segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Lágrimas, fantasmas e blues



“É mentira! É mentira!” sussurrava no ouvido da noite. Queria convencê-la de que não havia nada demais em ficar ali em meio ao seu caos particular, afogando-se no ar que adentrava por suas narinas queimando sua alma simplesmente por lembrar que estava vivo realmente.

 Os dedos da mão esquerda imitavam notas musicais em sintonia perfeita com a melodia da solidão e dos clichês trazidos pelo luar que insistia em aparecer mesmo com as nuvens carregadas sob seu reinado sombrio. O seu sussurro repetia-se junto com os três ou quatros acordes imaginados em descompasso com a voz sincopada, mas em aterrorizante harmonia com sua única testemunha,  aquela ali em cima dele e só dele (ao menos queria ele acreditar que fosse).

Aquele banco frio, o vácuo ao seu redor, a angustia, tudo era motivo para sua falta de motivos. Sentia um arrepio em sua espinha que o fazia repetir psicoticamente “é mentira, é mentira, porra!”. Sua mão direita segurava uma garrafa de gim, com todo o sabor horroroso que só essa bebida consegue ter. Sentia aquele gosto de derrota em cada gole e olhava para o lado, nada via. Olhava para o céu, sentia os pingos de uma tímida chuva cair, mas que não impedia a contínua presença da lua a rir de sua desgraça, a caçoar de seus toques no invisível e a confabular anedotas cruéis sob seus murmúrios desconexos.

Poderia ser apenas o passado lhe puxando como quem quer acertar as contas. Poderia ser o futuro cobrando-lhe e sugando-lhe por todas as suas indecifráveis, megalomaníacas e inconstantes expectativas sobre o que nunca iria se materializar. Mas não, ele sabia que se tratava de ambos, simbióticos, na intersecção do presente, naquilo ali que ele não sabia bem precisar, nem definir, que ele não conseguia encontrar razões, somente queixas, somente negações que se atiravam sob sua cabeça a fim de clarear alguns metros diante si próprio para que pudesse sobreviver àquela maldita solidão.

Vomitou algumas lágrimas, engoliu alguns pensamentos, pisoteou sensações que nem bem sabia adjetivá-las e ergueu a cabeça novamente. Após mais um gole percebeu que a noite não era assim tão escura.

Wescley Pinheiro