quarta-feira, 13 de abril de 2016

A porra e o porre: sobre o REUNI e palavrões (05 de abril de 2016)

"Oh senhor cidadão,
eu quero saber, eu quero saber
com quantos quilos de medo,
com quantos quilos de medo
se faz uma tradição?" Tom Zé

Se há uma boa ocasião para fazer uso de um sonoro palavrão é quando você é surpreendido. Como um sujeito que não tem medo de um bom debate sei que faço muita gente pecar, ora dizendo, ora pensando palavrões. No entanto, há momentos onde a polêmica não nasce de nossas mãos, mas caem no nosso colo. Pois a experiência com elas já demonstrou como evitar aquelas que são desnecessárias e nada constroem.

Certa vez, Millor Fernandes bem disse do poder libertador do “foda-se”. Não posso afirmar se esse poder é realmente universal, imagino que não. Mas tenho que confessar que sou adepto do palavrão como terapia e que vale a pena. Quem nunca o utilizou? Afinal, há certas expressões (e somente elas) que de fato são capazes de conceder-nos a real amplitude das coisas. Nunca uma topada onde colidimos o dedo mindinho na quina de uma porta poderá ser manifestada com “macacos me mordam” como nos sugere à dublagem dos filmes.

Sendo funcional, mas não universal, o palavrão também precisa ter hora e lugar e quando posto de modo que cause interpretações dúbias, quem o expressa haverá de lançar mão das desculpas para conter a coerção social perante o ato. Se ao invés de “Para Questão Judaica” o jovem Marx tivesse escrito “Para a questão do palavrão” certamente diria que dizê-lo fazia parte de um ganho menor, no âmbito da emancipação política, afinal, o mesmo poderia ser em certas quadras algo que expressasse o avanço democrático, no entanto, para aqueles que buscam a emancipação humana, haveria a necessidade de buscar desvendar quais os reais palavrões que nos atacam cotidianamente, sendo aqueles primeiros desnecessários ou irrelevantes como instrumentos.

Ontem, ao chegar à universidade, fui surpreendido com o cartaz para uma atividade que fui convidado no final de semana. Tratava-se de uma Roda de Conversa sobre o REUNI, a ser realizada hoje no Centro Acadêmico de Serviço Social. Sobre a temática e lugar nada de estranho, pois o movimento estudantil de nossa categoria sempre esteve na linha de frente desses assuntos. O elemento extraordinário estava no caráter jocoso da propaganda como escolha "agitativa" por parte das/dos discentes ao perguntarem no cartaz “REUNI, que p*rra é essa?”.

Pois bem, lá estava o meu nome, dessa forma, despojada, ainda que com o asterisco amenizador. Não sendo um moralista, mas percebendo a infelicidade da peça publicitária, me peguei sem saber o motivo de não está lá “Roda de Conversa sobre o REUNI” como me chegou, mas conhecendo também as boas intenções da militância estudantil e os tropeços metodológicos, já imaginei os porquês. Sabendo que poderia haver interpretações diversas daquilo, precisava dialogar com as/os discentes sobre o fato de que por ser debatedor e desconhecer o mote dado pelo MESS isso demonstrava um grande erro do movimento. Afinal, o nome da mesa tem que ser dialogado com quem vai facilitar, sob pena de discordâncias teóricas e metodológicas não ficarem apenas para o espaço em si. Foi um erro, mas o movimento estudantil também vive deles, é do caráter transitório e da ousadia própria de sua natureza social, ora acerta, ora não. Buscando um formato que mobilizasse mais gente e causasse um debate anterior, a aposta foi “descontrair” e ela veio sem peso e medida. Mas o erro metodológico não exclui o caráter das críticas hegemônicas e que demonstram o erro maior, no plano tático.

O alvoroço com a agitação do movimento estudantil fez com que muitos daqueles que problematizaram o teor pejorativo do “porra” revelasse uma preocupação maior com a expressão do que com o REUNI em si. Nesse sentido, não foi o caráter moral da expressão o erro. Mais do que errar no tom, as/os militantes aprenderam nesse caso que, além de não mudar a temática de uma mesa de supetão, é necessário pensar a forma como um elemento que exige bastante cuidado, sob pena daqueles que discordam do conteúdo focarem somente nisso para não discutir o essencial. Certamente muita gente que não gosta de palavrões achou desnecessário o cartaz e tinha razão. No entanto, a crítica ao “porra” feita por muitos outros era curiosamente inversamente proporcional às (não) críticas que os mesmo tinham ou tem ao REUNI, ou ao ENADE, ou ao PROUNI, etc. Além daqueles outros que veem sempre nesses desencontros a oportunidade de expressar o incomodo que cultivam perante a articulação entre militantes docentes com o movimento estudantil. Nesse sentido, a expressão deu mote para tentarem obscurecer o real objetivo da discussão, isso sim um erro grave.

Mas é preciso que se diga: se o “porra” foi um erro, se o cartaz foi colocado de modo errado, foi sim bastante acertado e oportuno o debate. Demonstrou a necessidade de fazê-lo mais e mais. De desvendarmos aqueles outros palavrões enormes que assaltam a universidade como a “precarização”, a “terceirização”, a “privatização”. Se a expressão chula deu oportunidade para um polemismo aparecer escondendo a importância dessa reflexão (que não é nada anacrônica), a atividade em si reacendeu o caráter fundamental que precisa ser reavivado no ambiente acadêmico. Esse acerto do movimento estudantil do serviço social foi fundamental.

De fato o REUNI não é uma porra, seria pejorativo e intelectualmente desonesto também dialogar desse modo com aqueles que o defenderam. Os argumentos críticos estão em nosso cotidiano não deixando que seja necessário adjetivar de modo tão deselegante. No máximo, o REUNI foi um porre. Um péssimo porre. Daqueles que quando você está tomando muita gente diz que é uma maravilha, que aquela bebida é de qualidade, enquanto outros afirmam que após a farra as consequências serão absurdas. E de repente está lá você numa ressaca maldita, vomitando, todo se tremendo, pensando mil palavrões e se perguntando por que fez aquilo. O porre do REUNI deixou a ressaca atual para a universidade viver e ela durará bastante.

O “porra” do alunado era menos um adjetivo que conceituava como um rebaixamento da temática e mais algo que queria expressar desconhecimento. Essa geração não conheceu esse debate, só pegou as consequências do mesmo. É uma geração que expressa, de modo atrapalhado, talvez, sua estranheza de como a expansão precarizada pode iludir tanto, com o fato de uma política voltada para o superficial ter sido tão elogiada, de como o exclusivismo do pensamento no acesso e não na permanência pode se esgotar assim, não conseguindo compreender onde havia um discurso consolador esperando rios de leite e mel nos campos celestes da academia sob bases tão frígidas. A estranheza advém de perceber o REUNI como um dos tentáculos de uma contrarreforma universitária ampla e complexa que se expressou não só nele, mas desde o “Universidade Nova”, na lei de inovação tecnológica, no SINAES, no PROUNI, no desmantelamento da carreira docente, na UAB, no PROIFES, no produtivismo da CAPES e CNPq, etc.

Entre o equívoco na linguagem do cartaz como erro tático, entre o equívoco metodológico de não consultarem o convidado sobre isso, entre os atropelos comuns buscando o acerto no debate, o caráter pedagógico me permite ir lá dialogar sobre a temática e colaborar para acertar as resistências coletivas dos diversos sujeitos que compõem a comunidade acadêmica, pois o presente e futuro nos reservam a necessidade de muito fôlego. Difícil mesmo é perdoar o erro de quem vendeu o REUNI como uma palavrinha, quando na verdade ele era um enorme palavrão.

Que venham novos debates, que deixemos os palavrões para as topadas nas quinas das portas e o façamos sem perder a ternura, por que em tempos em que mais do que falarmos palavrões vivemos palavrões “ a gente vai se amando que, também, sem um carinho ninguém segura esse rojão” (Chico Buarque).