quinta-feira, 28 de março de 2013

O Reino das Onças Pretas


Não parecia, mas era sim um local especial, um reino onde atravessaram muitos habitantes que com suas missões e percalços fizeram dali um canto peculiar. Patos, bodes, cururus, galos, galinhas, urubus, pavões e cobras encontravam-se nos anais de nobres barões do solo arado e da poeira constante que encobria tanta dor e magia. O antigo riacho avermelhado propagava a maldição de uma terra que haveria de ser vivida em sangue, suor e lágrimas, mas nada disso tirava a felicidade inerente de suas vielas. As tocas das onças abandonadas davam lugar aos ninhos, repletos de luxo e alegria, espalhados nos buracos do chão árido ou nos galhos das oiticicas, enquanto nos grandes e apertados currais milhares de ovelhas se amontoavam e viviam contentes sem saber por quê. Esse era o maravilhoso Reino das Onças Pretas!

Diziam os mais antigos que essa terra havia nascido pelo avesso. “E terra nasce?” – perguntou um desavisado  – as coisas por ali não tinham muita lógica mesmo. Era um pequeno reino, muito, muito pequeno. Na verdade, só quem acreditava que aquilo ali era um reino eram os próprios habitantes dele, pois esse reino tão pequenino se encontrava dentro de outros reinos muito maiores, poderosos e ricos, o que o tornava uma parte quase insignificante quando olhava-se de fora.

A terra um dia muita seca, agora regada por bastante água, continuava a não fornecer tantos frutos assim  e estranhamente ainda morriam de sede boa parte dos habitantes. O sol escaldante permanecia tomando conta do lugar, aliás, o suor era uma das coisas mais democráticas dali. Servos, plebeus, nobres e reis, todos e todas suavam muito, alguns de tanto trabalhar naquele calor característico, outros ao cumprirem a função natural dos brindes diários e darem suas goladas com as mais populares bebidas - atividade para lá de cansativa - diria muitos dos habitantes do belo lugarejo. Essa era a crença daqueles fartos e sortudos viventes dos ninhos e também dos sedentos moradores dos currais. Não era um lugar ruim, nem os seres que ali estavam eram de má índole, todos só acreditavam cumprir seu papel no roteiro destinado seja lá por quem.

Era um reino diverso, mas todos tinham hora, lugar e função específica. A disciplina com a manutenção de tudo era tida como natural até no caos, na farra, na festa e na disputa que se avizinhava em tempos como aqueles dentro da Corte. E diferenças nos seres vivos era algo que não faltava ali, tinha de tudo, no entanto um curioso elemento era evidente: aquelas que davam nome ao lugar estavam vez mais raras até na memória dos mais antigos. As temíveis e belas onças pretas de outrora, antes tão numerosas, caíram em ameaça de extinção, tornaram-se inofensivas ante a esperteza dos répteis e das aves e seus talentos infindáveis de transformar todas as outras espécies em ovelhas obedientes, presas em seus currais. O tempo não era de onças com aquela rapidez e ousadia peculiar, o tempo era de encantamento com belas plumas ou de curvatura resignada para  as perspicácias daqueles que rastejavam sobre solo fervente. Onças e suas rebeldias nunca foram tão eficazes na dinâmica da Corte que há muito tempo já se consolidava na rivalidade de répteis e aves.

Para ser bem específico, apenas uma onça velha e maltrapilha vivia em meio àquelas aves que não tinham grande capacidade voo, mas que cultivavam a inveja alheia pela postura elegante e pelo rabo robusto, e daqueles répteis não venenosos, mas com o talento da asfixia inato dessa espécie, determinando admiração pelo seu bailar rasteiro cheio de capricho. Sob o céu e sobre a terra, qualquer aparente dissidência na região da Corte Real era apenas um novo adorno de penas aqui, uma troca de pele acolá, fazendo com que as espécies que orbitavam o lugar lembrassem que o tempo das feras selvagens deveria ficar apenas no folclore e nas histórias de trancoso.
   
Havia algo mágico ali que os colocavam para dentro de uma trama obsessiva. O jogo constante era a dinâmica do reino que através da ludicidade vivenciava seus dilemas e contradições, ao passo que decidia sua organização num carnaval ou numa gincana animalesca que ninguém nunca abriu mão. Reinar ali era brincar dentro da Corte para animar o curral - "céu para as aves, terra para os répteis e animação para os outros animais" - assim era ensinado para todos e todas que ali chegavam.

Como já era esperado nas épocas do festejo sagrado, os últimos dias foram de grande movimentação. Na ala dos plebeus tudo continuava igual. Aliás, disso não se podia reclamar. Num reino que não gostava de mudanças os diversos imbróglios no pequeno e aparentemente heterogêneo grupo da corte nunca alterou de forma significativa a vida daqueles que só suavam nos pormenores da labuta. Difícil mesmo era a vida na região dos Castelos - “Tantas dificuldades, confusões, confabulações, tanto fardo político para carregar” – pensava um - “Nossa, não era à toa a dificuldade de um Rei se segurar no trono” – outro garantia!

E assim a vida se arrastava pelo caminhar do sol e da lua por tempos e tempos.  Na movimentação alegórica tradicional lá estavam eles de novo, os de sempre, nos mesmos papéis: A velha troca de acusações, as mesmas parábolas e anedotas, a tentativa de impressionar os servos que de longe assistiam o siricutico dos bichos no espetáculo perene, com ápices naqueles esperados roteiros dos períodos bianuais. Era hora da agitação! Músicas, números artísticos com animais adestrados, ora aves vistosas, ora répteis rastejantes faziam da Corte um local diferente do cotidiano e aquilo sempre deixava o curral ensandecido!

No limiar das projeções daquela exótica Corte, aquela única onça permanecia no picadeiro real. Estava no meio dos outros animais, vivia de maneira curiosa, vestida de palhaça, sempre silenciosa, acuada, era vista ora com desprezo, ora com curiosidade pela fauna hegemônica dali. Nos dias do cume das farsas tradicionais, eis que ela, maltrapilha, de roupa colorida, maquiagem no rosto e com um chapéu pra lá de jocoso resolveu descer do palco e deixar que o imbróglio fosse protagonizado pelos verdadeiros astros, um espetáculo muito complexo, cômico e dramático ao mesmo tempo.

Sob o olhar surpreso das ovelhas, a onça caminhava observando o palco onde os nobre seres da Corte experimentavam seus papéis tão repetidos, mas que para aquele rebanho parecia tão novo. E era realmente curioso como avós, pais, filhos, netos e todas as outras gerações de répteis e aves se engalfinhavam sob as mais diferentes desculpas. “Reforma, contrarreforma, revolução”  de tudo já se havia feito uso, nada mudara, aliás, vez por outra se modificou os nomes (mas nunca os sobrenomes) das dinastias que sentavam na cadeira central. Naquela guerra de foice valia de tudo: Rasteiras, puxões de cabelo, fatos e boatos! Na revolução dos bichos do Reino das Onças Pretas mudar algo só se fosse para permanecer igual, esse era o lema.

Cansada da posição inerte, a onça juntou-se às ovelhas do curral e de lá observou as pérfidas querelas, o rastejar das convicções, os voos rasos dos sonhos egoístas. Constatou como todo o carnaval de disputa da Corte era um jogo falho para o reino e perspicaz para os reis, percebeu como o reino que levava seu nome nunca fora seu, primeiro porque sempre houveram mais ovelhas do que quaisquer outras espécies ali. Depois porque a sina predatória de quem estava naquela Corte transcendia a cadeia alimentar e asseverava o que havia de mais intenso no somatório das selvas e reinos maiores, pois as relações que ali se reproduziam já não tinham muito com o que se reivindicava natural.

A onça descobriu os motivos de como ela e suas irmãs foram vencida e como todo aquele rebanho nunca se rebelou. Nesse momento viu todo o seu corpo desbotar, suas garras caírem, suas presas encolherem, viu surgir uma pele clara, peluda, grossa e macia: A onça berrou! O berro que deixou todos ali assustados era a revelação de que aquelas onças do passado sempre foram na verdade lindas e dóceis ovelhas como outras quaisquer.

Era o momento do diagnóstico real de que nunca houve sequer uma concreta resistência ao espetáculo da Corte opressora que reproduzia sua lógica desde sempre. Era essa a essência daquele lugar: O Reino das Onças Pretas que nunca foi das onças, de onças que nunca foram o que acharam ser e de reis voadores e rastejantes que se perpetuaram ao longo do tempo por meio do riso raso e do choro largo, da ilusão daqueles que acreditaram ser possível reinar e prosperar na mentira e na dor. A onça, agora ovelha, lembrou de sua roupa de palhaça e, por um instante, esboçou um tímido e tenso sorriso para sua intuição, para a compreensão do papel crucial de sua história ali, até então vista como tragédia,  agora revelada como uma farsa vital para a capilarização dos contos e anedotas que fizeram do reino um lugar  magicamente pueril. 

Ainda assustada com sua percepção, percebeu também que aquelas aves e répteis misturavam irracionalidade selvagem com hipocrisia real para ludibriar as ovelhas em divisões inexistentes, vilipendiando as motivações daquele cotidiano tão pequeno em festas pobres, em rezas curtas e em esmolas poucas. Continuando a raciocinar, a antiga onça concluiu que se ela e suas antepassadas eram também ovelhas e as aves e répteis da Corte Real eram tão mais iguais que genuinamente divergentes, talvez pudessem todos ali serem, afinal, da mesma espécie.

Pensando que todas aquelas desigualdades ali presentes poderiam ter sido uma obra construída ao longo do tempo e, assim, com uma natureza perecível, percebeu que o Reino das Onças Pretas iria continuar sua sina até o dia em que as ovelhas também alcançassem o entendimento de que não mais poderia haver répteis, aves ou onças que pudessem dominar um rebanho que perde o medo de mudar, de tomar suas rédeas, de quebrá-las ao meio, de romper as cercas dos currais para demolir o circo falso e indigno das Cortes Reais e ainda poder não se contentar apenas com a transformação de um lugarejo, mas sim buscar a vivência na propagação profunda, para além das raízes das oiticicas, dos oitões das porteiras e das estradas de terras dali, transformando o riacho maldito em testemunha da luta, no relato vivo e sangrento de que boas ovelhas berram dissonantes e que o tempo de encantar-se com o reinado alheio havia de ser superado.

Enquanto constatava e sonhava, o seu vislumbre foi interrompido por um tumulto espetacular: um desfile barulhento e massivo. Carroças e carruagens em linhas paralelas riscavam o chão de todo o reino numa velocidade incrível, nelas, aves e répteis novamente insultavam-se mutuamente, enquanto as ovelhas vibravam extasiadas ao passo que faziam uma força descomunal puxando sem cessar os veículos dos seres nobres a fim de que cada espécie real pudesse vencer a tradicional corrida.

Fitando aquela cena, a antiga onça sabia que ainda haveria muito tempo para que suas constatações se ratificassem na massa daqueles currais. Ela bem sabia que até lá sangue, suor e lágrimas banhariam mais aquele chão do que as águas tão belas e já não mais raras ali, sabia que muitas corridas e carnavais seriam feitos com os mesmos vencedores e perdedores de sempre. Aves e répteis tão díspares, tão inimigas entre si, agradeciam abraçadas nos calabouços dos castelos ao perceberem tal prognóstico: O tempo de reinados rasos e rasteiros no Reino das Onças Pretas estava garantido entre guerras e festas por séculos e séculos.

A Corte dizia amém (e o curral também).



"céu para as aves, terra para os répteis e animação para os outros animais".