segunda-feira, 26 de maio de 2014

Dói

Na verdade, ignoro. Sob o silêncio inquietante resguardo meus medos, recolho os segredos quando finjo que não vejo aquele ser atrevessar a porta fechada. Ignoro, fito mais uma página do livro, tomo um gole do chá mate e imagino que essa sala fria é na verdade outra sala fria, que lá no meu quarto vazio há uma tv ligada enquanto meus pais dormem, que no cômodo do lado minha companheira sussurra algo de seus sonhos, que a qualquer momento eu vou me irritar com as baladas do relógio da igreja e me assustar com um vôo de uma coruja por cima da casa. Ignoro a verdade.

A sirene do vigia toca na rua. O barulho teima em reforçar a fantasia. Suspiro, tomo mais um gole do chá e esqueço aquele livro. Abro o editor de texto no computador com a intenção de continuar driblando aqueles olhos, aquele olhar a me atirar trancendências do vácuo, aquele corpo transparente que baila o pretérito e sussurra miragem, reflexo vão que preciso apreender, descrever ainda que procure ignorar. A quimera sorri, massageia minhas costas, massacra meu ego, enquanto tento traduzi-la por não ser capaz de negá-la.

Na tela branca uma barra pisca sem parar, como quem pede para seguir em frente, como quem insiste numa ação, como exigência tenaz para a escrita. Penso, recordo, tudo em mim são recortes. Envolvo-me novamente com a angústia e agora posso notar o ser que acaricia meu peito, não consigo hesitar.

Há um monstro aqui. Ele se alimenta de vazio, em suas veias corre o passado, seus olhos são da cor da lembrança e há alegria por debaixo de seus pés flutuantes. O ser toca meu peito com sua mão delicada e cruel, sua pele tem poesia, sua face tem desejo, ainda que mais pareça dor.

Tento escrever. Não sei mais, não sei bem se realmente um monstro ou anjo, uma miragem ou um reflexo, não sei se aquilo que atravessou a porta, bailou pela sala, me encarou e forçou a não mais ignorar, não sei se sou eu, são os outros ou não é ninguém. O silêncio grita. Em verso e prosa muitos já buscaram traduzi-lo. Sua beleza é incontestável e sua voz tem gosto, é agridoce. 

O tempo continua a se estender e a tela permanece ao seu modo, branca, com sua barra acendendo e apagando, exigindo as letras do teclado. A sensação aumenta em meu peito, aquela sensação de outro lugar, de outro momento, de outros. Ela aumenta ao passo que aquele anjo, monstro, miragem passeia ao meu redor. Procuro descreve-lo, procuro escrever, nada sai, quase nada sai.
Por horas e horas apenas uma frase pinta o quadro branco virtual onde ignoro a verdade. Apenas uma frase: "a madrugada dói".