quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O Auto da Incompletude

Sem vocação para ser herói
Decidi-me real
Com defeitos e medos
E coragem para enfrentá-los
Sem o dom para ser vilão
Construí-me humano
Apesar dos melindres
E do ódio das injustiças
Sem competência para ser mártir
Fiz-me vivo
Por vezes moribundo
Assassinando-me em silêncio
Comumente tenaz

Sendo eu mesmo
Assim tão pouco
Tão tosco
Tão impaciente e imperfeito
Sem talento para o palco
Para os risos da vaidade
E as lágrimas de crocodilo
Na coxia da vida
Escrevi as minhas falas
E declamei os meus poemas
Em voz baixa e sem plateia

Responsável por meus atos
Pelos meus acertos e erros
Aceito a pena que mereço
Rechaço o julgamento da aparência
Posto que até o dia de hoje
Só aprendi a atuar meu papel
De persona sem personagem
Sem entradas triunfantes
Sem trilhas emocionadas
Sem saídas épicas e gran finale

No Auto da incompletude
Assino meu nome
Naquelas letras que falei
Naqueles cacos que falhei
Naqueles passos que dei
No que de fato fiz
No espetáculo da concretude
Sigo protagonista de mim