segunda-feira, 28 de março de 2011

O despertador


Abriu os olhos como quem grita. Odiava o barulho do seu rádio-relógio, por isso acordava dez minutos antes do alarme soar, metia a mão nos botões de cima do objeto e censurava qualquer reação daquele aparelho diabólico, evitando um dos elementos constitutivos de seu drama matinal. 

Um preguiçoso “puta que pariu” foram as suas primeiras palavras do dia. Seu olhos inchados e tristes, como de praxe, refletiam algo da noite passada que ele nem podia lembrar. Um odor amargo em seus pensamentos, dores imagéticas saltavam frente aos seus olhos, tudo desfocado, sem um mínimo enquadramento, sem um pingo de lucidez.


Não queria chorar, achava a coisa mais brega do mundo. Estava decidido a não mais fazer isso e ficaria firme em sua decisão, ao menos em quanto estivesse sóbrio. O choro era uma fuga medíocre, pensava.

Sentia uma imensa raiva daqueles que faziam de suas desgraças palco para brilharem em frente aos infelizes desavisados que julgavam-se alegres sem nem saberem quaisquer motivos realmente relevantes para isso, além do quê, muito bem que não existe felicidade às sete horas da manhã. 


Suas promessas, seus fantasmas, seus rancores eram partes de uma armadura pesada que sempre se potencializavam com o nascer do sol. Só ele sabia disso, só ele saberia, era uma escolha que julgava virtuosa, talvez a única da sua vida. Por isso, mesmo com dor, permanecia calado perante aos outros. Diante do incomodo, ele refletia que embora tivesse a  certeza de que os responsáveis por suas angustias e desilusões eram todos que o cercavam, ninguém jamais poderia ser responsabilizado individualmente.

Estava confuso, não era anormal. Levantou-se calmamente e foi até o banheiro, pegou sua escova de dentes e apertou o tubo de creme dental que só minguava um resto de pasta já seca. Enquanto os movimentos contínuos da mão esquerda pressionavam a escova nos dentes amarelados por conta do café e do cigarro, urinava no vaso e respingava no chão, ao passo que retorcia seu rosto para contemplar seu reflexo no espelho.

Era o único momento que se achava bonito, com seu rosto carregado de sono, preguiça, tristeza e raiva. Um charme de melancolia e solidão que embaçava sua imagem no sujo e trincado espelho do banheiro, recolhido em seu prego naquela parede úmida, torto, pequeno, com bordas simples de cor alaranjada.


Um espelho vagabundo, só, identificado com a miragem de sua face. Acompanhado somente pelos fungos que habitavam o cimento da pia e daquela imagem, daquele reflexo adjetivado por pedras e tropeços de horas vindouras e de uma madrugada que não voltaria mais.

Ele jogou água no espelho, lavou as mãos, voltou para a cama e dormiu novamente. 


Acordou do pesadelo.


Wescley P.