sexta-feira, 4 de março de 2011

A peleja de Lukács contra Habermas*



Meu senhor, minha senhora
Escute o que vou falar
Pois eu venho lhes contar
Uma importante história
A peleja de Lukács
Que estudando Karl Marx
Colocou tudo pra fora

Colocou tudo pra fora
O que tinha na cabeça
Pois um tal, metido a besta
Tinha aparecido agora
É que Habermas foi à luta
Questionando a conduta
De Lukács nessa hora

Injustiça como essa
Merece reparação
Pois relativização
Que Habermas faz quando versa
Não responde as perguntas
E o tema que se junta
Carece menos de pressa

Foi aí que decidi
Botar os dois cara a cara
Pra ver se você repara
A prosa que eu também vi
Com narração parcial
Pois nesse jogo real
Meu lado já escolhi

A disputa é cruel
São dois intelectuais
Respeitados por demais
Escrevendo no papel
Na plateia marxistas
E também pós-modernistas
Vi Lessa, Macário, Castel...

Deixando papo de lado
Vamos logo pro enredo
Que eu já tô é com medo
De um sair baleado
A briga já está feia
Vai sair um mói de pêia
Do burguês com o dominado

“O central tá no trabalho?”
É o tema da peleja
E vamos botar na mesa
Todas cartas do baralho
Vendo o cerne da questão
Mostrando a contradição
Do capitalismo falho

Lukács, o nosso artista
Discursou nesse momento
Colocou seus argumentos
Não escorregou na pista
E Habermas observava
E o que não concordava
Anotava numa lista

“Falo da centralidade
Do trabalho, com razão
Pois a prévia-ideação
Vira materialidade
É essa a ontologia
Que junta teleologia
Com as tais causalidades

A natureza mudando
É esse o meu trabalho
Mas não sou nenhum paspalho
Eu faço tudo pensando
Isso não é casual
Eu sou um ser social
Porque vivo trabalhando

É esse o meu trabalho
Ele é transformação
Muda a mim e a produção
Muda a tu, muda o cascalho
Muda o jeito de pensar
Muda o se relacionar
E diz até quanto eu valho

Você deve tá confuso
Pensando no pós-moderno
Escrevendo em seu caderno
Esse seu olhar difuso
Falando em novidade
Em nova sociedade
Esquece o valor de uso

Muito bonito você
Metido a filosofia
Escrevendo agonias
Sem ao menos saber ler
Sem ver a realidade
E toda a fragilidade
De quem só vive a sofrer

Se você não entendeu
Vou deixar bem explicado
O trabalho, abestado,
É fundante, compreendeu?
Mas com a divisão de classe
É que gera o impasse:
‘Dois pra tu e um pra eu’

Amigo, a própria historia
É minha prova maior
E nisso não estou só
Comigo até tu concorda
No hoje é que o bicho pega
E aí tu escorrega
E passa a roer a corda...”

Habermas se levantou
E disse “ ultrapassado!
Tu já ta é aluado
Ainda não se mancou
Ficou parado no tempo
Analisou um momento
Não viu que o mundo mudou

E a tecnologia?
E a crise de valores?
E esses novos atores
Da vida no dia-dia?
É preciso analisar
O novo relacionar
Longe da ideologia

O mercado financeiro
Nova face social
Nova vida, no geral
O salário, o dinheiro
Não pode ser encarado
Como no século passado
Com viés politiqueiro

“Com viés politiqueiro?!”
Respondeu o marxista
Você só quer ser artista
Se safando no puleiro
As suas afirmações
São as mesmas contradições
Com o jeito mais faceiro

Não venha com esse lero
Desmerecendo o trabalho
Passei na casca do alho
O bom senso que acelero
Conversa neoliberal
Não aceitou nem a pau
Nem é isso que eu espero”


“É aí o seu engano”
O Habermas ironizou
“Você não analisou
O novo cotidiano
Não viu a identidade
Intersubjetividade
Hoje é primeiro plano

É que a comunicação
Hoje é centro de tudo
E deixe de ser queixudo
Olhe pra informação
Não fique nessa demência
Perceba que a ciência
Faz parte da produção”

“Você é muito é insano”
Falou Lukács atrevido
“Tá na hora do bandido
Sair debaixo dos panos
O seu miolo de pote
Não consegue dá um norte
Pro bem do gênero humano

Falo com honestidade
O que eu quero falar
Temos que priorizar
Nossa coletividade
Não nego o individuo
Mas só com ele, não lido
Essa é minha verdade

Trabalho é protagonista
E traz possibilidade
De prisão, de liberdade
De tudo que hoje exista
É chave do entendimento
Por isso fica no centro
E por favor não insista


‘Intersubjetividade’?
Êta palavrinha grande
Assim a prosa se expande
Num verso só ela cabe
Na minha terra é migué
Pro povo perder fé
Na nossa historicidade”

Sem ter muito o que falar
O Habermas saiu do salto
E foi gritando bem alto
Como quem vai apelar
Esquecendo a humildade
Falando barbaridade
Que dá vergonha contar

“Não aceito discutir
Com teórico tão gentalha
Com sua resenha falha
Que não dá nem pra sair
Agarrado num barbudo
Fingindo saber de tudo
Mas longe de descobrir

Tenho pena de você
Caro Lukács maldito
Você deve está aflito
Porque não sabe perder
Uma derrota merecida
Com teoria vencida
Ninguém lembra de te ler

Hoje sou o maioral
Estou na crista da onda
Todo mundo já me sonda
Me chama de genial
Escrevo sobre o individuo
O meu leitor é assíduo
É ‘comunicacional”


Lukács disse “atenção
Eu sou um pesquisador
E escrevo com louvor
Não admito ilusão
Sua falha não engana
E se eu buscasse fama
Ia dançar no Faustão

Quero muito conversar
Mas de forma interessante
Não perder nem um instante
Com bobagem e com penar
Se você não quer conversa
Me diga logo depressa
E é melhor se calar”

O Habermas já sem razão
Esculhambou o Lukács
Xingou a mãe de Karl Marx
Saiu rodando no chão
Mas isso o pior não foi
Foi o que disse depois
Preste muita atenção:

“Eu estou perdendo tempo
Tempo sem necessidade
Com uma personalidade
Sem esmero, sem talento
Só quem te ler animal
É o Serviço Social
E os cabeças-de-vento

Falar de centralidade
Sobre esse tal de trabalho
É coisa de salafrário
Ou não passa de maldade
Tu és mesmo um indigente
Escrevendo feito gente
Pras moças de caridade


Aí o bicho pegou
Lukács pediu reforço
Lessa não roeu o osso
Macário logo engrossou
Pularam da arquibancada
Pra ajudar o camarada
Foi quando o tempo fechou

E Habermas na agonia
Se encontrava em apuros
“Esse daqui tá seguro”
Macário e Lessa diziam
Agarrando o oponente
Lukács todo contente
Batia com alegria

Da arquibancada ouvia
“Bate logo nesse bicho!”
Era Evânia, que no grito
Se juntar também queria
Virgínia gritava “verme!”
Ao lado de Guilherme
Protestava em companhia

Professora Adnarir
Junto com Zé Paulo Netto
Quase que não param quietos
Os dois sem parar de rir
Liana disse 'meu povo
O circo vai pegar fogo
Ninguém sai vivo daqui!”

Pense na pisa pesada
Que esse pobre levou
Quando Lukács cansou
Macário, com mão inchada
Disse que ainda havia
Como tirar mais-valia
Em sangue, dando porrada!


Na plateia o Castel
Foi saindo de finim
Disse “se pensarem em mim
Vou sentir gosto de fel
No meio desse embolado
Vai sobrar pra todo lado
E vou acabar no céu”

Foi quando o escorraçado
Pediu calma a multidão
Se levantando do chão
Tava todo envergonhado
Falando como um doente
De forma surpreendente
Mudou o tom do riscado

“Eu agora me escafedo
Digo estou indo embora
Mas você se engana agora
Se pensar que estou com medo
Eu fiquei foi convencido
Do meu erro cometido
E estou pedindo arrego

Acabem o empurra-empurra
Eu fiquei sem argumento
Murro até que aguento
Mas não minha postura burra
O tapa bateu na face
Mas a pisa no debate
Foi pior do que a surra

Eita que esse povo é brabo!
Onde eu fui me meter?
Não pude nem defender
A tese que eu me gabo
Fui querer entra na festa
Agora o que me resta
É só abanar meu rabo


Portanto deixo vocês
Fiquem com sua conduta
Com as classes, com a disputa
Do jeito que Marx fez
Não há como discutir
E é melhor eu sair
E deixar tudo de vez

De lado deixo a vaidade
Contigo eu aprendi
Em sua fala percebi
Que você tem validade
Não estudar quem trabalha
Essa foi a minha falha
Não vi a centralidade”

Lukács interrompeu
Falou como vencedor
Disse “grande pensador
Quem lhe ganhou não fui eu
Quem ganha é a academia
Criando bibliografias
E todo o povo venceu

Homem deixe de besteira
Tu não tá de todo errado
Tem muitos pontos cruzados
Entre as nossas papeleiras
Devemos dialogar
Para podermos chegar
A uma tese primeira

Que tu é equivocado
Isso todos podem ver
Mas aprendi com você
Olhar o subjetivado
Vem comigo pelejar
E do trabalho falar
Contra outro alienado”


O Lukács pra acabar
Convidou toda a patota
A discutir anedotas
Todos na mesa do bar
Pois Meszáros e Antunes
Já esperavam imunes
De tanta pinga tomar

Assim acabou o conto
Uma grande brincadeira
Disputa nada ligeira
Eu peço até um desconto
Todos aqui são da paz
Brigar de vera jamais
Não esse o confronto

A disputa de verdade
É na ponta da caneta
Tese ,papel, lápis, letra
Pela tal centralidade
Aqui tudo é ficção
Mas nossa grande questão
Está na realidade

É nela que a gente cria
Força e concentração
Planejamento e ação
Numa contra-hegemonia
Firmeza nos pensamentos
Embasando os argumentos
Na luta do dia-dia

O marxismo venceu
No final dessa peleja
Mas o que ele deseja
É vencer o capitalismo
Dialogando os autores
Mas sem perder os valores
E cair no subjetivismo


O trabalho é central
Não há como discutir
E eu não vou nem mentir
O Habermas é mêi sem sal
Agradeço a atenção
Pois já é ocasião
De botar ponto final

Me despeço de vocês
Como Karl Marx falou
Pedindo ao trabalhador
União contra o burguês
Já deixei o meu recado
E eu já tô é cansado
Até a próxima vez!

[Pois já deu o meu horário
Essa era minha meta
Levar vocês na conversa
Na lábia ninguém é páreo
Agora vou descansar
A nota comemorar
Com um dez no seminário.]

Wescley P.


Cordel feito para um seminário sobre o livro Os Sentidos do Trabalho, na disciplina de "Serviço Social e Processo de Trabalho", no curso de Serviço social, da UECE, ano de 2008.