1. Uma gaveta pública cheia de rascunhos.
2. fi.a.po sm (de fio) 1 Fio tênue. 2 pop Quantidade ou porção insignificante...
3."O coletivo de um homem só, falando do nada e pra ninguém..."
O bichinho da vaidade estava lá e ainda mais cínico. No entanto, não foi por inveja, mas por medo ou por pura crueldade que tudo aconteceu.
Mergulhado no marasmo, o sujeito sabia que os seus Caetanos, Gils e as grandes gravadoras já estavam por aí exercendo seus papéis. Enquanto o tempo se arrastava, ele ainda aguardava com fé o aparecimento do David Bowie de seu Tom Zé.
Era justo esperar. Pois o maior problema dessa história não era o fato de que nenhuma das personagens tinham o talento e a genialidade de Caetano, Gil, Bowie e muito menos de Tom Zé. A analogia presente surgiu desprovida de qualquer tom pretensioso, ela apareceu mais por resignação do que por resiliência, muito mais por esperança do que por certeza e essa questão se resolveria indubitavelmente com o recurso da proporcionalidade.
O problema maior é que o sujeito não conseguiu sequer ter o seu “Estudando o Samba”. Não se sabe se isso ocorreu por incompetência, distração ou coisa parecida ou se de fato a ordem dos fatores modificou o produto, visto que, nesse caso, o processo se deu a partir de algo novo, como muitas novidades antigas, muito mais cruel e eficaz: o ostracismo preventivo. As minas, alçapões e afins se espalharam como prevenção. Elas foram engenhosamente aplicadas mais nas potências que nos atos, armas silenciosas como antes, mordazes como antes, mas com muito mais precisão e intensidade... povo eficaz esse da contemporaneidade!
E quanto ele torcia, ciscava, sofria, cantava: “Ah! Se maldade vendesse na farmácia, que bela fortuna você faria com esta cobaia que eu sempre fui nas tuas mãos...”
Bebamos nesse beco sem saída
Matemos-nos nesse mato sem cachorro
Dancemos no baile dos delatores
Molhemo-nos nessa chuva de mordaça
Na tempestade do tempo
Na banheira da bobagem
Ou no mar do ostracismo
Do cotidiano caos
Que as lágrimas escorram sempre
Pelas barbas da barbárie
Para alegrar o poder
A arma das amarguras
A bala dos bajuladores
Com seus prefácios e preces
Com o seu morno mormaço
À mercê dos mercenários
Para quem somos moedas
Somos gozo e somos prato
No banquete bactério
Pois hoje é dia de festa
O Cândido ódio
Do Cântico cálido
No Pálido pódio
O Código plástico
Por puro episódio
O cedro acrobático
Curvou-se aos goles
Nos pastos de certos
Tão Sumos proféticos
De Cismas punidas
E Pura cantigas
Que catam à polis
De Proles antigas
Que fodem e fodem
Em páreas fadigas
E em fúrias nutridas
Fuzilam e morrem
Quero uma sopa de letrinhas
Temperada com lirismo
Pra cozinhar os meus versos
Na fogueira das vaidades
Quero embebedar-me de sonhos
Cambalear-me em rimas
Ressaquear a saudade
Amarga, num fim de tarde
Quero a ebriedade
Para depois vomitar
Tudo aquilo que alucina
E doses dessa verdade
Não quero as frases de defeitos
Nem nossos ditos ditados
Quero que falem os calos
Que calem os falos
E que o doce pós-banquete
Lambuze-me de ousadia
Quero tudo e quero o nada
Beber a noite, comer o dia
E vomitar madrugada
Quero que destilem em meu sangue
Gotas de versos ardentes
Que fermentem em meu espírito
O não-lugar mais bonito
Onde o que reluz é couro
E o que é louro não brilha
Quero a linha do horizonte
Pra costurar meu poema
Vou escrevê-lo com os pés
E recitá-lo com as mãos
Como contar a história de dois artistas incríveis, de um pai ex-militar, de um filho de esquerda, de um pai autoritário e ausente, de um filho revoltado e rancoroso? Como contar uma história de homens tão marcantes para a arte desse país?
Quando vi o trailler já me arrepiei com a caracterização do ator que interpretou Gonzaguinha, desde então esperei a estreia desse filme de dois personagens impressionantes. Hoje vi o filme e não me arrependi, fui coberto pela mais intensa chuva de sentimentos que essa junção de drama familiar, biografia de dois grandes artistas e espetáculo de música de qualidade dentro de uma obra audiovisual muito peculiar por esse desafio descomunal que a própria historia que propôs contar proporcionou.
O filme Gonzaga é emoção a flor da pele. Quem é fã de um ou de outro, ou de ambos não tem como não se emocionar. A complexidade de tais personagens, as contradições, os conflitos, os talentos singulares nos envolvem como a sanfona de um e o violão de outro. As diferenças e semelhanças, a construção de mitos e a desconstrução “humanizadora” com os defeitos de um Rei e as mágoas de um Príncipe, entre ausências e erros, a admiração, a arte e a superação.
O triunfo do sertão, a maestria da luta do povo, a sagacidade da cultura popular, a poesia de quem sonha outro mundo, os limites e as possibilidades, perpassadas, transformadas, contrariadas em artistas de tempos e espaços distintos, pai e filho, ao encontro e de encontro por aspectos universais, por cisões materializadas em conflitos singulares, de homens, artistas, pai, filho. O acerto de contas entre eles, dois gênios, aflorou o orgulho que tenho de ambos. A identificação estética e cultural com o pai, a identificação artística e política com o filho e uma confissão minha aqui de ter ficado com um gostinho de poder ter visto mais da trajetória, seus sonhos, suas bandeiras do Gonzaga filho, mesmo que dentro do contexto abordado tais construções tenham contemplado isso também.
O filme está à altura de sua história? Digo com toda certeza que não! Acho até que seria impossível fazer algo próximo de chegar à história tanto de Luiz Gonzaga, como de Gonzaguinha. Tarefa difícil também retratar a amplitude artística de ambos e, por último, uma relação familiar tão intensa e cheia de sentimentos dos mais diversos, mas nada disso tira o brilhantismo da obra, posto que ela chega até onde qualquer um que não seja um dos dois Gonzagas conseguiria chegar. A despeito de alguns clichês e do drama quase constante, gargalhadas aparecem, sorrisos de canto de boca, uma nostalgia bonita, seja da cultura popular tão ataca e massificada hoje em dia, seja pela saudade, pelas saudades dos artistas, do artista que é gente e do artista que é luta.
Não tem como não se emocionar com dois personagens tão incríveis, não tem como não se vê em seus conflitos como pessoas, nem tem como não admirar o sertanejo Seu Januário e ainda não se lembrar do legado dos mesmos e de sua família que ainda hoje canta com suas semelhanças e seus ineditismos tão peculiares e evidentes naquela prole.
Os Gonzagas já me encantavam e me emocionavam, cada um de sua forma. Vê-los magicamente juntos, conversando, brigando, rindo, chorando e cantando foi estado de graça. Só a arte, só a música e só o cinema para proporcionar isso tudo aqui e agora!