segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Endurecer sem perder a ternura

Esse texto foi originalmente publicado no blog "Azia e á digestão" em 04/06/2012

Crítico como procuro ser, quase sempre me pego apontando o olhar para o outro lado da trincheira. Hoje, no entanto, quero trazer algumas reflexões para @s companheir@s do lado de cá, não como advogado do diabo, nem numa atitude de fogo amigo, mas exercitando aquilo que há de mais valioso do que a crítica: a autocrítica.

Digo isso pois tendemos aos debates acalorados, as disputas acirradas, aos imbróglios que causam esparrelas entre os lados político e o pessoal. No entanto, me incomoda muito como a ânsia por mudanças ou as dores dos duros golpes sofridos obscureçam tanto a maturidade política de valoros@s companheir@s, bem como, sendo mais pragmático, façam desperceber o jogo venal que se encarregam de alimentar em termos de táticas para consolidação de suas ideias.

Observando o desenrolar dos “antes-durante-depois” de diversas eleições, debates, correlações-de-forças em espaços mais distintos, não se pode deixar de notar que o destempero é sempre danoso para nós que queremos uma sociabilidade para além do capital. Trazer o debate de ideias para o rancor é tirá-lo do campo que sempre desejamos e reproduzir um clima de revanchismo, mesmo que não seja essa a intenção. No clima quente da divergência a hostilidade e o pedantismo saltam ao semblante e a ponta da língua como uma tentação inexorável.

Criticar o proselitismo, a ineficácia, a falta de radicalidade de outrem reproduzindo o fofoquismo ou utilizando de uma linguagem ferina sem mediação não é somente a transformação imediata do crítico em criticado é também um tiro no próprio pé. Refletirmos se a maneira como estamos fazendo e falando está passando o que realmente queremos passar é crucial.

É imperativo que a afirmação de nossa radicalidade, algo caro e fundante, ultrapasse os dilemas e dores inevitáveis para que possamos saber o que fazermos com eles e não perdemos nunca nosso horizonte, chegando a nos nivelar no jogo baixo que tentam submeter.  Penso que a profundidade de nossos propósitos, bem como as estratégias bem delimitadas e posições explicitadas garantindo clareza e não esquecendo da dimensão pedagógica são elementos categóricos, atinentes á dimensão ética e afirmando também  certo amadurecimento para que possamos passar a mensagem sem que ludibriem nosso sentido.

Entramos numa seara que pede atenção à necessária dinâmica entre forma e conteúdo, entre estratégia e tática. Conteúdo sem a forma adequada é quase dispêndio vão de energia militante, forma sem conteúdo é a pura reprodução do status quo, ou seja, é exatamente do que trata a hegemonia atual, dos grupos políticos que disputam por cima a administração do capitalismo e que vem atropelando os processos de diversas organizações que se propõem a contraposição dessa lógica, ora por repressão, ora por cooptação. Nesse quadro desafiador afirmo que criatividade e inteligência são ferramentas essenciais.

Pensar a forma é mais que determinar linguagens e arregimentar um plano de excelência, mas exercitar a ética no cotidiano das ações e fazer diferente na radicalidade dessa expressão. Quando afirmo isso estou dizendo que a autocrítica é fundamental e que é preciso não moldar a realidade e suas determinações às nossas convicções e sim fazermos do real o alicerce de nossa ação.

Sei que esse é um exercício difícil. A indignação que nos é comum nesse mundo cada vez mais desigual soma-se muitas vezes às historias particulares de pessoas que sofreram e/ou ainda sofrem pressões e perseguições políticas, pessoais e profissionais ao longo do seu processo de construção coletiva, consequência da coragem de dizer “não” aos que estiveram e aos que estão se reproduzindo no possibilismo, no minimalismo, nos conchavos, nas negociatas rasteiras e na conformidade na política. Sei muito bem o que é isso. Esse tipo de situação muito corriqueira, diga-se de passagem, não pode transformar a militância crítica e radical em um amontoado de “rancorosos” (como querem fazer parecer os nossos reais adversários), mas em lutadores perspicazes e maduros para fazer frente na teoria e na prática de forma verdadeiramente diferente. Assim, saber o que dizer e o que fazer é tão importante do que saber como, quando e onde dizer e fazer.

Se ainda não deixei claro esse texto fala de firmeza. Não se trata de recuos, de abrir concessões e afirmar diálogos vazios, mas de garantir nossa radicalidade sem desvios de quaisquer tipos. Trata-se também da firmeza pessoal, da certeza de que não somos seres meramente reativos, amargurados pela nossa luta e nem temos o raso entendimento messiânico de carregar em nossas costas todo o peso do mundo. Ao contrário, trata-se da firmeza de que a luta perene e radical é não só legítima e necessária como o único caminho para a plenitude do gênero humano e, assim, negamos tudo que está posto que não condiga com esse sentido, somos dessa forma alegres, criativos e fortes na construção coletiva.

Discutamos projetos, posturas e não nomes, pessoas e grupos de maneira abstrata e vazia. Se a prática é o critério da verdade e se a confusa contemporaneidade faz com que na noite escura do capitalismo tardio o descrédito na política e na luta coletiva reproduza no senso comum que todos os gatos são pardos, é imperativo que tenhamos a firmeza do nosso conteúdo, as absolutas persuasões da direção e do sentido de nossa luta e, a partir disso, que possamos garantir a melhor forma de explicitar o que nos diferencia, materializando isso cotidianamente ao negarmos a maneira de fazer política hegemônica, tanto no plano universal, como nos planos particulares.

Esse indicativo de nossas proposições, a clareza da dureza do longo processo e o entendimento de que há um cunho coletivo intrínseco nessas questões tem de alicerçar os pilares para que não percamos a objetividade, nem dilaceremos nossas subjetividades.  Pouco vai adiantar encarar plenárias com pessoas que estão suspensas das particularidades dos debates e raivosamente se intitular como representante do melhor grupo. Não será nada produtivo fazer cara feia e reclamar de modo inveterado nos corredores, nas surdinas e porões dos processos vividos, sobretudo aqueles que já passaram.

A raiva e o rancor não são instrumentos políticos e eles causam muitos prejuízos no acúmulo de nossas construções. Quantas vezes vi pessoas afirmando que não conseguiam perceber as diferenças reais entre os grupos que se digladiavam em algum processo eleitoral (em âmbitos variados) ou ainda que se distanciaram de determinado processo pelo aparente "pedantismo, arrogância e demonstração de ódio pessoal" d@s integrantes de grupos que no início demonstravam coerência e integridade, mas mergulhavam no espetáculo imediato da disputa.

Utilizemos o passado, o distante e o próximo, como base histórica fundamental, mas vamos construir o presente olhando para frente. Não estou falando de nos calarmos diante dos absurdos, de vilipendiarmos nossas convicções ou muito menos de juntar todo mundo no mesmo saco e obscurecermos as divergências. Estou falando de não confundirmos luta com disputinha, convicção com raiva, radicalidade com sectarismo, compromisso coletivo com missão heroica e individual e, ao invés de combatermos o bom combate, afastarmos do nosso palco aquilo que afirmamos que nos diferencia dos outros.

Há ainda uma amenidade que deveria ser desnecessária falar, mas que não é: existe vida além de toda picuinha. Cumprimentar as pessoas, desarmar-se no dia-a-dia e saber distinguir diferentes espaços e planos tanto políticos como na vida pessoal é algo muito salutar. Quando descobrimos que existe gente interessante e que podemos conviver, respeitar, até aprender e mesmo assim discordar  deles no plano político, estamos praticando e dando uma lição de como fazer política com P maiúsculo.

Isso significa também encarar o adversário com firmeza, mas sempre perceber os seres humanos que estão ali, com seus defeitos e suas qualidades, encarando os seus grupos da mesma forma, percebendo avanços e retrocessos e a partir daí combater a estrutura contraditória que se reproduz a partir deles, não caindo jamais num “reclamismo” vazio de sentido, nem também afirmando um viés ingênuo e condescendente de mera conciliação.

Nas tortuosas e complexas vias desse caminho é preciso entender as mediações pedagógicas junto àqueles que estão se aproximando dos debates e do processo político para que não se exija tomadas de partidos superficiais, abruptas e sem convicções reais, para que não se transforme as sérias e necessárias reflexões públicas em clássicas gincanas. Não estamos numa mera competição ou numa conversão religiosa, mas buscando algo muito maior e mais concreto: A disputa político-ideológica é algo que se faz sem perder a noção de onde queremos atingir. Garantir uma construção profunda, firme e ética é primordial para o fortalecimento político que mira a emancipação humana.

Entre os aprendizados que os erros e os acertos vão nos fazendo acumular é central que passemos a desconstruir qualquer desvio de nossas convicções. Essa é uma luta cotidiana e que se fortalece desde a prática diária do fazer político, passando pelas reflexões individuais e coletivas e chegando também em todos os planos de nossa vida, exigindo coerência junto àquilo que defendemos.

Dito isso tudo, finalizo esse texto desejando que ele possa contribuir, mesmo não se tratando de uma análise teórica e política profunda, para que possamos enfrentar nossas lutas com coragem, lutando sem cessar, mas não enfrentando os moinhos-de-vento, mas sim @s verdadeir@s dragões. Nenhum tirano resiste a um opositor sorridente, convicto e feliz. Nenhum cinismo é capaz de resistir à prática ética, coerente e tranquila. Nenhuma injustiça vencerá a indignação politizada e insaciável pelo fim de toda desigualdade.

Conquistar corações e mentes para a causa revolucionária é também afirmar a ternura que existe em nós, mesmo aqueles que somos duros na queda. Engrossar o coro dos descontentes é também fazer entender que existe vida fora das divergências pontuais, que as pautas comuns podem ser conquistadas em comum e que a nossa política se afirma na prática combatendo também o debate rasteiro, o personalismo, o revanchismo e a politicagem. Vamos explicitar as divergências, trazer à tona as cisões desse sistema e avançar na construção de outro mundo sem exploração, sem opressão e sem relações calcadas na hostilidade, no “disputismo”, na vaidade, nas mentiras, na desigualdade e na competitividade.

Combater o bom combate é o que a conjuntura nos pede e a estrutura nos exige. Façamos isso com toda a força e energia que esse desafio nos permite, façamos isso também com muita indignação, mas também com criatividade e sorrisos. Saltemos nas ruas, nas praças, nas plenárias com uma prática viva e profunda e endureçamos, sem perder a ternura jamais, porque nenhum dos soldados do capital, nem adversários políticos em nossos espaços, por mais venais que sejam, podem nos tirar a alegria e a ternura de lutar, de amar e de viver com coerência.

Wescley Pinheiro - 04 de junho de 2012