segunda-feira, 6 de abril de 2015

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(Essa não é uma historia de amor)

Maria (per)seguia João
E João irritava Maria
Sem saber
Sem saber que ela existia

E Maria quase morria
Com as falas de João
Assim a vida corria
Maria na aflição
Enquanto João sorria
Sem saber
Sem saber que ela existia

Triste vida de Maria
Correndo na contramão
Fofocando de João
Procurando a alegria
Plantando destruição
Enquanto João vivia
Sem saber
Sem saber que ela existia

E então num belo dia
João descobriu Maria
E tratou com ironia
Toda aquela afobação
Pois quando a pobre Maria
Berrava na covardia
João em sua canção
Vivia, sorria e dizia

“Sai dessa
Sai dessa, Maria”

quinta-feira, 5 de março de 2015

Sobre o reconhecimento do trabalho docente (ou Para além do "O que é um professor universitário?")


A difícil conjuntura que vivemos faz com que caiamos em diversas armadilhas  para lidarmos com os desafios de nossa vida cotidiana. No espaço das universidades, o profundo desrespeito dos governos brasileiros com a categoria docente coloca em impasses que enfrentamos de formas bastante distintas. Diante do descaso e do desrespeito há quem busque saídas individuais, alguns clamam resiliência, outros, resignação. Suspeito que precisamos ir mais além.

Esses dias li um texto* muito interessante sobre o que de fato é/seria/deveria ser um professor universitário. O texto do professor Marco de Melo, da UFMG, é um bom ponto de partida e demonstra uma série de elementos do quanto o trabalho docente e a universidade sofrem com a desvalorização e desconhecimento de sua importância no Brasil. O autor derrama uma gama de informações e argumentos da especificidade da docência nas universidades internacionais, trazendo aspectos relevantes sobre a importância da pesquisa, o respeito ao esforço intelectual inerente a essa atividade e o vácuo cada vez maior nosso país.

O texto em questão releva elementos que de fato devem nos preocupar, problemas que nós docentes passamos e que precisamos fazer o enfrentamento. Mas ao lê-lo sinto a necessidade de provocar e falar sobre outros incômodos que envolvem esse “título de professor universitário” e aquilo que muitos almejam dele. Digo isso, pois acredito que exista muito mais para ser revelado a fim de compreender a essência da problemática que aflige o trabalho docente e a universidade brasileira.

O texto expõe importantes considerações sobre os desafios que a lógica enviesada e superficial nos coloca cotidianamente nos espaços de trabalho cada vez mais precarizados, aprofundando a banalização da atividade docente, com a reprodução de uma cultura requentada de subestimação da pesquisa, do ensino e da extensão. Essas são visões historicamente construídas no desrespeito aos profissionais e demais sujeitos que fazem parte do processo educativo, mas também na ignorância funcional sobre o caráter da universidade.

Tudo isso é somado ao presente e oportuno caráter mercadológico e tecnicista da educação. O trato do docente como mero instrumento da mercadoria educação, o aulismo como modus operanti, a pesquisa sob os ditames das “parcerias” com o mercado, a precarização da carreira e das condições de trabalho e a multiplicação de uma concepção de formação profissional distante da formação humana fazem parte da retroalimentação desse triste e desgastante jogo de desvalorização.

No entanto, é preciso ainda considerar outros elementos. Do lado cá há também muito a se avançar em concepções e práticas mais profundas. Ainda que concorde com os problemas colocados sobre como o professor universitário é visto na sociedade brasileira, não posso me furtar de refletir também sobre esse “título” de professor universitário almejado por muitos de nós dessa categoria. Pois dentro dessa cultura que desvaloriza a atividade docente, o outro lado da mesma moeda revela uma histórica reprodução do elitismo, do pedantismo e dos jogos de poder que o saber universitário permite em seus espaços.

O bichinho da vaidade, o espectro da distância teoria-prática, o abismo entre forma e conteúdo e as vendas nos olhos frente aos interesses de classe rondam os gabinetes e as salas de aula de nossas cátedras e desafiam cotidianamente a materialização de uma universidade verdadeiramente popular, pública, estatal, gratuita, democrática, contra a exploração e contra as opressões, ou seja, com a construção do conhecimento que mire a emancipação humana.
É inegável a dificuldade de nos reconhecermos dentro da gama de seres humanos que vendem sua força de trabalho, daqueles que sofrem com a precarização e a exploração e que, por isso, tanto nossa atividade profissional, como a urgente e necessária organização política deve ser fortalecida para desvendar os limites de onde trabalhamos e as possibilidades que devemos construir. Envoltos nos contos que as camadas médias da sociabilidade de classes nos permitem nos acolhemos no mito da temperança, da imparcialidade e do individualismo.

Há boa vontade, focos de resistência, coletivos organizados, iniciativas importantes e gente que compreende esses desafios. Mas há também muita contradição e incoerência no cotidiano de nossas batalhas, dificultando desde a aglutinação de aliados até mesmo a necessária referência que as/os discentes procuram nas brechas de um belo discurso do professor que, eventualmente, pode permanecer absolutamente descolado de suas atitudes dentro e fora da sala de aula.

O vácuo entre a mera abstração de um projeto profissional ou de elucubrações teóricas aliadas às ações que reivindicam o autoritarismo, a reprodução do poder pelos títulos acadêmicos, as pesquisas, ora descolocadas dos interesses concretos dos sujeitos, ora simplesmente apresentando e representando a superficialidade tecnicista hegemônica da avaliação da aparência, tudo isso reflete mais do que elementos isolados dos nossos dramas cotidianos.

Obviamente, nesse emaranhado de questões, os elementos subjetivos também se fazem presentes. As balizas que nos saltam aos olhos fazem com que muitos se peguem no pragmatismo, no preconceito intelectual e na frustração com sua prática profissional. Isso permite a multiplicação de sensações e análises que individualizam causas e consequências, seja na própria culpabilização, seja no dedo em riste para seus pares e/ou para as/os discentes.

As cisões encontradas em sala de aula diante dessa lógica historicamente reproduzida e consubstanciada com o desmantelamento da educação básica (parte desse mesmo processo), por vezes, são “enfrentadas” ou com voluntarismo condescendente, com o rebaixamento da qualidade, ou com o suposto outro polo de personalismo e culpabilização dos indivíduos por suas limitações. É aí teremos os docentes bonzinhos e os docentes tiranos como partes aparentes de uma diferença que só se estabelece na lamentável lógica de unidade.

Corremos atrás do próprio rabo, jogatinas políticas ou negação da política se estabelecem como únicas saídas: produtivismo ou desinteresse, pedantismo ou superficialidade, tecnicismo ou filosofismos, irresponsabilidade ou sacerdócio. Falsas polêmicas, falsas alternativas que se materializam em nossos espaços e escondem as verdadeiras disputas de projetos de universidade. 
Quando menos percebemos somos o professor-pesquisador-empreendedor que detesta a sala de aula e encontra seu escape nas parcerias com as empresas privadas; o professor “aulista” que tem a pesquisa e a extensão como obstáculos; o professor-autoridade que quer, como pressuposto, ser adorado pelos seus títulos e produções; o bem intencionado professor-tecnicista que acha que a universidade é ensino-pesquisa-extensão, mas que esquece do necessário quarto pilar, a organização política; ou ainda o professor frustrado com a reprodução dessa cultura, que está insatisfeito (e com justiça) por suas limitadas condições de trabalho, mas que não se organiza coletivamente e desconta seus dramas nos sujeitos que estão em seu cotidiano.

E de repente lá estamos nós falando de horizontalidade, ética e respeito e mobilizando os alunos pelo medo em nossas salas de aula, ou utilizando argumentos moralistas para defender nossas posições, fazendo o uso de discursos rasteiros e sendo condescendentes com os ataques perenes que sofremos no cotidiano universitário. De repente estamos falando de solidariedade, de outro modelo de conhecimento e nos julgando por quem tem mais publicações, por quem “doa seu sangue” pela pesquisa mesmo em “condições adversas”. De repente estamos falando de classes sociais e da precarização do trabalho, da função social da universidade e sem nos organizamos nos nossos sindicatos, fazermos nossa luta, sermos capazes do exercício pedagógico de demonstrar capacidade de reação e proposição diante do desmantelamento da educação superior. De repente estamos falando de educação e reproduzindo o academicismo.

Há desafios enormes dentro e fora dos muros da academia. Há batalhas do plano cotidiano que estão estreitamente ligadas à nossa concepção e para onde queremos ir. É urgente o fortalecimento da organização política por outro modelo de universidade. Nesse sentido, a luta por melhores condições de trabalho e pela nossa valorização na sociedade perpassa por um mesmo caminho. Esse caminho é muito maior do que uma reflexão sobre como somos vistos.

Dessa forma, reivindicar o respeito ao título “professor universitário” é tão importante e necessário quanto reivindicar esse mesmo respeito ao estudante, ao técnico administrativo, assim como o respeito para o mecânico, para o agricultor, etc. Para além de exigirmos e buscarmos o respeito e o conhecimento individual é preciso que nos reconheçamos e nos respeitemos enquanto trabalhadores. Para além de nos embrenharmos na lama das regras da meritocracia e do produtivismo, a fim de termos a excelência que nos exigem aqueles que ditam os modelos de universidade, é necessário que tenhamos força para exigirmos condições para isso e para muito mais.
É preciso cotidianamente lutar e construir uma concepção outra de universidade. Não é o padrão de pesquisa do primeiro mundo que devamos almejar. Ele é muito pequeno e estreito. É o padrão de uma universidade popular, laica, antirracista, anti-homofóbica, anti-machista, pública, estatal, socialmente referenciada na classe trabalhadora e plenamente coerente, com os sujeitos que a constroem pautados numa concepção profunda e de rigorosa vigilância por uma educação para a emancipação humana.


É preciso construir conhecimento e materializar ações que determinem em sua essência que o/a trabalhador/a, que todo/a trabalhador/a, seja plenamente respeitado/a, que isso se construa quebrando os muros da universidade, com todas/os podendo entrar e sair dela, que nós docentes façamos também esses caminhos para as ruas, na luta e em nossa atividade profissional e que quebremos também nossos muros individuais e possamos enfrentar sempre o bichinho da vaidade, o espectro da distância teoria-prática, o abismo entre forma e conteúdo e as vendas nos olhos que escondem os interesses de classe em nossas atitudes e nesse projeto de precarização e privatização das universidades brasileiras, que todos nós sentimos na pele, mas que muitos ousam esconder, seja por estarem assoberbados pela lógica produtivista, seja por pura consciência de assumir um projeto de poder que referenda o fim dos direitos dos trabalhadores.

*MELLO, M. O que é um professor universitário. https://marcoarmello.wordpress.com/2015/02/12/professor/

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Manhã

Escondo-me do medo
Do supersticioso receio do profeta
Daquela ponta do lápis certeira e reta
Que me faz correr e percorrer o enredo
Que me bota frente a frente com o destino
Que revela o pavor de um menino
No escuro que revive o seu temor
Na sua mente que fermenta esse topor
Onde corro e me escondo desse medo

No espelho corro, socorro e vejo
Fujo de mim logo cedo

terça-feira, 25 de novembro de 2014

"Põe a culpa na Abreu, antes ela do que eu"



Dias 25 de novembro. Fim do mês, faltando trinta dias para o natal do ano 2014. Que fique registrada a data que escrevi.

E estou dizendo isso pois sei que a celeuma da emblemática indicação da nefasta Kátia Abreu para compor o grupo dos ministros do próximo governo Dilma ainda vai gerar outro viés no futuro, algo com um teor bem diferente do que agora paira no ar como silêncio envergonhado (condescendente)  dos governistas e do voto rebaixado. Estou falando da estratégia do bode na sala.

Todo mundo deve conhecer essa história: O apartamento é minúsculo, a família passa o dia reclamando de falta de espaço, então o pai vai lá e coloca um bode na sala amarrado no sofá. Dias depois o caos está instalado: barulho, mau cheiro, fezes. Todos se revoltam com a presença do bode, há um completo desespero. Após muitos protestos, o engenhoso pai resolve aceitar as reivindicações, retira o bode da sala e todo mundo fica feliz, esquecendo o quão era ruim viver no pequeno apartamento.

Vejo com muita curiosidade a surpresa das pessoas com a indicação da Kátia Abreu. Não estou contando com os iludidos, mas com os soldados da retórica, para esses o problema maior não é o rumo das coisas, mas o nome da vez ser conhecido e reconhecido. A centralidade da questão para esse povo é o quão é simbólica a indicação de Abreu e não a política alinhada que já vem sendo aprofundada por anos e anos contra o povo do campo em favor do lucro desmedido, do desmatamento, da superexploração do trabalho.

 A indicação de Kátia é de fato um problema, mas apenas a ponta dele. Na verdade, pouco importaria se fosse fulano ou sicrano do segundo escalão do agronegócio, pouco importa se serão os jagunços ou os senhores da casa grande que colocarão a mão na massa, quem vem mandando e vai continuar fazendo isso serão os patrões. E nada na última eleição sugeriu que seria diferente. Nada mesmo. E não adianta colocar de modo fatalista a culpa na forma política atual como se não existissem opções de organização, luta, cobrança e pressão ante os interesses de classe que esse e todas as outras indicações ministeriais representam. Não adiante perpetuar o reformismo, naturalizando o possibilismo, o aliancismo e o proselitismo que se reproduz por aqui com o modus operanti do governo de "colisão".

Dito isso, afirmo que no dia que dona Kátia e demais nomes nefastos deixarem os ministérios por qualquer razão, não me venham comemorar a saída do bode da sala, assim como fazem quando meia dúzia de militantes conseguem vaiar a rede globo ao vivo ou quando a presidenta da república dança funk ou diz duas ou três palavras mais bonitinhas e se encontra com algum grupo de movimentos ligados ao seu partido. Antes e depois de Kátia ainda virá mais gente do latifúndio, do capital financeiro, do desmatamento e demais donos do poder de outras áreas. E isso não ocorrerá porque é necessário ou imutável, mas porque é a linha desse governo.

A data da profecia do bode está aqui registrada. Dessa forma, quando os "movimentos de pautas ganhas", daqui a alguns meses, saírem da caverna e bradar o "avanço popular", dizendo que terá uma guinada para a esquerda por conta das danças das cadeiras dentro dos carguinhos do governo, nós já saberemos que é só mais uma farsa entre bodes nas salas do planalto e donas e donos de grandes currais. E uma hora essa desculpa não vai colar.

O muda mais de Dilma será o que já vem sendo: a continuação da mudança via e rumo ao conservadorismo. A mea culpa no rebaixamento das expectativas da população, de uma década de vazio em formação política e de mero proselitismo vil na cooptação e bravatas perenes fica só na potência, nunca em ato. A turminha continua e continuará utilizando do "medo do passado" e se tornando cada vez mais parecido com ele. A chamada onda conservadora não acontece só do outro lado da cerca da falsa polarização de nossa política formal, ocorre por dentro do governo, desse governo que dia desses fingiram ser progressista.
 Como disse a presidenta para sua militância: menas, gente, menas.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Diário de supermercado 2: Laticínio ostentação




Adoro queijo. Difícil é ter que decidir entre pagar a conta de luz ou comer alguns pedacinhos durante a semana. No velho-oeste queijo deve ser coisa rara. Não importam as centenas de milhares de cabeça de gado que existam por aqui e suas dezenas de bilhares de litros de leite: comer queijo é sinal de status. A sociedade se divide entre os poucos que tomam seu café e podem luxar sua fatia de cheddar no pão e aqueles da absoluta maioria que sonham com tal regalia. Esse abismo do consumo é cada vez maior.

Chego ao supermercado e salto ao constatar o preço novamente.  Eu até já saiba, mas me chocarei sempre. Fico ali encarando a variedade do alimento branco-amarelado, gorduroso e bonito, imagino ele derretendo em meu grill, numa pizza ou ainda numa lasanha... Olho no olho dos cifrões, calculo a perversa equivalência entre o valor daqueles gramas fatiados e um quilo, recordo os saborosos, baratos e caseiros laticínios lá do Vale jaguaribano, trinco os dentes e... é hora do choque de realidade! Vamos lá, é preciso ser pragmático. Paro e já penso qual o dia do mês será o dia da mozzarella e qual o do queijo coalho, momentos especiais, nos outros dias uma colher de requeijão (no máximo). 

Tempos difíceis onde o misto quente é uma iguaria vendida a peso de ouro. Hoje mesmo que acordei inconsequente, fui à padaria e comi um. Ostentação total no melhor estilo classe média assalariada. Saí de lá com a barriga cheia (nem tanto), o bolso vazio e a consciência pesada. Quem pode, pode, pelo menos por enquanto. Se continuar aumentando terei que vender meu rim pra comer uns pãezinhos de queijo da próxima vez. 


domingo, 9 de novembro de 2014

1989

Quando a poeira subiu 
E os tijolos foram ao chão
Foi então decretado o fim da contradição
Mal sabiam 
Caia o muro
A história, não

Diário de supermercado 1: Comprando superpoderes



Percebendo minha inaptidão em manter regularmente uma vida não sedentária, tenho tentado praticar ao menos a redução de danos e modificar boa parte dos alimentos cotidianos. Esse não é um processo fácil e analisando os seus elementos percebo que essa parte do supermercado já me atingia sem eu sequer  nota-la, tudo dependendo da flutuação da moeda-dieta.

A indústria da boa forma é interessante, num dia chá verde cura tudo, no outro esquecem o chá e falam que é a linhaça, depois tudo vem com colágeno, para logo em seguida encontrarem um grão milagroso. É uma linha difícil de acompanhar a moda. Enfim, uma bolsa de valores onde a especulação entre o glúten, a lactose, as fibras e o chá dentox disputam o nervosismo do mercado. 

Nesse emaranhado de possibilidades vamos escolhendo: granola, bom, mas calórico; aveia, ótimo, mas tem glúten, que agora é ruim para todo mundo; iogurte desnatado; melhor, mas lactose agora incha. Tudo bem, sabemos as regras do jogo, o duro é quando a moda do carboidrato de baixo índice glicêmico atinge o seu cotidiano. Quando era só a batata-doce, tudo bem, mas agora a moda é a tapioca! Que desgraça, roubaram a tapioca da minha alimentação barata e não saudável.  Comprar fécula de mandioca virou fit. Maldição, meus amigos, maldição. 

Aliás, fécula de mandioca não! Goma, go-ma! Comida de cearense, comida diária, goma que você molha e peneira em casa e não essa coisa caríssima que já vem molhada, ensacada e que sequer fica resfriada nas prateleiras, quando você abre o pacote fica com um “cheiro de abafado e o calor já faz a coisa toda virar grude. Pois é, a tapioca subiu de status. Pior, o cuscuz também! Nada de tapioca com calabresa e bacon, carne seca com banana. Nada de uma farofa de cuscuz com ovos e muita manteiga. Agora tapioca é almoço, é cara e é servida com coisas verdes, sua farinha de milho, idem. Perdeu, playboy.

Mas ok, vamos lá continuar na prateleira. Vamos olhando, analisando, comprando, se alimentando e se lamentando até que chegamos nela, a rainha do momento, aquela que um saquinho minúsculo que deve conter uns trezentos gramas custa mais ou menos quinze reais. Imagino o que isso queira dizer: "compre essa farinha, fique sem dinheiro e emagreça por não ter como comprar outros alimentos". Não sei, provavelmente estou sendo jocoso e simplista demais, mas preciso deixar meu recado para essa estrela:

Querida Quinoa, não nos conhecemos pessoalmente, você para mim é igual caviar na música do Zeca Pagodinho, não sei suas propriedades, acho que continuarei sem saber, permanecerei apenas me relacionando com suas vizinhas linhaça e aveia, mas pelo seu preço, imagino que alguns grãos deem o poder da imortalidade, você deve ser realmente muito especial. Parabéns pelo valor e curta o tempo de fama, ele é efêmero, pois quando enquanto eu estava na fila do caixa vi uma capa dessas revistas femininas que dizia: “a nova erva, o chá de matcha acelera a queima de gordura em 40%”. Tremei, quinoa, tremei, quando sucumbir, por favor, leve minha goma junto. Oh vontade de comer uma tapioca!

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Não alimente o lobo

Diante das esparrelas neoconservadoras muito tem sido comentado sobre o protagonismo das (sub)celebridades como intelectuais orgânicos do irracionalismo. Nesse processo, a "rebeldia sem causa" de alguns roqueiros dos anos 80 é encarada com perplexidade e os contra-argumentos são postos com análises de mera ausência de inteligência. Não é isso.

Dizer, por exemplo, que Lobão é burro não correto. Ele é inteligente, criativo, talentoso. Talento não escolhe caráter, competência não brota por adesão política. A questão atual é outra.

Lobão já fez muita música boa, já proferiu palestras interessantíssimas nos anos noventa, já bradou muito pertinentemente sobre coisas diversas. Bradar, gritar, uivar virou o alimento dele e é aí que se encontra a questão. Para Lobão uivar é o que importa. Por trás de boas letras agressivas, um niilismo vulgar, um anarquismo vulgar, uma rebeldia desmedida e sem direção, há uma persona construída que sempre quis questionar supostos deuses... Por isso uivava ferozmente contra a bossa nova, João Gilberto, Caetano, o mainstream, etc. Por isso saltava de boas sacadas até frases debochadas, infelizes e sem nenhum critério. Por isso ia desde ao ataque criativo, corajoso e efetivo contra as gravadoras e toda a indústria cultural até a condescendência com as mesmas após provar que estava certo.

Lobão virou um personagem de si mesmo. Deixou de produzir música, passou a uivar somente. E sua metralhadora virou para Lula, o que ele deve julgar ser o suposto deus da vez, talvez o maior, para ele. Não é nada pessoal, nem sei se ele acredita em tudo que diz, talvez sim, talvez engane a si mesmo. Como não há critério, como não há lógica e como o caminho de mais adesão para esse uivo atual é a ignorância, o fascismo, a reprodução da herança da Casa Grande, Lobão passou a aderir à ditadura, a desdizer tudo que disse. Sua crítica não é à reprodução das mesmas contradições que o governo petista manteve, mas um discurso de pura e simplesmente fazer o coro com os reacionários, de repetir bravatas sobre um comunismo que nunca vai existir pelas mãos do PT.

Lobão virou somente uivo de contradições e incoerências. Afoga-se em frases tolas, alimenta-se de sua própria amargura e do eco que seu discurso ignorante pode ter. Não produz mais nada de relevante, não realiza nada de construtivo e caminha para o ostracismo. No fim, Lobão só quer ser notícia por ser liderança de um movimento patético, da luta do “sujo x mal lavado” que se consolida na política nacional. Lobão não é burro como muitos dizem, pode ser tolo, mas burro não.

Quem tem medo de Lobão? Quem é Lobão atualmente? Parem de falar sobre ele. Eu pararei aqui. Parem de compartilhar suas asneiras e parem de pedir para ele ir embora. Ele não vai, não iria mesmo e se fosse não resolveria o problema, pois ele continuaria a falar suas bobagens e vocês continuariam a respondê-lo, a compartilha-lo e a alimentá-lo nessa bad trip do seu fim de carreira: uma ilusória saga de um Dom Quixote que anda para trás, de um lobo que uiva mas não morde, de alguém que já tentou bater tanto em todo mundo que só atinge a si mesmo. Se esse personagem caricato ainda tem alguma relevância e aparenta qualquer seriedade, a culpa é mais nossa do que da sua própria insensatez.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Aposta


Nos jogos de caça-níqueis
Quem ganha sempre é a banca
Por isso entre cara ou coroa
Prefiro o fim da moeda

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O Circo das Eleições: 2° turno e o falso debate político


Respeitável público, no bonde dos iludidos, nas alas das vitórias inglórias e das derrotas tão rasas, quem consegue sustentar mais suas mentiras? As apostas nunca acabam! O blefe também.

Diante de uma ameaça terrível que é uma suposta volta de um governo tucano (toc, toc, toc) o drama se torna o centro da trama eleitoral. Surgem aqueles que se calaram por tanto tempo e se juntam aos cacos e clichês das falas que já se tornaram conhecidas mas que não mais convencem. Esquecendo seus próprios erros, aparece um cinismo pedante que quer responsabilizar quem sempre criticou as incoerências.
Como acredito que o medo, a pressa, o pavor e a comoção são combustíveis da barbárie, me sinto obrigado a parar e refletir sobre isso. Desculpem, mas antes de continuar, antes de dizer o óbvio, antes de reafirmar que o PSDB representa a calamidade política desse país, não há como compactuar com o mero pacto da mediocridade.

Vi um meme aqui no facebook: "votar no PSDB para tirar o PT do poder é como comer merda para parar de comer mc donalds". Concordo com a comparação do PSDB com as fezes, mas a do PT é bastante generosa, pois o tal sanduíche é uma porcaria, mas não chega ao nível desse governo. É preciso combater o PSDB sem fingir que o PT é pelo menos razoável, pois não é.

Aí saltam as cobranças, surgem os discursos inflamados e as denúncias sobre a tragédia tucana. Há muita razão nisso. O que não é crível são os olhos e as cortinas fechadas para o que o PT fez e faz. A angústia dessa falsa polarização é mote desse meu texto. Eu realmente não queria falar do PT agora, vou tentar nem falar nas próximas semanas, até por que, como diz o ditado popular, "um governo do PSDB é ótimo, mas morrer queimado é melhor". Só me permitam desabafar nesse momento. Só me permitam não me calar diante de tanto cinismo.

Eu não queria falar do PT pois no PSDB temos o que é de mais vil, o antro de conservadores, elitistas, oportunistas e tudo mais de ruim. Mas fica difícil quando a síndrome de labirintite político-ideológica de muitos do Partido dos Trabalhadores querem eternizar essa falsa polarização para somente permanecer aprofundando o "seu" social-liberalismo. Fica difícil quando o jogo de palavras se torna cada vez mais esgotado pela própria lógica do governo que em mais de uma década tem como modelo eleitoral se tornar ainda mais parecido com aquilo que o ameaça: "se o agronegócio ameaça nossa eleição, nos pareçamos com eles, se os fundamentalistas religiosos ameaçam nossa eleição nos pareçamos com eles, se os tucanos..." enfim, entenderam, né?

Pois é, eu não queria falar do PT por que acho que quem fala que o PSDB é muito pior AINDA tem razão, mas tem cada vez menos, pois eu só vejo interesse desse partido em buscar diferenciação substancial nas bravatas cotidianas de suas bases e nos períodos eleitorais como o de agora e somente para parte do eleitorado, para a elite o discurso é que "somos além de parecidos, melhores".

Até quando o único argumento será o medo do passado para sermos escravos do presente? Quanto foi feito para o processo de avanço de participação popular, de politização, de edificação de uma contra-hegemonia de esquerda nessa última década para que os militantes de esquerda - que foram caçados nas ruas ou nos ambientes de trabalho por esse governo - tenham mínima confiança de que “daqui pra frente tudo será diferente”? Será que não há ninguém para falar sobre isso além de dizer "o PSDB é pior"? Isso eu já sei.
Acredito que aqueles que farão a opção pelo menos pior tem todo o direito de fazê-la e tem ainda alguns argumentos para isso, mas não aceito o dedo em riste para cima de quem sofreu perseguição e/ou que sempre denunciou que as alianças e as táticas do governismo sempre levariam ao mesmo lugar.

Estão como medo de quem Marina(aquela reacionária!) vai apoiar? Quem foi que a projetou? Por que não acham que tem como acreditar que ela se tornou isso só a partir de 2010, né? Estão com medo da campanha dos fundamentalistas religiosos? Quem afinou diversas vezes para Marcos Feliciano, Malafaia e Cia? Nesse espetáculo tem perguntas que ninguém quer responder. Sabe, eu também não quero o PSDB no poder, nem quero Collor, Calheiros, Ferreira Gomes, Sarney, Kátia Abreu.... Sabe, eu não quero o PSDB e sua política entreguista no poder, nem quero as contra-reformas travestidas de benfeitorias que estão em curso. Sabe, que tal um debate mais politizado, que tal autocrítica, que tal a afirmação de uma divergência real? Parece impossível?

Que tal o PT parar de alimentar os monstros e depois exigir ajuda para acabar com eles? Pedirei algo mais simples, que tal pelo menos a parcela de militantes que está por aí nas bases refletir sobre suas práticas desonestas que atingem aqueles que ousam divergir do governo e do partido? Que tal aproveitar o momento para pensar e não mais beneficiar suas patotas políticas e boicotar quem faz crítica de esquerda nos espaços das categorias profissionais, nos movimentos sociais ou mesmo nos espaços de trabalho? Ou vão dizer que ninguém conhece pelo menos um caso desses?

Não seria de bom tom se pudéssemos dizer que além do PSDB ser mais corrupto, mais elitista, mais privatista ele também tem mais gente escrota que se identifica com o partido e busca minar qualquer pensamento diferente nos espaços que tem algum poder? Nesse quesito, tucanos e petistas já estão em empate técnico, com alguma margem de erro.

Eu não queria falar do PT agora e desejo que ninguém vote no PSDB, mas cinismo não é algo razoável. E vejam que eu não estou tocando na essência da coisa, vejam que estou sendo trivial, observem que não estou falando sequer da política econômica, da agenda do Banco Mundial cumprida à risca, nem perderei meu tempo repetindo o que dezenas de analista críticos e competentes já disseram do famigerado neodesenvolvimentismo. Aqui somente estou cobrando a responsabilidade do PT em não conseguir politizar e se diferenciar de verdade, por que parece que de repente, não mais que de repente, o inferno são sempre os outros.

Quando termina o apoio crítico e começa o pacto da mediocridade? Como já disse uma vez, é chato, mas preciso me dirigir aos atores desse show, aqueles que passeiam em baixo do sol de dois em dois anos, que animam-se em gritos e guerras, que torcem, que engolem a tosse e mordem a língua em busca do banquete do poder. Alianças tantas, tão frígidas quantos reais apareceram e desapareceram com o mesmo teor de mágica. Em prateleiras tão pobres as escolhas escassas se sobrepuseram com muito espetáculo, poucos amores e tantas paixões. Meras bravatas não cabem mais.

“Debateremos projetos distintos” – falam os semelhantes entre si e desiguais entre tantos. Espelhos que refletem o que muitos querem esconder, pinturas fantasiosas, fotografias mil, poucos retratos e menos ainda a merecida retratação: eis a eleição! Essa caixa de Pandora tão emblemática revelando cisões, dilemas e mitos. E hoje? E amanhã? O que farão aqueles que apostam errado? É hora de esquecer tudo “em nome de continuar mudando”? Quando poderemos discutir de verdade? Há lições a serem aprendidas em um pleito ou esse é um campo definitivo de claques e claquetes? As acusações de hoje se anulam com os abraços de ontem? Há possibilidade dessa peça não ser farsa? Duvido muito.

Se a eleição passa e o povo fica, só almejo que fiquemos! Fiquemos vigilantes e atuantes ali onde a urna não chega. E que aqueles que se escorraçam hoje sejam coerentes suficientes, a partir de agora pelo menos, para fazer diferente, se isso é permitido. Duvido muito.

Entre o barulho das buzinas, dos jingles e dos fogos ficam aqui ensurdecidas tantas interrogações: Que tal não esperar o leite derramar para começar o chororô? Que tal não alimentar monstros, acariciá-los e depois colocar o dedo em riste em uma busca autoritária e desesperada por ajuda para deixar o seu cínico parceiro transformar-se, no acender das luzes, no mais tenaz adversário?

Ah essas lições! As lições de casa que nunca são feitas e que aparecem em tantos papéis voando, espalhados pelas ruas, prometendo a colheita da felicidade, do amor e do carinho num terreno onde se plantou egoísmo e cinismo. Hoje não aplaudo o drama nem a dramatização. Queria eu acreditar que agora pudesse ser diferente.

Queria eu não precisar falar do PT. Estou convicto que o pior cenário para o país é ter o PSDB no poder, mas não posso me furtar de colocar minhas angústias por novamente me deparar com os mesmos argumentos de sempre. Não posso me furtar de lamentar.

Nenhum voto em Aécio? Nenhum!!!! Do resto eu já não sei, espero um debate coletivo, responsável e sincero, pois participar de mais um teatro eleitoral por migalhas não me apetece.

Se o voto é contra o PSDB, se o voto é nulo, se o voto é no PT, isso depende de cada um e dos debates coletivos das forças políticas. Eu queria mesmo alguma autocrítica de quem apoiou e apoia esse governo. Novamente, duvido muito. Mas seja quem for o/a mestre de cerimônia desse circo, ela ou ele poderão me encontrar do lado de fora, nas ruas, com o povo que pede transformação.


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Resignação

Pela impossibilidade de ser feliz
Se contentou com migalhas de riso
Ao ser obrigado a ficar quieto
Sua maior ousadia foi respirar
Quando disseram que sonhar bastava
O pesadelo foi o companheiro de suas noites
Quando gritaram sobre o medo do passado
Parou de caminhar para preservar o presente
E ao esclarecerem que ser livre era impossível
Livrou-se de si mesmo e prendeu-se aos seus pés
Viveu sobre si
Sobreviveu
E só

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Leões e Zebras


Humilhados e exaltados sabem
Nada é por acaso

Os humilhados sagram sem perdão
Os exaltados bebem em devoção
O sangue é o mesmo e é exaltado
O sangue é vermelho
Não é por acaso

E pela sede de satisfação
Os humilhados se dividirão
Uns humilhados querem humilhar
Outros cansados querem exaltar
Junto da marcha da humilhação
A tosca farsa da enganação
E uma certeza sempre sorrateira
Que entre aqueles leões e as zebras
Pacto de sangue será sempre não

Podres os párias da pobre prisão
Os exaltados serão o que são

sábado, 14 de junho de 2014

A Farra do Menino Mimado em 12 de Junho


É dia de alegria, mas o menino mimado quer mostrar que é rebelde. Mesmo todo engomadinho, certinho, com seu liso cabelo partido para o lado direito, o guri é sapeca, gosta  de ficar  junto com seus coleguinhas e pregar peças naqueles que estão ao redor. A insatisfação é sua brincadeira preferida e mesmo sendo costumeiramente cordial com seus coleguinhas, ele também é bastante boquirroto quando quer.  A ocasião parece especial para quem olha de longe, mas o menino vive mais um dia normal em sua vida, ele tem tudo o que quer nas mãos, embora viva eternamente insatisfeito.

Hoje é dia de festa, evento certeiro para as peripécias do menino, mas como a parte menos abastada da família não estará lá - foco principal de suas galhofas - o jeito é ter como alvo quem melhor lembra aquele pessoal que ele detesta, por acaso, a pessoa é justamente a sua tiazona que o mima sem parar e sempre esquece do resto da família. Esse comportamento, obviamente, só reforça a má educação do menino, mas a tiazona é boa e só quer agradar. A tiazona está sempre solícita, sorridente, tentando deixar o menininho feliz. Ela nem queria chatear os outros membros da família, mas "sabe como é, né, o menino quis, esse pessoal também é muito impaciente, não entende que ele é diferenciado, precisa de mais atenção".

O menino então chega à festinha que a tiazona ajudou a fazer, come o lanchinho que ela cozinhou para ele ficar feliz e então reclama. Ele adora reclamar. Enquanto isso, a tiazona faz de tudo pra agradar o menino, esse parente distante, riquinho e emburrado que quer ser rebelde. Do lado de fora, parte do resto da família está realmente “p da vida” com a falta de zelo que a tiazona não concentra nas coisas mais importantes para todo mundo dali, pois ela gastou muito dinheiro e trabalho com uma festinha boba só para tentar agradar esse menino mimado e mal educado e só as migalhas e os restos sobraram para toda a família. Essa festinha é de fato polêmica, gerou discórdia, mas a Tiazona não gosta que falem do menino, por isso deixou toda a parte chateada da família de fora da comemoração para não gerar mais problema.

A festinha está mais ou menos pronta. Com muita dificuldade, sob gritos do resto da família, mas sem nunca desistir, a tiazona faz a decoração, os brinquedos, o lanchinho como pode e não deixa ninguém chegar perto antes do menino, afinal, ele é a razão de tudo. Ainda sim, o menino rebelde, comendo, se divertindo e pulando xinga a tiazona! Ele está com raiva e diz que a festa está péssima, brada, chora e esperneia enquanto brinca no parquinho.

O menino xinga, mas não vai embora da festa, ele fala que os balões são feios, reclama que a comida está ruim, mesmo se empanturrando com a mesma. E exatamente na hora do discurso, naquele momento que a tiazona deixa todo o resto da família trancada do lado de fora só para o menino rebelde se divertir com os amiguinhos,  ele vai lá e manda um sonoro “vai tomar no cu” na cara da tiazona. Ela fica meio envergonhada, pensa: "que coisa mais feia, menino", porém, o mal educado não se importa, pois ele quer mostrar para os amiguinhos que pode humilhar quem lhe serve e que é um garoto reclamão, exigente e capaz de ser ainda mais descontente do que o resto da família que está chateada do lado de fora. O menino é mimado, quer mostrar que é rebelde e faz isso na frente dos coleguinhas, sob constrangimento e posterior sorriso de sua bondosa tiazona. Sim, ela sorri. A tiazona é legal, pelo menos para o menino.

E assim, o menino e a tiazona vivem e continuarão vivendo sua relação quase promíscua, envolta de tapas, beijos, xingamentos, favores, subserviência e falta de agradecimento. O menino mimado gosta mesmo é de xingar e a tiazona parece gostar de ser xingada. “Oh menino sapeca, parece que nunca está satisfeito, quer um cafuné?”.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Sexta-feira 13
O azar arrasa a razão
Sorte da superstição

terça-feira, 10 de junho de 2014

Veneno

Se as cobras tivessem pernas elas andariam lado-a-lado contigo, fingiriam semelhante a você, dariam um passo para trás e então quando percebessem sua distração  poderiam passar uma rasteira pelas suas costas sem nenhum problema. Se elas tivessem mãos poderiam te cumprimentar, fingir civilidade, amizade, solidariedade e depois fazer gestos obscenos com os dedos quando você estivesse longe. Ela poderiam também te enforcar num abraço, é da natureza de algumas. Se as cobras falassem não precisariam do veneno, suas palavras elogiosas em sua presença se transformariam em fofocas, melindres e polêmicas rasas quando seus ouvidos não pudessem notar. Uma cobra falante com meia dúzia de meias verdades para uma alma meia-boca e a mediocridade reinaria.

Se uma cobra tivesse corpo de humano, face de humano e trejeito de humano ela iria dissimular por meio de bajulações, manipular pelo terrorismo, enganar pelo pavor, dissuadir com abraços e afagos, desenvolver meios de jogar com as pessoas até ficarem umas contra as outras, se alimentando de boatos, se fartando com ambientes pesados e se viciando em manias de perseguição.

Se algumas cobras fossem humanas elas poderiam conviver contigo, sair para beber uma cerveja, entrar em suas redes sociais na internet, convidar para projetos futuros, perguntar sobre seus planos, dizer que torce por ti e ainda assim passariam quase ilesas ante a mediocridade do rastejar que seus passos esconderiam, obscurecendo as intempéries invisíveis que suas mãos lisas temperariam e o veneno simbólico que a língua ferina faria chover. A dádiva da cobra é perceber todos à sua altura ali no chão.

Se as cobras fossem como os humanos a covardia seria ainda maior, no entanto, a astucia seria prejudicada pelo ar de superioridade, já que sempre iriam achar que ninguém seria inteligente o suficiente para notar os jogos, os dramas, as farsas tão perenes. Se as cobras fossem como seres humanos o seu verdadeiro veneno seria jorrado pela intriga, pelo rancor, pela inveja, com amargura, com desrespeito, com gosto de derrota e solidão.

Se alguns humanos fossem cobras o mundo seria melhor.