mais evidente manifestação de nossa necessidade do outro, do coletivo, do nós.

Clichê: Não há nada mais precioso que cultivar boas amizades. Mesmo que poucas, ainda que raras ou adormecidas pelo tempo e pela distância. Cercar-nos de pessoas boas nos revela, quando menos esperamos e quando mais precisamos, o valor da amizade.

"Valor da amizade"? Sim, eu avisei e já pedi desculpas de antemão, é clichê. Todo clichê é meio assim, meloso, impreciso, ora com gosto de açúcar, jeito de filme da Sessão da Tarde, ora com aquele ar de refrão de música brega. 

Nesses dias de agonia e grandes dificuldades a vida me lembrou: cada amigo verdadeiro, cada pessoa boa em nossa existência, tem o poder de anular cem pessoas más e seus melindres. Para cada desafio imposto pelos grandes problemas, o poder de um pequeno (ou gigante!) gesto amigo basta. A amizade é, sobretudo, um trunfo que a vida nos permite.

Hoje me sinto privilegiado por carregar esse clichê, sinto-me grato por precisar repeti-lo. Hoje preciso agradecer à vida por me lembrar dessa obviedade, por me colocar de frente com esse chavão: não há nada mais precioso que cultivar boas amizades.

Eis o clichê, senil e original, escasso e valedouro, fugaz e infindável. E é por isso que hoje não vim escrever poesia, nem conto, nem crônica. Hoje vim apenas trazer esse simples clichê. Uma pieguice dessas bem repetidas, bregas, batidas e rebatidas, como um velho ditado ou uma canção popular de amor.

Dou-me ao luxo e ao lixo do clichê, por que ele vem recheado de gratidão. Hoje eu sou todo chavão e chinfrim! Que venha o brega, que venha a canção de amor, o teor exagerado, a frase feita que foi feita para isso.

Certa vez, disse um poeta, “a amizade é o amor que nunca morre”. Não há nada melhor e mais clichê que um amor eterno.


Aos meus amigos e amigas, meu muito obrigado.


terça-feira, 6 de agosto de 2013

Mordaz

O acalanto da dor pútrida pousou em mim
Cambaleou como quem se desespera
Sussurrou mordaz como a coragem vazia
Que só os sobrepujados amargaram sem fenecer

O acalanto da dor pútrida pousou em mim
Com a volição de quem abocanha o seu fado
E tem somente o vácuo jaz em seu pobre paladar
Ante o gozo deletério dos tiranos
Que perpetuam suas carícias dolentes
Denunciadas na mordaça e no silêncio
Bradando tenazes como o medo na penumbra
De quem sucumbe sob o domínio falaz

O acalanto da dor pútrida pousou em mim
Já é noite, o tempo urge e eu aqui

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Média

Surge a nova classe mídia
Na média televisiva
Que visa, que compra, que deve
Deve sempre evasiva
A classe média tem visa
E visa nova investida
A média da nova classe
É pequena e imprecisa
E precisa de disfarce
Pra esconder carne viva

A nova classe é velha
Já é velha conhecida
Telefone, telemarketing
Televisa a decolagem
Da classe mídia atrevida
A classe tem até vida
Merece ser aplaudida
Compra tênis da adidas
Vê na tela sua face
Com imagem colorida
Que cobre a média da classe
E passa despercebida

Viva a nova classe mídia
Viva a média nova classe
Viva a mediocridade
Da média classificada
Mediando o tudo e o nada
Em meio a desigualdade

terça-feira, 18 de junho de 2013

Quem tem medo dos Partidos? (ou as mentiras que nos contam por aí)



Não é sobre vinte centavos, não é sobre a Copa, não é sobre a corrupção. É muito mais que isso! De tantas cenas emocionantes, instigantes e de esperança que aparecem nesses últimos dias o contra-ataque que se arregimenta ante a força do povo nas ruas vem de diversas formas e muitas mentiras são ditas por aí.  Diante delas eu afirmo: o Brasil não acordou agora, Arnaldo Jabor não errou e se arrependeu e a polícia não é despreparada.

Primeiramente é preciso dizer que a alegria e euforia de hoje precisam ser canalizadas para os verdadeiros inimigos. O fortalecimento desses levantes é fruto de anos e anos de lutas em que movimentos sociais mais diversos, sindicatos e partidos verdadeiramente de esquerda vieram construindo sob a invisibilidade e a criminalização da mídia, do Estado e de muitos outros setores. Os movimentos feminista, negro, LGBT, das classes trabalhadoras, entre outros, com seus limites, desafios e problemas nunca dormiram. 

Enquanto Jabor titubeia num "eu errei" cínico e revelador de que a direita reacionária buscará se apropriar dos protestos também, a Folha de São Paulo se obriga a mostrar uma cobertura distinta da repressão que cobrou em seu editorial, logo depois de ter seus próprios funcionários como alvo do aparelho repressor que esse veículo tanto apoia. Não nos enganemos! A polícia não é despreparada, nunca foi. A polícia é preparada para aquilo. Ela é treinada para o não-diálogo, para a violência, para a repressão do povo trabalhador.

Diante dessa linda e diversa manifestação a mídia burguesa acabou tendo que mostrar o inevitável, aquilo que sempre acontece nos atos, que sempre acontece com os jovens negros na periferia, que sempre é inviabilizado e/ou manipulado por essa mídia hegemônica e conservadora. Hoje com uma notinha na rádio bandeirantes aqui, um comentário na ESPN acolá e muito conteúdo circulando na internet a verdade das ruas vai saltando devagarinho, respingando no monopólio que comanda os meios de produção, o Estado e meios de comunicação de massa. Não há projeto, direção, mas há fagulhas de rebeldia e insatisfação que se espalham a cada ato de repressão e isso já é motivo para o sinal amarelo dessa elite está ligado. 

Fiquemos atentos, pois o contra-ataque não será pequeno. Não caiamos nas armadilhas do sectarismo ou  do discurso pequeno burguês de apoliticismo, esse é o jogo do poder. Não temamos lutar, mas temamos que nossa luta seja reacionária. Disputemos os espaços, vamos refletir nossas ações e continuar ganhando essas ruas contra os governantes de todas as siglas que governam contra o povo trabalhador, mas centremos nossas forças também e principalmente naqueles a quem eles representam de fato. A negação e a crítica aos partidos de esquerda é um tiro no pé, é um erro de avaliação, uma mudança de foco que só desmobiliza, que só faz com que nos concentremos nos pormenores e não no sentido geral das mobilizações.

 Reinventar a política sim, negá-la jamais! Superar a discussão eleitoral e eleitoreira é urgente e isso se faz justamente qualificando os espaços, disputando pautas, bandeiras e concepções. É chegada a hora de centrar a luta contra aqueles que lucram com nosso sofrimento, com a exploração do trabalho, com as opressões mais diversas. É preciso negar sim, mas é preciso propor o novo, o diferente, o divergente, o projeto coletivo que seja profundo, coeso e que vá até a raiz de nossos problemas.

E por que os partidos combativos e movimentos sociais que estiveram aí se contrapondo e se organizando por tantos anos contra os desmandos da burguesia e seus representantes políticos, inclusive construindo, divulgando e militando nesses atos desde o início, quando as pessoas mesmo diziam que "não tinham acordado", porque eles agora não poderiam mais participar? De quem é o verdadeiro oportunismo se esses partidos não caíram de paraquedas nos atos? Há algo de muito estranho nessa onda "apartidária"/anti-parditária reforçada pela mídia.

O pior discurso é o discurso depois do conformismo, é o discurso fatalista, ele não tem proposta, nem se aprofunda na crítica, diz que tudo e todos são iguais e pronto, fim! Fim? Fujamos dessa armadilha! Não caiamos no jogo da direita, da Globo, da mídia como um todo. Eles sim querem desvirtuar, despolitizar. Ninguém precisa ser militante desses partidos, nem concordar integralmente com suas pautas a priori, mas rechaçar de forma indiscriminada é tudo que a classe hegemônica quer para se manter e utilizar do oportunismo populista para aprofundar seu projeto. Nenhum partido pode ir lá se aproveitar, tutelar ou manipular as lutas, mas ninguém pode sair indiscriminadamente violentando o direito dos manifestantes levarem suas convicções políticas para a luta se ela é coerente com o projeto de sua organização e se está de acordo com as pautas das manifestações.

A direita quer generalizar, colocar todo mundo no mesmo saco para fazer com que essas manifestações sejam meros episódios e não se transformem em algo duradouro! Deixemos os coletivos, organizações, entidades de luta, com suas divergências, projetos e métodos democraticamente participarem sim dos protestos, não neguemos o direito de diversamente nos unirmos. Se o medo é o do aparelhamento que o povo não deixe isso acontecer, mas saiba os motivos e os métodos para isso, pois os partidos de luta devem ou deveriam ser do e para o povo trabalhador e não somente o povo trabalhador ser dos partidos, é uma linha tênue, mas negar isso é muito mais perigoso, pois é a porta aberta para o fascismo, assim como na ditadura brasileira ou no nazismo o discurso também foi de supostamente negar a política. 

A direita e seus grupos tem medo de que a revolta se transforme em revolução. A direita vai à rua e à mídia elogiar os movimentos que antes criminalizavam. Ela fala em pessoas de branco, sem partido, buscando direitos, felizes, exercendo sua cidadania. A elite quer desmobilizar, caricaturar, disputar os rumos por dentro visto que não conseguiu com o microfone e o cassetete.

A direita tem medo de projeto, de direção e de organização. Ela tem medo da palavra radical e a coloca sempre de maneira enviesada. Ela quer carnavalizar as lutas, transformar em passeata pela "paz", pela "ética", "contra a corrupção" e outras coisas para que se acabem no nada. A direita quer inclusive fingir que não há direita nem esquerda. Ela quer fingir que não há diferenças partidárias, que não há ou não deve haver coletivos, apenas indivíduos insatisfeitos, espontâneos e só. O desafio agora é o aprofundamento dos levantes, a síntese da linda fagulha acesa, a formação e organização política para além do que é de hábito e aí a direita não vai mais dormir!

Quem tem medo de partidos radicais, emancipatórios, de luta é a elite, é a burguesia. Quem odeia trabalhadores organizados são aqueles que lucram com os baixos salários, com os altos preços, com a corrupção do Estado. Não é somente vinte centavos, nem sobre a copa, é sobre direitos dizem todos. O direito de protestar, o direito de acreditar na organização e na luta coletiva, o direito de acreditar na mudança e o direito de duvidar das mentiras que nos contam por aí, como aquelas que sempre espalharam de que brasileiros não protestavam, de que protesto era coisa de vagabundo e de que política é coisa de ladrão. Política é coisa nossa e é lá na rua que a gente vai mostrar isso!

Naquela esquina ali em frente se encontra essa interrogação da poesia: mudar de emprego ou mundo? Mudar o preço da passagem ou mundo? Mudemos tudo e não deixemos nos confundir com o discurso de "apoliticismo", "pacifismo", "eticismo" que estão querendo impor, pois a direita, a tv, os governos, a burguesia estão tremendo que a REVOLTA vire REVOLUÇÃO!
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Revolta!

Correram sem direção
Sem sangue nos olhos
Com pedras nas mãos:

“É tara! É tora! É tiro!”
Marcharam... murcharam!
Um belo suspiro
Durou um segundo
Pois não decidiram
Dilema profundo:
"Mudar de emprego
Ou mudar o mundo?



Wescley Pinheiro
Assistente Social, poeta, não filiado a nenhum partido.

domingo, 9 de junho de 2013


No dito pelo não dito
À mercê do improvável
Sob as mãos do improviso

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Composição

Aperta o peito
Esse pavor inominável
Embora já o tenha classificado como pavor

É um sufoco fluido e inconstante
Percorre friamente o interior de meu corpo
Se espalhando para as periferias
Até ultrapassar a epiderme
E propor à minha áurea
Um acordo entre esse medo incomum
E o vento suave que toca minha pele 

Agora sou o teatro,
Sou palco, sou público
Assisto e choro
Enquanto ambos aceitam a dança
E mergulham numa valsa mordaz
O medo e a brisa bailam por sobre mim,
Correm da cabeça aos pés
Cantarolando desânimo e insônia,
Rodopiando pesadelos em passos descompassados
(Ainda que belos)
Como num número improvisado
Artisticamente voraz
Um espetáculo que não assisto estático
Que me coloca em desacordo
Onde retorço minhas pernas
Encolho meus braços
Arregalo os olhos
E grito para depois calar.

O ritmo vai perdendo fôlego
Ao passear em meu corpo
E volta resignado ao meu peito.

É hora de nova música
De uma melodia que ajude a ampliar
O espaço
Que silencie esse aperto inominável
Embora eu já o tenha classificado de pavor.

Que fechem as cortinas, por favor.