sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A labirintite político-ideológica, o violão e uma fábula partidária



Adoro tocar violão! Devo confessar que não sei fazer isso muito bem. Não sou um exímio músico, mas me esforço e quem sabe qualquer dia desses eu toco um sambinha para vocês. Agora mesmo estou tentando aprender aquela música que diz assim: “você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão”... é música legal, ritmo bom, letrinha com uma dorzinha de cotovelo como tem que ser... mas fico me perguntado aqui: Que mão será essa ein? A esquerda ou a direita?

Atrevo-me a pensar que para muita gente essa não é mais uma pergunta fácil... saber que mão boba é essa tem sido uma tarefa que exige cada vez mais malemolência, dada a rapidez da dança das cadeiras entre os que choram e aqueles que cantam aos quatro ventos festejando o "teu sofrer, o teu penar".

E aí, a esquerda ou a direita? Pergunto-me lembrando do tempo em que as pessoas acreditavam que o lado esquerdo ficava do lado esquerdo e o lado direito, pasmem, do lado direito! Há quem grite de fina força que não mais é assim. Embora eu duvide muito, aceito que o caleidoscópio da liquidez atual possa está desafinando a cuíca do pessoal, fazendo todos se perguntarem, mesmo silenciosamente: "De que lado você samba?".

No samba-do-crioulo-doido da política nem se fala! Crise de fé, pós-materialismo, pelegagem explícita, tem adjetivos para todos os gostos e lados para a metamorfose sofrida sob desculpa da governabilidade. Vou chamar de "labirintite político-ideológica", fenômeno que faz cambalear discursos e práticas, sejam elas estrelares e encarnadas com camisetas da FIEC e bonés do MST ou da tucanagem com bandeira do GreePeace e motosserras na mão. E aí, a esquerda ou a direita?

Ah, a esquerda! O problemático lado esquerdo. Eu que sempre fui canhoto, tive muita dificuldade na escola, quase não haviam cadeiras específicas para os sinistros que nem eu. Vez por outra tive que me adaptar, juntar duas cadeiras, entortar um pouco o meu corpo... acho que é o que esse pessoal engravatado com bóton vermelho no paletó chama hoje de “concessão devido a conjuntura”.

Como é difícil fazer tudo com a esquerda! Quando comecei a aprender a tocar violão foi complicado, tive que tocar com a mão direita, isto é, da forma mais convencional. Não conhecia ninguém que soubesse do lado oposto e fui treinar pelas revistinhas que comprava com as cifras das músicas . Deve ser por isso que não sei tocar bem nesse método até hoje, além do que, como dizem os mais experientes, tocar baseado em cifras vicia, esse pessoal de boina na cabeça e maletas nas mãos sabem disso como ninguém, claro, com outras cifras e em outro contexto.

O fato é que minha vida foi assim: sempre escrevi com a esquerda, mas tocar só aprendi com a direita. Felizmente, para mim enquanto sujeito político, estou falando apenas do violão. Infelizmente, para mim enquanto brasileiro, a analogia cabe bem aos sujeitos de um certo partido com labirintite político-ideológica que também sempre escreveram com a esquerda, mas agora só tocam com a direita, ouso dizer que viraram ambidestros e olhe lá se a mão canhota não atrofiar.

Vai um sambinha aí?