terça-feira, 4 de novembro de 2014

Não alimente o lobo

Diante das esparrelas neoconservadoras muito tem sido comentado sobre o protagonismo das (sub)celebridades como intelectuais orgânicos do irracionalismo. Nesse processo, a "rebeldia sem causa" de alguns roqueiros dos anos 80 é encarada com perplexidade e os contra-argumentos são postos com análises de mera ausência de inteligência. Não é isso.

Dizer, por exemplo, que Lobão é burro não correto. Ele é inteligente, criativo, talentoso. Talento não escolhe caráter, competência não brota por adesão política. A questão atual é outra.

Lobão já fez muita música boa, já proferiu palestras interessantíssimas nos anos noventa, já bradou muito pertinentemente sobre coisas diversas. Bradar, gritar, uivar virou o alimento dele e é aí que se encontra a questão. Para Lobão uivar é o que importa. Por trás de boas letras agressivas, um niilismo vulgar, um anarquismo vulgar, uma rebeldia desmedida e sem direção, há uma persona construída que sempre quis questionar supostos deuses... Por isso uivava ferozmente contra a bossa nova, João Gilberto, Caetano, o mainstream, etc. Por isso saltava de boas sacadas até frases debochadas, infelizes e sem nenhum critério. Por isso ia desde ao ataque criativo, corajoso e efetivo contra as gravadoras e toda a indústria cultural até a condescendência com as mesmas após provar que estava certo.

Lobão virou um personagem de si mesmo. Deixou de produzir música, passou a uivar somente. E sua metralhadora virou para Lula, o que ele deve julgar ser o suposto deus da vez, talvez o maior, para ele. Não é nada pessoal, nem sei se ele acredita em tudo que diz, talvez sim, talvez engane a si mesmo. Como não há critério, como não há lógica e como o caminho de mais adesão para esse uivo atual é a ignorância, o fascismo, a reprodução da herança da Casa Grande, Lobão passou a aderir à ditadura, a desdizer tudo que disse. Sua crítica não é à reprodução das mesmas contradições que o governo petista manteve, mas um discurso de pura e simplesmente fazer o coro com os reacionários, de repetir bravatas sobre um comunismo que nunca vai existir pelas mãos do PT.

Lobão virou somente uivo de contradições e incoerências. Afoga-se em frases tolas, alimenta-se de sua própria amargura e do eco que seu discurso ignorante pode ter. Não produz mais nada de relevante, não realiza nada de construtivo e caminha para o ostracismo. No fim, Lobão só quer ser notícia por ser liderança de um movimento patético, da luta do “sujo x mal lavado” que se consolida na política nacional. Lobão não é burro como muitos dizem, pode ser tolo, mas burro não.

Quem tem medo de Lobão? Quem é Lobão atualmente? Parem de falar sobre ele. Eu pararei aqui. Parem de compartilhar suas asneiras e parem de pedir para ele ir embora. Ele não vai, não iria mesmo e se fosse não resolveria o problema, pois ele continuaria a falar suas bobagens e vocês continuariam a respondê-lo, a compartilha-lo e a alimentá-lo nessa bad trip do seu fim de carreira: uma ilusória saga de um Dom Quixote que anda para trás, de um lobo que uiva mas não morde, de alguém que já tentou bater tanto em todo mundo que só atinge a si mesmo. Se esse personagem caricato ainda tem alguma relevância e aparenta qualquer seriedade, a culpa é mais nossa do que da sua própria insensatez.