segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Qual é o seu problema?


Patife! – Me engana a dublagem
E eu retruco em silêncio.
Com um palavrão verdadeiro
Como quem grita por dentro
Como a raiva de Skylab
Como pateticamente sentir raiva de Skylab
Ou do mundo das dores
Onde no fim vem os créditos
 E os débitos dos versos
E dos roteiros de uma vida
Que eu nunca escrevi

sexta-feira, 31 de julho de 2015

A luta.

São uma e meia da madrugada. Deve haver uma boa frase, dessas de facebook, que resuma bem a surra que estou levando. Desde onze da noite, a cada meia hora, entro em um novo round contra essa maldita companheira. Fecho os olhos e mil coisas enchem minha cabeça de porradas, cruzados de sonhos para cá, jab´s de preocupações para lá, fortes chutes de devaneios quaisquer e sequências de socos certeiros de certeza de que estarei um caco na hora que eu deveria acordar.

E é assim que funciona: Vou apanhando, apanhando e quando estou quase sendo nocauteado, apelo para o gongo, ligo a tv ou vejo um vídeo no youtube e ganho cinco minutos de distração. Depois desligo, me viro na cama, me reviro logo após e lá vamos nós novamente.

Os ponteiros ultrapassam minha consciência. Penso que deveria ter lavado aquela pilha de pratos, passado as roupas, feito a mala, lido aqueles livros que estão na mesa... teria dado tempo. Penso que poderia ser um desses vlogger´s que estão na moda, que ganham uma grana falando trivialidades na internet, ou que talvez o melhor teria sido ir tomar uma cerveja e pelo menos ter vencido parcialmente a tosse seca intermitente que me ataca a garganta, tempero peculiar dessa batalha noturna.

Penso em levantar. A dura ironia é que, ao contrário do boxe, nessa analogia infeliz, ir à lona seria a minha vitória, ao passo que ficar de pé e ir aos afazeres urgentes e devidamente procrastinados, demonstraria a evidente derrota ante à minha adversária irremediável.

E esse barulho lá fora? Será o caminhão do lixo? Está atrasado hoje. Uma e quarenta e quatro. Talvez eu fale demais durante o dia, talvez eu reclame muito de tudo, talvez eu cobre muito do mundo e de mim mesmo. Hora da severa avaliação sob o som do caminhão do lixo. Momento tradicional. É provável que eu esteja um caco amanhã. Olheiras enormes, de mau humor, tossindo e com uma pilha de pratos para lavar, com roupas para passar e uma mala por fazer. Se eu fosse um desses caras que fazem sucesso com as amenidades na internet talvez tivesse tudo isso ainda, mas poderia ganhar dinheiro com essas lamúrias.

Se eu fumasse teria acabado meu sexto cigarro agora. Eu bem que poderia ser um desses humoristas de stand up comedy e reclamar disso tudo com o microfone na mão num desses barzinhos chiques. Poderia fazer piada com a proposta do ministro da educação para as universidades, poderia publicizar aquela piada que pensei sobre o fato de que ser professor é ter pelo menos trinta e tantas pessoas  torcendo para que você adoeça num dia de prova. Ou ainda partir para o golpe baixo dos trocadilhos e falar do currículo “que latte mas não morde” e dessa sanha maluca produtivista e a exigência do talento de escritor para exercer a dádiva da invenção com aqueles relatórios intermináveis e repetitivos e da prática do pior neologismo da face da terra: artigar. Seria legal falar sobre essa ficção científica que alimenta o insaciável monstrinho que nos capta o espírito. Acho que ninguém veria graça.

Pois é, tudo não passa de mais golpes nessa tempestade de pensamentos. Falando em ser escritor, bem que eu poderia ser um de verdade e transformar esse lenga-lenga numa crônica com alguma qualidade. Ao invés disso estou perdendo a luta contra minha inimiga íntima. Levando porrada do invisível, sendo enxotado por um caleidoscópio de auto-cobrança, ansiedade e falta de foco.

Uma hora e cinquenta minutos cravados no relógio . Preciso achar uma saída. Vou achar e quando encontrá-la escreverei sobre ela. Farei um livro de autoajuda daqueles de vitrine de livraria e ficarei rico com essa pancadaria. Ou melhor, vou recorrer para esses contos de bruxas, vampiros e fadas ou ir para frases de efeito que possam ser recortadas e colocadas nos giff´s das correntes de e-mail´s ou nas fotografias compartilhadas nas redes sociais. Um escritor de 140 caracteres!

Ser um bom frasista poderia ajudar a transformar essa tortura em algo produtivo. Eu poderia escrever sobre política, mas eu seria assassinado pelas torcidas organizadas das eleições, eu poderia escrever sobre futebol, mas os beatos dos clubes não me deixariam impune. Eu poderia ainda profanar alguma religião, mas algum deputado certamente iria me processar. Preciso de uma boa frase, mas  assim fica difícil. Triste de um povo que trata política como futebol, futebol como religião e religião como política.

Duas horas da madrugada. Necessito de uma frase já. Deve haver uma boa frase, dessas de facebook, que resuma bem a surra que estou levando. O relógio denuncia meu estado deplorável, a escuridão tonifica meu desespero e o cursor piscando insistentemente na tela do editor de texto desse notebook evidencia o fracasso dessa última estratégia.

Preciso de uma frase. O despertador vai tocar em quatro horas  e não existe felicidade as seis horas da manhã.

Sétimo round!

quarta-feira, 29 de julho de 2015

O corpo

Dias e dias bem vividos, noites e noites mal dormidas, sol e lua testemunhas da vida e da morte nas ruas de nossas lutas. Aí o tempo passa, o corpo cobra e é preciso lembrar que atenuar também é humano. É necessário, a fina força, recordar a beleza de fechar os olhos.

Lá fora o tempo não espera, mas não será a esperança que irá me mover de novo. O corpo cobra, mas o espírito exige. E a exigência faz todo o sentido quando a direção se assevera queimando o combustível da indignação.

 Por dias muito mais bem vividos, com noites muito mais bem dormidas.


“Me poupa do vexame de morrer tão moço, muitas coisas ainda quero olhar”.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

A GRÉCIA E OS LIMITES DA ESTRATÉGIA DEMOCRÁTICO-POPULAR

http://pcb.org.br/portal2/8873

Os olhos voltados para Grécia não são por acaso, as análises divergentes também não. Há ali expressões mais evidentes da crise do capital, há também as manifestações mais explícitas das estratégias e táticas diante dos embates apresentados. Nesse sentido, o regozijo de certa esquerda do lado de cá com a política nos moldes hegemônicos, sob a faceta supostamente progressista e combativa do Syriza representa o último fôlego da estratégia democrática-popular e seus limites reformistas.
Se em nossas terras a crítica ao que se transformou essa estratégia fica, por vezes, no superficial moralismo e eticismo, referendando os erros dos mergulhos na jogatina da política formal, da disputa do estado burguês e do rebaixamento de pautas, a experiência grega surge para esses grupos como algo que poderia demonstrar que o erro não seria de concepção, mas de como se colocou em prática. Ledo engano, se é que se pode chamar isso de engano. Os olhos voltados para Grécia, nessa perspectiva, representa a centelha do reformismo tomando mais um gole de superficialidade para capitalizar seu protagonismo como suposta alternativa na complexa conjuntura atual.
Mas aqui também há crítica pela esquerda aos rumos da política grega. E o alerta e a crítica sobre os limites da política do Syriza pelos comunistas de cá nunca foi somente porque tem um partido com uma foice, um martelo e a cor vermelha em sua bandeira do lado de lá. O internacionalismo não se faz por uma adesão mecânica e/ou religiosa. Tem muito partido comunista mundo a fora que degenerou e está bem longe da reconstrução de um projeto revolucionário. A análise é de estratégia e não um proselitismo barato.
Felizmente o KKE não está nesse bolo reformista e demonstrou nos últimos acontecimentos o que muitos de nós já colocávamos em reflexões sobre nossa conjuntura: em tempo de alto desenvolvimento das forças produtivas, de mundialização e crise estrutural do capital, da explicitação da função do estado burguês, em tempos de barbárie não há nenhuma outra estratégia capaz de enfrentamento real que não seja a socialista.
Quando as contradições explodem como um vulcão, quando o povo trabalhador se percebe nos limites da superexploração, quando as pessoas não mais aguentam as desculpas, os arranjos, os acordos da muleta estatal ante os detratores do capital produtivo e financeiro, há dois caminhos para os coletivos de trabalhadoras e trabalhadores organizados politicamente: um é fomentar táticas de uma ruptura real com o âmago dessas contradições; o outro é arrefecer essa direção, buscar o mal menor, o supostamente possível, aquilo que já se coloca em frente aos nossos olhos. Um é o caminho da ruptura, o outro, da afirmação.
Não há meio termo. Não há ”não” para a austeridade que seja um sim para uma suposta “austeridade humanizada” ou a conta gotas. Não há esperança no campo da mera retórica, não existe trincheira onde não se busca lutar. Enquanto a crítica for moral, enquanto a crítica for contra um “tipo” de capital, enquanto a crítica for contra a forma de gestão, enquanto a luta for por “mais” direitos e não por todos os direitos estaremos sempre lamentando o aparente acaso de nossas derrotas. Seja na Grécia, seja aqui, quem sucumbe ao reformismo terá perenemente o enorme esforço de sempre buscar uma nova desculpa, uma nova miragem, uma nova roupa para seu rebaixamento do horizonte. O capital agradece.​
*Wescley Pinheiro é ​professor e militante do PCB em Mato Grosso

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Avançando

A caravana passa
Frente aqueles que refutam
Enquanto uns latem

Outros lutam

segunda-feira, 6 de abril de 2015

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(Essa não é uma historia de amor)

Maria (per)seguia João
E João irritava Maria
Sem saber
Sem saber que ela existia

E Maria quase morria
Com as falas de João
Assim a vida corria
Maria na aflição
Enquanto João sorria
Sem saber
Sem saber que ela existia

Triste vida de Maria
Correndo na contramão
Fofocando de João
Procurando a alegria
Plantando destruição
Enquanto João vivia
Sem saber
Sem saber que ela existia

E então num belo dia
João descobriu Maria
E tratou com ironia
Toda aquela afobação
Pois quando a pobre Maria
Berrava na covardia
João em sua canção
Vivia, sorria e dizia

“Sai dessa
Sai dessa, Maria”

quinta-feira, 5 de março de 2015

Sobre o reconhecimento do trabalho docente (ou Para além do "O que é um professor universitário?")


A difícil conjuntura que vivemos faz com que caiamos em diversas armadilhas  para lidarmos com os desafios de nossa vida cotidiana. No espaço das universidades, o profundo desrespeito dos governos brasileiros com a categoria docente coloca em impasses que enfrentamos de formas bastante distintas. Diante do descaso e do desrespeito há quem busque saídas individuais, alguns clamam resiliência, outros, resignação. Suspeito que precisamos ir mais além.

Esses dias li um texto* muito interessante sobre o que de fato é/seria/deveria ser um professor universitário. O texto do professor Marco de Melo, da UFMG, é um bom ponto de partida e demonstra uma série de elementos do quanto o trabalho docente e a universidade sofrem com a desvalorização e desconhecimento de sua importância no Brasil. O autor derrama uma gama de informações e argumentos da especificidade da docência nas universidades internacionais, trazendo aspectos relevantes sobre a importância da pesquisa, o respeito ao esforço intelectual inerente a essa atividade e o vácuo cada vez maior nosso país.

O texto em questão releva elementos que de fato devem nos preocupar, problemas que nós docentes passamos e que precisamos fazer o enfrentamento. Mas ao lê-lo sinto a necessidade de provocar e falar sobre outros incômodos que envolvem esse “título de professor universitário” e aquilo que muitos almejam dele. Digo isso, pois acredito que exista muito mais para ser revelado a fim de compreender a essência da problemática que aflige o trabalho docente e a universidade brasileira.

O texto expõe importantes considerações sobre os desafios que a lógica enviesada e superficial nos coloca cotidianamente nos espaços de trabalho cada vez mais precarizados, aprofundando a banalização da atividade docente, com a reprodução de uma cultura requentada de subestimação da pesquisa, do ensino e da extensão. Essas são visões historicamente construídas no desrespeito aos profissionais e demais sujeitos que fazem parte do processo educativo, mas também na ignorância funcional sobre o caráter da universidade.

Tudo isso é somado ao presente e oportuno caráter mercadológico e tecnicista da educação. O trato do docente como mero instrumento da mercadoria educação, o aulismo como modus operanti, a pesquisa sob os ditames das “parcerias” com o mercado, a precarização da carreira e das condições de trabalho e a multiplicação de uma concepção de formação profissional distante da formação humana fazem parte da retroalimentação desse triste e desgastante jogo de desvalorização.

No entanto, é preciso ainda considerar outros elementos. Do lado cá há também muito a se avançar em concepções e práticas mais profundas. Ainda que concorde com os problemas colocados sobre como o professor universitário é visto na sociedade brasileira, não posso me furtar de refletir também sobre esse “título” de professor universitário almejado por muitos de nós dessa categoria. Pois dentro dessa cultura que desvaloriza a atividade docente, o outro lado da mesma moeda revela uma histórica reprodução do elitismo, do pedantismo e dos jogos de poder que o saber universitário permite em seus espaços.

O bichinho da vaidade, o espectro da distância teoria-prática, o abismo entre forma e conteúdo e as vendas nos olhos frente aos interesses de classe rondam os gabinetes e as salas de aula de nossas cátedras e desafiam cotidianamente a materialização de uma universidade verdadeiramente popular, pública, estatal, gratuita, democrática, contra a exploração e contra as opressões, ou seja, com a construção do conhecimento que mire a emancipação humana.
É inegável a dificuldade de nos reconhecermos dentro da gama de seres humanos que vendem sua força de trabalho, daqueles que sofrem com a precarização e a exploração e que, por isso, tanto nossa atividade profissional, como a urgente e necessária organização política deve ser fortalecida para desvendar os limites de onde trabalhamos e as possibilidades que devemos construir. Envoltos nos contos que as camadas médias da sociabilidade de classes nos permitem nos acolhemos no mito da temperança, da imparcialidade e do individualismo.

Há boa vontade, focos de resistência, coletivos organizados, iniciativas importantes e gente que compreende esses desafios. Mas há também muita contradição e incoerência no cotidiano de nossas batalhas, dificultando desde a aglutinação de aliados até mesmo a necessária referência que as/os discentes procuram nas brechas de um belo discurso do professor que, eventualmente, pode permanecer absolutamente descolado de suas atitudes dentro e fora da sala de aula.

O vácuo entre a mera abstração de um projeto profissional ou de elucubrações teóricas aliadas às ações que reivindicam o autoritarismo, a reprodução do poder pelos títulos acadêmicos, as pesquisas, ora descolocadas dos interesses concretos dos sujeitos, ora simplesmente apresentando e representando a superficialidade tecnicista hegemônica da avaliação da aparência, tudo isso reflete mais do que elementos isolados dos nossos dramas cotidianos.

Obviamente, nesse emaranhado de questões, os elementos subjetivos também se fazem presentes. As balizas que nos saltam aos olhos fazem com que muitos se peguem no pragmatismo, no preconceito intelectual e na frustração com sua prática profissional. Isso permite a multiplicação de sensações e análises que individualizam causas e consequências, seja na própria culpabilização, seja no dedo em riste para seus pares e/ou para as/os discentes.

As cisões encontradas em sala de aula diante dessa lógica historicamente reproduzida e consubstanciada com o desmantelamento da educação básica (parte desse mesmo processo), por vezes, são “enfrentadas” ou com voluntarismo condescendente, com o rebaixamento da qualidade, ou com o suposto outro polo de personalismo e culpabilização dos indivíduos por suas limitações. É aí teremos os docentes bonzinhos e os docentes tiranos como partes aparentes de uma diferença que só se estabelece na lamentável lógica de unidade.

Corremos atrás do próprio rabo, jogatinas políticas ou negação da política se estabelecem como únicas saídas: produtivismo ou desinteresse, pedantismo ou superficialidade, tecnicismo ou filosofismos, irresponsabilidade ou sacerdócio. Falsas polêmicas, falsas alternativas que se materializam em nossos espaços e escondem as verdadeiras disputas de projetos de universidade. 
Quando menos percebemos somos o professor-pesquisador-empreendedor que detesta a sala de aula e encontra seu escape nas parcerias com as empresas privadas; o professor “aulista” que tem a pesquisa e a extensão como obstáculos; o professor-autoridade que quer, como pressuposto, ser adorado pelos seus títulos e produções; o bem intencionado professor-tecnicista que acha que a universidade é ensino-pesquisa-extensão, mas que esquece do necessário quarto pilar, a organização política; ou ainda o professor frustrado com a reprodução dessa cultura, que está insatisfeito (e com justiça) por suas limitadas condições de trabalho, mas que não se organiza coletivamente e desconta seus dramas nos sujeitos que estão em seu cotidiano.

E de repente lá estamos nós falando de horizontalidade, ética e respeito e mobilizando os alunos pelo medo em nossas salas de aula, ou utilizando argumentos moralistas para defender nossas posições, fazendo o uso de discursos rasteiros e sendo condescendentes com os ataques perenes que sofremos no cotidiano universitário. De repente estamos falando de solidariedade, de outro modelo de conhecimento e nos julgando por quem tem mais publicações, por quem “doa seu sangue” pela pesquisa mesmo em “condições adversas”. De repente estamos falando de classes sociais e da precarização do trabalho, da função social da universidade e sem nos organizamos nos nossos sindicatos, fazermos nossa luta, sermos capazes do exercício pedagógico de demonstrar capacidade de reação e proposição diante do desmantelamento da educação superior. De repente estamos falando de educação e reproduzindo o academicismo.

Há desafios enormes dentro e fora dos muros da academia. Há batalhas do plano cotidiano que estão estreitamente ligadas à nossa concepção e para onde queremos ir. É urgente o fortalecimento da organização política por outro modelo de universidade. Nesse sentido, a luta por melhores condições de trabalho e pela nossa valorização na sociedade perpassa por um mesmo caminho. Esse caminho é muito maior do que uma reflexão sobre como somos vistos.

Dessa forma, reivindicar o respeito ao título “professor universitário” é tão importante e necessário quanto reivindicar esse mesmo respeito ao estudante, ao técnico administrativo, assim como o respeito para o mecânico, para o agricultor, etc. Para além de exigirmos e buscarmos o respeito e o conhecimento individual é preciso que nos reconheçamos e nos respeitemos enquanto trabalhadores. Para além de nos embrenharmos na lama das regras da meritocracia e do produtivismo, a fim de termos a excelência que nos exigem aqueles que ditam os modelos de universidade, é necessário que tenhamos força para exigirmos condições para isso e para muito mais.
É preciso cotidianamente lutar e construir uma concepção outra de universidade. Não é o padrão de pesquisa do primeiro mundo que devamos almejar. Ele é muito pequeno e estreito. É o padrão de uma universidade popular, laica, antirracista, anti-homofóbica, anti-machista, pública, estatal, socialmente referenciada na classe trabalhadora e plenamente coerente, com os sujeitos que a constroem pautados numa concepção profunda e de rigorosa vigilância por uma educação para a emancipação humana.


É preciso construir conhecimento e materializar ações que determinem em sua essência que o/a trabalhador/a, que todo/a trabalhador/a, seja plenamente respeitado/a, que isso se construa quebrando os muros da universidade, com todas/os podendo entrar e sair dela, que nós docentes façamos também esses caminhos para as ruas, na luta e em nossa atividade profissional e que quebremos também nossos muros individuais e possamos enfrentar sempre o bichinho da vaidade, o espectro da distância teoria-prática, o abismo entre forma e conteúdo e as vendas nos olhos que escondem os interesses de classe em nossas atitudes e nesse projeto de precarização e privatização das universidades brasileiras, que todos nós sentimos na pele, mas que muitos ousam esconder, seja por estarem assoberbados pela lógica produtivista, seja por pura consciência de assumir um projeto de poder que referenda o fim dos direitos dos trabalhadores.

*MELLO, M. O que é um professor universitário. https://marcoarmello.wordpress.com/2015/02/12/professor/

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Manhã

Escondo-me do medo
Do supersticioso receio do profeta
Daquela ponta do lápis certeira e reta
Que me faz correr e percorrer o enredo
Que me bota frente a frente com o destino
Que revela o pavor de um menino
No escuro que revive o seu temor
Na sua mente que fermenta esse topor
Onde corro e me escondo desse medo

No espelho corro, socorro e vejo
Fujo de mim logo cedo

terça-feira, 25 de novembro de 2014

"Põe a culpa na Abreu, antes ela do que eu"



Dias 25 de novembro. Fim do mês, faltando trinta dias para o natal do ano 2014. Que fique registrada a data que escrevi.

E estou dizendo isso pois sei que a celeuma da emblemática indicação da nefasta Kátia Abreu para compor o grupo dos ministros do próximo governo Dilma ainda vai gerar outro viés no futuro, algo com um teor bem diferente do que agora paira no ar como silêncio envergonhado (condescendente)  dos governistas e do voto rebaixado. Estou falando da estratégia do bode na sala.

Todo mundo deve conhecer essa história: O apartamento é minúsculo, a família passa o dia reclamando de falta de espaço, então o pai vai lá e coloca um bode na sala amarrado no sofá. Dias depois o caos está instalado: barulho, mau cheiro, fezes. Todos se revoltam com a presença do bode, há um completo desespero. Após muitos protestos, o engenhoso pai resolve aceitar as reivindicações, retira o bode da sala e todo mundo fica feliz, esquecendo o quão era ruim viver no pequeno apartamento.

Vejo com muita curiosidade a surpresa das pessoas com a indicação da Kátia Abreu. Não estou contando com os iludidos, mas com os soldados da retórica, para esses o problema maior não é o rumo das coisas, mas o nome da vez ser conhecido e reconhecido. A centralidade da questão para esse povo é o quão é simbólica a indicação de Abreu e não a política alinhada que já vem sendo aprofundada por anos e anos contra o povo do campo em favor do lucro desmedido, do desmatamento, da superexploração do trabalho.

 A indicação de Kátia é de fato um problema, mas apenas a ponta dele. Na verdade, pouco importaria se fosse fulano ou sicrano do segundo escalão do agronegócio, pouco importa se serão os jagunços ou os senhores da casa grande que colocarão a mão na massa, quem vem mandando e vai continuar fazendo isso serão os patrões. E nada na última eleição sugeriu que seria diferente. Nada mesmo. E não adianta colocar de modo fatalista a culpa na forma política atual como se não existissem opções de organização, luta, cobrança e pressão ante os interesses de classe que esse e todas as outras indicações ministeriais representam. Não adiante perpetuar o reformismo, naturalizando o possibilismo, o aliancismo e o proselitismo que se reproduz por aqui com o modus operanti do governo de "colisão".

Dito isso, afirmo que no dia que dona Kátia e demais nomes nefastos deixarem os ministérios por qualquer razão, não me venham comemorar a saída do bode da sala, assim como fazem quando meia dúzia de militantes conseguem vaiar a rede globo ao vivo ou quando a presidenta da república dança funk ou diz duas ou três palavras mais bonitinhas e se encontra com algum grupo de movimentos ligados ao seu partido. Antes e depois de Kátia ainda virá mais gente do latifúndio, do capital financeiro, do desmatamento e demais donos do poder de outras áreas. E isso não ocorrerá porque é necessário ou imutável, mas porque é a linha desse governo.

A data da profecia do bode está aqui registrada. Dessa forma, quando os "movimentos de pautas ganhas", daqui a alguns meses, saírem da caverna e bradar o "avanço popular", dizendo que terá uma guinada para a esquerda por conta das danças das cadeiras dentro dos carguinhos do governo, nós já saberemos que é só mais uma farsa entre bodes nas salas do planalto e donas e donos de grandes currais. E uma hora essa desculpa não vai colar.

O muda mais de Dilma será o que já vem sendo: a continuação da mudança via e rumo ao conservadorismo. A mea culpa no rebaixamento das expectativas da população, de uma década de vazio em formação política e de mero proselitismo vil na cooptação e bravatas perenes fica só na potência, nunca em ato. A turminha continua e continuará utilizando do "medo do passado" e se tornando cada vez mais parecido com ele. A chamada onda conservadora não acontece só do outro lado da cerca da falsa polarização de nossa política formal, ocorre por dentro do governo, desse governo que dia desses fingiram ser progressista.
 Como disse a presidenta para sua militância: menas, gente, menas.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Diário de supermercado 2: Laticínio ostentação




Adoro queijo. Difícil é ter que decidir entre pagar a conta de luz ou comer alguns pedacinhos durante a semana. No velho-oeste queijo deve ser coisa rara. Não importam as centenas de milhares de cabeça de gado que existam por aqui e suas dezenas de bilhares de litros de leite: comer queijo é sinal de status. A sociedade se divide entre os poucos que tomam seu café e podem luxar sua fatia de cheddar no pão e aqueles da absoluta maioria que sonham com tal regalia. Esse abismo do consumo é cada vez maior.

Chego ao supermercado e salto ao constatar o preço novamente.  Eu até já saiba, mas me chocarei sempre. Fico ali encarando a variedade do alimento branco-amarelado, gorduroso e bonito, imagino ele derretendo em meu grill, numa pizza ou ainda numa lasanha... Olho no olho dos cifrões, calculo a perversa equivalência entre o valor daqueles gramas fatiados e um quilo, recordo os saborosos, baratos e caseiros laticínios lá do Vale jaguaribano, trinco os dentes e... é hora do choque de realidade! Vamos lá, é preciso ser pragmático. Paro e já penso qual o dia do mês será o dia da mozzarella e qual o do queijo coalho, momentos especiais, nos outros dias uma colher de requeijão (no máximo). 

Tempos difíceis onde o misto quente é uma iguaria vendida a peso de ouro. Hoje mesmo que acordei inconsequente, fui à padaria e comi um. Ostentação total no melhor estilo classe média assalariada. Saí de lá com a barriga cheia (nem tanto), o bolso vazio e a consciência pesada. Quem pode, pode, pelo menos por enquanto. Se continuar aumentando terei que vender meu rim pra comer uns pãezinhos de queijo da próxima vez. 


domingo, 9 de novembro de 2014

1989

Quando a poeira subiu 
E os tijolos foram ao chão
Foi então decretado o fim da contradição
Mal sabiam 
Caia o muro
A história, não

Diário de supermercado 1: Comprando superpoderes



Percebendo minha inaptidão em manter regularmente uma vida não sedentária, tenho tentado praticar ao menos a redução de danos e modificar boa parte dos alimentos cotidianos. Esse não é um processo fácil e analisando os seus elementos percebo que essa parte do supermercado já me atingia sem eu sequer  nota-la, tudo dependendo da flutuação da moeda-dieta.

A indústria da boa forma é interessante, num dia chá verde cura tudo, no outro esquecem o chá e falam que é a linhaça, depois tudo vem com colágeno, para logo em seguida encontrarem um grão milagroso. É uma linha difícil de acompanhar a moda. Enfim, uma bolsa de valores onde a especulação entre o glúten, a lactose, as fibras e o chá dentox disputam o nervosismo do mercado. 

Nesse emaranhado de possibilidades vamos escolhendo: granola, bom, mas calórico; aveia, ótimo, mas tem glúten, que agora é ruim para todo mundo; iogurte desnatado; melhor, mas lactose agora incha. Tudo bem, sabemos as regras do jogo, o duro é quando a moda do carboidrato de baixo índice glicêmico atinge o seu cotidiano. Quando era só a batata-doce, tudo bem, mas agora a moda é a tapioca! Que desgraça, roubaram a tapioca da minha alimentação barata e não saudável.  Comprar fécula de mandioca virou fit. Maldição, meus amigos, maldição. 

Aliás, fécula de mandioca não! Goma, go-ma! Comida de cearense, comida diária, goma que você molha e peneira em casa e não essa coisa caríssima que já vem molhada, ensacada e que sequer fica resfriada nas prateleiras, quando você abre o pacote fica com um “cheiro de abafado e o calor já faz a coisa toda virar grude. Pois é, a tapioca subiu de status. Pior, o cuscuz também! Nada de tapioca com calabresa e bacon, carne seca com banana. Nada de uma farofa de cuscuz com ovos e muita manteiga. Agora tapioca é almoço, é cara e é servida com coisas verdes, sua farinha de milho, idem. Perdeu, playboy.

Mas ok, vamos lá continuar na prateleira. Vamos olhando, analisando, comprando, se alimentando e se lamentando até que chegamos nela, a rainha do momento, aquela que um saquinho minúsculo que deve conter uns trezentos gramas custa mais ou menos quinze reais. Imagino o que isso queira dizer: "compre essa farinha, fique sem dinheiro e emagreça por não ter como comprar outros alimentos". Não sei, provavelmente estou sendo jocoso e simplista demais, mas preciso deixar meu recado para essa estrela:

Querida Quinoa, não nos conhecemos pessoalmente, você para mim é igual caviar na música do Zeca Pagodinho, não sei suas propriedades, acho que continuarei sem saber, permanecerei apenas me relacionando com suas vizinhas linhaça e aveia, mas pelo seu preço, imagino que alguns grãos deem o poder da imortalidade, você deve ser realmente muito especial. Parabéns pelo valor e curta o tempo de fama, ele é efêmero, pois quando enquanto eu estava na fila do caixa vi uma capa dessas revistas femininas que dizia: “a nova erva, o chá de matcha acelera a queima de gordura em 40%”. Tremei, quinoa, tremei, quando sucumbir, por favor, leve minha goma junto. Oh vontade de comer uma tapioca!

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Não alimente o lobo

Diante das esparrelas neoconservadoras muito tem sido comentado sobre o protagonismo das (sub)celebridades como intelectuais orgânicos do irracionalismo. Nesse processo, a "rebeldia sem causa" de alguns roqueiros dos anos 80 é encarada com perplexidade e os contra-argumentos são postos com análises de mera ausência de inteligência. Não é isso.

Dizer, por exemplo, que Lobão é burro não correto. Ele é inteligente, criativo, talentoso. Talento não escolhe caráter, competência não brota por adesão política. A questão atual é outra.

Lobão já fez muita música boa, já proferiu palestras interessantíssimas nos anos noventa, já bradou muito pertinentemente sobre coisas diversas. Bradar, gritar, uivar virou o alimento dele e é aí que se encontra a questão. Para Lobão uivar é o que importa. Por trás de boas letras agressivas, um niilismo vulgar, um anarquismo vulgar, uma rebeldia desmedida e sem direção, há uma persona construída que sempre quis questionar supostos deuses... Por isso uivava ferozmente contra a bossa nova, João Gilberto, Caetano, o mainstream, etc. Por isso saltava de boas sacadas até frases debochadas, infelizes e sem nenhum critério. Por isso ia desde ao ataque criativo, corajoso e efetivo contra as gravadoras e toda a indústria cultural até a condescendência com as mesmas após provar que estava certo.

Lobão virou um personagem de si mesmo. Deixou de produzir música, passou a uivar somente. E sua metralhadora virou para Lula, o que ele deve julgar ser o suposto deus da vez, talvez o maior, para ele. Não é nada pessoal, nem sei se ele acredita em tudo que diz, talvez sim, talvez engane a si mesmo. Como não há critério, como não há lógica e como o caminho de mais adesão para esse uivo atual é a ignorância, o fascismo, a reprodução da herança da Casa Grande, Lobão passou a aderir à ditadura, a desdizer tudo que disse. Sua crítica não é à reprodução das mesmas contradições que o governo petista manteve, mas um discurso de pura e simplesmente fazer o coro com os reacionários, de repetir bravatas sobre um comunismo que nunca vai existir pelas mãos do PT.

Lobão virou somente uivo de contradições e incoerências. Afoga-se em frases tolas, alimenta-se de sua própria amargura e do eco que seu discurso ignorante pode ter. Não produz mais nada de relevante, não realiza nada de construtivo e caminha para o ostracismo. No fim, Lobão só quer ser notícia por ser liderança de um movimento patético, da luta do “sujo x mal lavado” que se consolida na política nacional. Lobão não é burro como muitos dizem, pode ser tolo, mas burro não.

Quem tem medo de Lobão? Quem é Lobão atualmente? Parem de falar sobre ele. Eu pararei aqui. Parem de compartilhar suas asneiras e parem de pedir para ele ir embora. Ele não vai, não iria mesmo e se fosse não resolveria o problema, pois ele continuaria a falar suas bobagens e vocês continuariam a respondê-lo, a compartilha-lo e a alimentá-lo nessa bad trip do seu fim de carreira: uma ilusória saga de um Dom Quixote que anda para trás, de um lobo que uiva mas não morde, de alguém que já tentou bater tanto em todo mundo que só atinge a si mesmo. Se esse personagem caricato ainda tem alguma relevância e aparenta qualquer seriedade, a culpa é mais nossa do que da sua própria insensatez.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Aposta


Nos jogos de caça-níqueis
Quem ganha sempre é a banca
Por isso entre cara ou coroa
Prefiro o fim da moeda

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O Circo das Eleições: 2° turno e o falso debate político


Respeitável público, no bonde dos iludidos, nas alas das vitórias inglórias e das derrotas tão rasas, quem consegue sustentar mais suas mentiras? As apostas nunca acabam! O blefe também.

Diante de uma ameaça terrível que é uma suposta volta de um governo tucano (toc, toc, toc) o drama se torna o centro da trama eleitoral. Surgem aqueles que se calaram por tanto tempo e se juntam aos cacos e clichês das falas que já se tornaram conhecidas mas que não mais convencem. Esquecendo seus próprios erros, aparece um cinismo pedante que quer responsabilizar quem sempre criticou as incoerências.
Como acredito que o medo, a pressa, o pavor e a comoção são combustíveis da barbárie, me sinto obrigado a parar e refletir sobre isso. Desculpem, mas antes de continuar, antes de dizer o óbvio, antes de reafirmar que o PSDB representa a calamidade política desse país, não há como compactuar com o mero pacto da mediocridade.

Vi um meme aqui no facebook: "votar no PSDB para tirar o PT do poder é como comer merda para parar de comer mc donalds". Concordo com a comparação do PSDB com as fezes, mas a do PT é bastante generosa, pois o tal sanduíche é uma porcaria, mas não chega ao nível desse governo. É preciso combater o PSDB sem fingir que o PT é pelo menos razoável, pois não é.

Aí saltam as cobranças, surgem os discursos inflamados e as denúncias sobre a tragédia tucana. Há muita razão nisso. O que não é crível são os olhos e as cortinas fechadas para o que o PT fez e faz. A angústia dessa falsa polarização é mote desse meu texto. Eu realmente não queria falar do PT agora, vou tentar nem falar nas próximas semanas, até por que, como diz o ditado popular, "um governo do PSDB é ótimo, mas morrer queimado é melhor". Só me permitam desabafar nesse momento. Só me permitam não me calar diante de tanto cinismo.

Eu não queria falar do PT pois no PSDB temos o que é de mais vil, o antro de conservadores, elitistas, oportunistas e tudo mais de ruim. Mas fica difícil quando a síndrome de labirintite político-ideológica de muitos do Partido dos Trabalhadores querem eternizar essa falsa polarização para somente permanecer aprofundando o "seu" social-liberalismo. Fica difícil quando o jogo de palavras se torna cada vez mais esgotado pela própria lógica do governo que em mais de uma década tem como modelo eleitoral se tornar ainda mais parecido com aquilo que o ameaça: "se o agronegócio ameaça nossa eleição, nos pareçamos com eles, se os fundamentalistas religiosos ameaçam nossa eleição nos pareçamos com eles, se os tucanos..." enfim, entenderam, né?

Pois é, eu não queria falar do PT por que acho que quem fala que o PSDB é muito pior AINDA tem razão, mas tem cada vez menos, pois eu só vejo interesse desse partido em buscar diferenciação substancial nas bravatas cotidianas de suas bases e nos períodos eleitorais como o de agora e somente para parte do eleitorado, para a elite o discurso é que "somos além de parecidos, melhores".

Até quando o único argumento será o medo do passado para sermos escravos do presente? Quanto foi feito para o processo de avanço de participação popular, de politização, de edificação de uma contra-hegemonia de esquerda nessa última década para que os militantes de esquerda - que foram caçados nas ruas ou nos ambientes de trabalho por esse governo - tenham mínima confiança de que “daqui pra frente tudo será diferente”? Será que não há ninguém para falar sobre isso além de dizer "o PSDB é pior"? Isso eu já sei.
Acredito que aqueles que farão a opção pelo menos pior tem todo o direito de fazê-la e tem ainda alguns argumentos para isso, mas não aceito o dedo em riste para cima de quem sofreu perseguição e/ou que sempre denunciou que as alianças e as táticas do governismo sempre levariam ao mesmo lugar.

Estão como medo de quem Marina(aquela reacionária!) vai apoiar? Quem foi que a projetou? Por que não acham que tem como acreditar que ela se tornou isso só a partir de 2010, né? Estão com medo da campanha dos fundamentalistas religiosos? Quem afinou diversas vezes para Marcos Feliciano, Malafaia e Cia? Nesse espetáculo tem perguntas que ninguém quer responder. Sabe, eu também não quero o PSDB no poder, nem quero Collor, Calheiros, Ferreira Gomes, Sarney, Kátia Abreu.... Sabe, eu não quero o PSDB e sua política entreguista no poder, nem quero as contra-reformas travestidas de benfeitorias que estão em curso. Sabe, que tal um debate mais politizado, que tal autocrítica, que tal a afirmação de uma divergência real? Parece impossível?

Que tal o PT parar de alimentar os monstros e depois exigir ajuda para acabar com eles? Pedirei algo mais simples, que tal pelo menos a parcela de militantes que está por aí nas bases refletir sobre suas práticas desonestas que atingem aqueles que ousam divergir do governo e do partido? Que tal aproveitar o momento para pensar e não mais beneficiar suas patotas políticas e boicotar quem faz crítica de esquerda nos espaços das categorias profissionais, nos movimentos sociais ou mesmo nos espaços de trabalho? Ou vão dizer que ninguém conhece pelo menos um caso desses?

Não seria de bom tom se pudéssemos dizer que além do PSDB ser mais corrupto, mais elitista, mais privatista ele também tem mais gente escrota que se identifica com o partido e busca minar qualquer pensamento diferente nos espaços que tem algum poder? Nesse quesito, tucanos e petistas já estão em empate técnico, com alguma margem de erro.

Eu não queria falar do PT agora e desejo que ninguém vote no PSDB, mas cinismo não é algo razoável. E vejam que eu não estou tocando na essência da coisa, vejam que estou sendo trivial, observem que não estou falando sequer da política econômica, da agenda do Banco Mundial cumprida à risca, nem perderei meu tempo repetindo o que dezenas de analista críticos e competentes já disseram do famigerado neodesenvolvimentismo. Aqui somente estou cobrando a responsabilidade do PT em não conseguir politizar e se diferenciar de verdade, por que parece que de repente, não mais que de repente, o inferno são sempre os outros.

Quando termina o apoio crítico e começa o pacto da mediocridade? Como já disse uma vez, é chato, mas preciso me dirigir aos atores desse show, aqueles que passeiam em baixo do sol de dois em dois anos, que animam-se em gritos e guerras, que torcem, que engolem a tosse e mordem a língua em busca do banquete do poder. Alianças tantas, tão frígidas quantos reais apareceram e desapareceram com o mesmo teor de mágica. Em prateleiras tão pobres as escolhas escassas se sobrepuseram com muito espetáculo, poucos amores e tantas paixões. Meras bravatas não cabem mais.

“Debateremos projetos distintos” – falam os semelhantes entre si e desiguais entre tantos. Espelhos que refletem o que muitos querem esconder, pinturas fantasiosas, fotografias mil, poucos retratos e menos ainda a merecida retratação: eis a eleição! Essa caixa de Pandora tão emblemática revelando cisões, dilemas e mitos. E hoje? E amanhã? O que farão aqueles que apostam errado? É hora de esquecer tudo “em nome de continuar mudando”? Quando poderemos discutir de verdade? Há lições a serem aprendidas em um pleito ou esse é um campo definitivo de claques e claquetes? As acusações de hoje se anulam com os abraços de ontem? Há possibilidade dessa peça não ser farsa? Duvido muito.

Se a eleição passa e o povo fica, só almejo que fiquemos! Fiquemos vigilantes e atuantes ali onde a urna não chega. E que aqueles que se escorraçam hoje sejam coerentes suficientes, a partir de agora pelo menos, para fazer diferente, se isso é permitido. Duvido muito.

Entre o barulho das buzinas, dos jingles e dos fogos ficam aqui ensurdecidas tantas interrogações: Que tal não esperar o leite derramar para começar o chororô? Que tal não alimentar monstros, acariciá-los e depois colocar o dedo em riste em uma busca autoritária e desesperada por ajuda para deixar o seu cínico parceiro transformar-se, no acender das luzes, no mais tenaz adversário?

Ah essas lições! As lições de casa que nunca são feitas e que aparecem em tantos papéis voando, espalhados pelas ruas, prometendo a colheita da felicidade, do amor e do carinho num terreno onde se plantou egoísmo e cinismo. Hoje não aplaudo o drama nem a dramatização. Queria eu acreditar que agora pudesse ser diferente.

Queria eu não precisar falar do PT. Estou convicto que o pior cenário para o país é ter o PSDB no poder, mas não posso me furtar de colocar minhas angústias por novamente me deparar com os mesmos argumentos de sempre. Não posso me furtar de lamentar.

Nenhum voto em Aécio? Nenhum!!!! Do resto eu já não sei, espero um debate coletivo, responsável e sincero, pois participar de mais um teatro eleitoral por migalhas não me apetece.

Se o voto é contra o PSDB, se o voto é nulo, se o voto é no PT, isso depende de cada um e dos debates coletivos das forças políticas. Eu queria mesmo alguma autocrítica de quem apoiou e apoia esse governo. Novamente, duvido muito. Mas seja quem for o/a mestre de cerimônia desse circo, ela ou ele poderão me encontrar do lado de fora, nas ruas, com o povo que pede transformação.