quarta-feira, 22 de maio de 2013

Carga



Uma tonelada de escolhas em seus ombros
Nas costas, os desejos e seus escombros
O ontem amarrado em seu pescoço
O peso do presente na cabeça
E o medo do amanhã no coração

Haja pés, haja mãos

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Maio


Uns tomando no cu
Outros a decisão
De tomar uma cerveja
Para o lucro do patrão

terça-feira, 30 de abril de 2013

Transação


Do solo do salão e do salário
O rosto do roçar resta no rócio
Na sala e no suor do solitário
A transa não é gozo, mas negócio
O ócio é oneroso para o sócio
O selo do consócio é salafrário
Não há prazer, mas peso e um prontuário
Entre aquilo que é preciso e o necessário

O gozo horroroso é puro erário
A transa assediada em sacerdócio
E o dia é debitado num diário
Ocupa o colo oco o dolo ócio
Ainda no ardor de tal aviso
O troco roto de um prejuízo
Que teve em seu transe temporário
Só isso resta no que é preciso
E falta no que é tão necessário

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Procura


Lá está o poeta
Diuturnamente incansável
Procurando seu verso inexorável
Não nas estrelas, não no luar

Lá está o poeta  tentando encontrar
A poesia escondida no mendigo
Que dorme na Praça José de Alencar

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Pós


Um gole de gala
Um galo de briga
Um fole de fala
Um doido que diga
Uma voz vazia:
"Deu enter
Fez poesia"

quarta-feira, 24 de abril de 2013

O CAUSO DE ZÉ FIRMINO


Hoje trago novamente mais um vídeo-exercício  das oficinas Projeto*. A história desse aí foi a seguinte: fizemos o enredo coletivamente em sala, os personagens, o desfecho, depois eu fiz o cordel e filmamos em duas tardes de maneira improvisada. O resultado foi esse aí, bem amador, de brincadeira mesmo, mas não menos divertido, hehehe:



--
O CAUSO DE ZÉ FIRMINO


Hoje venho lhe contar
O causo de Zé Firmino
Que era um jovem bom
Honesto desde menino
Mas meteu-se em confusão
E quase que esse refrão
Revira o seu destino

Zé era muito franzino
E sua vida era assim
Do trabalho ia pra aula
Morava no Bom Jardim
Lutava por seu futuro
Sem se meter em apuros
Pra conquistar o seu fim

Mas a vida é assim
É cheia de presepada 
E na vida desse Zé
Uma peça foi pregada
É que o pobre foi parar
Onde não devia está
No lugar e hora errada

Vejam só que emboscada
Escute e Participe
Pois  ao voltar do trabalho
Na Rua Oscar Araripe
Andava tranquilamente
Simpático como sempre
Cumprimentou João Filipe 

Felipe ansioso disse 
“Estava te procurando
Preciso de sua ajuda
Continue caminhado
Mas escute com atenção
O que pedirei então
Pois vou logo lhe explicando”

Meu parceiro João Felipe 
Disse o Zé educado
Por que tá com essa cara
Você está assustado?
E o que tem nessa sacola
Parece fraco da bola
Falando todo acuado”

O tal Felipe enjoado
Respondeu logo depressa
Ômi deixe desse lero
Ora que conversa é essa
Estou aqui na limpeza
A tarde tá uma beleza
Só estou meio com pressa

Continuou a conversa
O João Felipe malaca
Disse tenho uma visita
A uma prima que tá fraca
A bichinha adoentou
Por isso peço um favor 
Pra você que se destaca

É destaque e sempre emplaca
Quando o assunto é bondade
Por isso que eu repito
Que faça essa caridade
De cuidar dessa sacola
Enquanto eu dou o fora
E volto pressa cidade

Zé cheio de amizade
E também de emoção
Mandou o João Felipe
Acabar com o sermão
E ir cuidar de sua prima
Sem saber que essa rima
Causaria confusão

Caminhando sem noção
De onde ele se metia
Foi quando viu uma moça
Com o nome de Maria
Que gritou “minha sacola!”
Agora ninguém me enrola
“Esse ladrão já expia”  

O Zé já sem alegria 
Meteu o Pé na carreira
Com a policia e Maria
Atrás feito estribeira 
Zé se dizia inocente
Pois um cidadão não mente
Nem comete essa besteira

Sem ouvir a choradeira
O guarda corria atrás 
Queria prender o Zé
Não daria trégua mais
Até que o Zé cansou
E chorando se humilhou
Pedindo Acordo de paz

“A justiça julgarás”
Disse a autoridade
Foi quando chegou Maria
E percebeu a maldade
Que fizera com inocente
Que era um rapaz decente
E ia pra trás das grades

Foi na curiosidade
Que percebeu o bandido
Era o tal de João Felipe
Atrás do poste escondido
Aí Maria gritou 
O guarda se apavorou
E correu aborrecido

Correram aborrecidos
O Guarda, Maria e Zé
Pra pegar o João Felipe
Mais o ladrão deu no pé
E ao perceber um muro
Resolver dá logo um pulo
Se safar num cangapé

Ao cair quase de pé
 Surpresa e decepção
Tinha dois policiais
Esperando o ladrão
Percebeu que aquele muro
O deixava em apuros
Era o muro da prisão

A sua desatenção
Deixou a situação feia
Não percebeu que sua fuga
Acabava na cadeia
Agora tava de vez
Morando lá no Xadrez
Com medo do mói de pêia

E o Zé esbadeia
Com a nova companhia
Nosso herói se deu de bem
 Namorando com Maria
Conseguiu felicidade
Com a sua honestidade
Só vive na alegria

Acaba com honraria 
O causo de Zé Firmino
Mas é só mais uma historia
Pra lembrar do desatino
De quem vai pro lado errado
E acaba esfolado
Pelo seu próprio destino

Livre estava Zé Firmino
João Felipe atrás das grades
É assim que terminou
Essa historia de verdade
Pra mostrar pra esse povo
Que quem se ferra de novo 
É quem age com maldade

Por isso que honestidade
Nunca fez mal a ninguém
O Zé lutou pela paz
E nunca enganou também
Sabendo que o bom caminho
Apesar de seus espinhos 
É o caminho do bem. 

Wescley Pinheiro

--
* Vídeo realizado como exercício na Oficina de Audiovisual do Projeto Protejo - Núcleo Bom Jardim - Fortaleza-CE Ano 2010 com jovens de 15 a 24 anos daquele bairro. A oficina foi de 8 dias, constava com um panorama dos conceitos básicos do audiovisual, introdução a linguagem, iniciação prática com novas mídias e análise fílmica. A qualidade do vídeo original era muito melhor, mas uma tragédia com o meu computador fez com que eu perdesse os arquivos. Direção e texto foi minha: Wescley Pinheiro. O roteiro e atuação de toda a turma.
O PROTEJO foi um Projeto dentro do PRONASCI do Ministério da Justiça com parceria da Guarda Municipal de Fortaleza, executado junto com o Núcleo de Pesquisas Sociais da UECE do qual fui bolsista.

terça-feira, 23 de abril de 2013

A Coisa


A COISA: “Jovens encontram uma coisa estranha no chão. O que seria?"


Segue agora uma produção momintiriana que quase ninguém conhece. Tirando da gaveta um vídeo realizado como exercício na Oficina de Audiovisual do Projeto Protejo - Núcleo Bom Jardim - Fortaleza-CE Ano 2010 do qual orgulhosamente fiz parte, junto com jovens de 15 a 24 anos daquele bairro. Esse pequeno vídeo é incapaz de mostrar o quão aquela experiência foi desafiadora e importante. Agradeço imensamente ao NUPES pela vivência daquilo tudo.

A oficina foi de uns 8 dias e constava com um mero panorama em conceitos básicos do audiovisual, introdução a linguagem, iniciação prática com novas mídias e análise fílmica. A qualidade do vídeo original era muito melhor, mas uma tragédia com o meu computador fez com que eu perdesse os arquivos.
Direção e edição foi minha: Wescley Pinheiro
O roteiro e atuação de toda a turma.

O PROTEJO foi um Projeto dentro do PRONASCI do Ministério da Justiça com parceria da Guarda Municipal de Fortaleza, executado junto com o Núcleo de Pesquisas Sociais da UECE do qual fui bolsista.







domingo, 14 de abril de 2013

No Fiapo indica: Aperte O Alt!


Olá amigos!
Decidi que abrirei uma seção aqui nesse meu lugarejo virtual para colocar algumas dicas do que leio no ciberespaço. A intenção é trazer para aqueles que não conhecem os divers@s autores de qualidade que temos por aqui e não prestamos atenção. Essa iniciativa visa também dinamizar isso daqui, visto que a correria do dia-dia torna difícil a (já nada fácil) empreitada criativa desse pequeno e iniciante escriba que vos fala tão despretensiosamente.

Sei... não sou um grande escritor, estou aqui exercitando, em formação, brincando, errando e acertando e adoro quando recebo uma boa crítica ou um incentivo, quando divulgam, quando indicam, quando dizem que há algum sentido nisso tudo. Foi assim que me convenceram a escrever.

Sei também que é muito legal ler e compartilhar por aí trechos de noss@s grandes escritores e coisa e tal, mas abrir-se para o novo, para as letras de gente viva, gente do nosso tempo e que pode está do nosso lado pode ser uma experiência incrível! É óbvio também que nessa terra de ninguém e de todo mundo que é a internet tem muita coisa de qualidade duvidosa, mas a intenção é justamente dar vazão ao potencial, ao talento, a qualidade que podemos garimpar por aqui, nessa maneira de fazer arte, de espalhá-la e de buscar um lugar ao sol num tempo e num lugar que, cá pra nós, não valoriza a literatura como deveria.

Dito isso, digo que nessa seção encontrarão autores iniciantes, autores publicados, geniais, outros nem tanto, mas todos com algum talento e, sobretudo, textos que me chamaram atenção em algo, ou seja, um critério mais subjetivo do que técnico (nem tenho competência para tal). 

Inauguro essa seção indicando um blog que conheci há muito tempo, que acompanho com certa frequência e que de certa forma me estimulou a alimentar meu blog de maneira mais séria. O blog que indico hoje já  é consagrado e referência! Falo do “Aperte o Alt” do talentoso Renato Alt que traz (entre outras coisas) pequenos e valiosos textos em prosa que encantam, prendem a atenção e fazem pensar.

Salvo o engano, conheci o “Aperte o Alt” por via de um blog de humor ,o kibeloco.  Com uma referência tão escrachada, entrei de maneira tão despretensiosa, quanto foi minha surpresa com o conteúdo simples e denso que Alt me trazia. Li compulsivamente e tive vontade de escrever também, senti-me estimulado.

Não é por acaso que o blog já ganhou alguns prêmios e é um dos mais visitados do gênero. Renato Alt é versátil, vai da densidade à descrição do cotidiano em seus textos sem nenhum esforço maior. Sua variedade aparece também no contraste de suas temáticas e estilos no blog quando comparadas com as hilárias tiradas nas frases do twitter e facebook.


No limiar da rapidez da vida, sobretudo da internet, acabo não acompanhando tão regularmente os textos, mas sempre que posso volto, descubro e redescubro coisas incríveis.

Por isso indico: leiam o "Aperte o Alt"! http://aperteoalt.com.br

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Bruto



Espectro culto
Especulo o verso astuto

Espetáculo
Simples sepulcro
Um verso, um voto
Um vulto

terça-feira, 2 de abril de 2013

Revolta!


Correram sem direção
Sem sangue nos olhos
Com pedras nas mãos:

“É tara! É tora! É tiro!”
Marcharam... murcharam!
Um belo suspiro
Durou um segundo
Pois não decidiram
Dilema profundo:
"Mudar de emprego
Ou mudar o mundo?"

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Receita


Dentro da gaveta
Trocado por um medo raro
O cara comprou regozijo
Curado de cara e tão caro
Nos dentes de um nobre capeta

Feliz...
Até o último tarja preta!

sexta-feira, 29 de março de 2013

No Fiapo - Blog - Página no Facebook


Eu podia tá matando, eu podia tá roubando, mas to aqui divulgando a página no facebook desse humilde e limpinho blog: http://www.facebook.com/NoFiapo

Como quase todo mundo só vive de/no/com/para facebook resolvi criar uma página para o NoFiapo meu blog-laboratório-gaveta-pessoal de poesias e prosas.

Muita gente acompanha os textos no blog, alguns outros no meu perfil pessoal. Aqui ficará mais fácil de divulgar minhas ousadias. Se gostarem, desgostarem mas mesmo assim acompanharem ou se tiverem ao menos curiosidade curtam, compartilhem a página e os textos e comentem!

Nunca me considerei escritor. Na verdade não me considero (não um bom pelo menos). Mas de tanto me dizerem (e era gente que entende disso) que o que eu escrevia era bom, que eu tinha sim potencial artístico, eu fui me atrevendo a mostrar para outras pessoas e essas foram gostando e compartilhando e eu fui acreditando nesse povo.

Nesses poucos anos de aventuras poéticas, algumas seleções em concursos literários, participação no livro III Antologia do Bar do Escritor e quase dez mil acessos no blog tenho me considerado um escritor em formação. Se daqui a uns 15 anos eu tiver com algumas coisas escritas muito boas o meu atrevimento valeu a pena.



No Fiapo é pura pretensão de uma arte simples e despretensiosa.
fi.a.po sm (de fio) 1 Fio tênue. 2 pop Quantidade ou porção insignificante... "O coletivo de um homem só, falando do nada e pra ninguém..."

Wescley Pinheiro

quinta-feira, 28 de março de 2013

O Reino das Onças Pretas


Não parecia, mas era sim um local especial, um reino onde atravessaram muitos habitantes que com suas missões e percalços fizeram dali um canto peculiar. Patos, bodes, cururus, galos, galinhas, urubus, pavões e cobras encontravam-se nos anais de nobres barões do solo arado e da poeira constante que encobria tanta dor e magia. O antigo riacho avermelhado propagava a maldição de uma terra que haveria de ser vivida em sangue, suor e lágrimas, mas nada disso tirava a felicidade inerente de suas vielas. As tocas das onças abandonadas davam lugar aos ninhos, repletos de luxo e alegria, espalhados nos buracos do chão árido ou nos galhos das oiticicas, enquanto nos grandes e apertados currais milhares de ovelhas se amontoavam e viviam contentes sem saber por quê. Esse era o maravilhoso Reino das Onças Pretas!

Diziam os mais antigos que essa terra havia nascido pelo avesso. “E terra nasce?” – perguntou um desavisado  – as coisas por ali não tinham muita lógica mesmo. Era um pequeno reino, muito, muito pequeno. Na verdade, só quem acreditava que aquilo ali era um reino eram os próprios habitantes dele, pois esse reino tão pequenino se encontrava dentro de outros reinos muito maiores, poderosos e ricos, o que o tornava uma parte quase insignificante quando olhava-se de fora.

A terra um dia muita seca, agora regada por bastante água, continuava a não fornecer tantos frutos assim  e estranhamente ainda morriam de sede boa parte dos habitantes. O sol escaldante permanecia tomando conta do lugar, aliás, o suor era uma das coisas mais democráticas dali. Servos, plebeus, nobres e reis, todos e todas suavam muito, alguns de tanto trabalhar naquele calor característico, outros ao cumprirem a função natural dos brindes diários e darem suas goladas com as mais populares bebidas - atividade para lá de cansativa - diria muitos dos habitantes do belo lugarejo. Essa era a crença daqueles fartos e sortudos viventes dos ninhos e também dos sedentos moradores dos currais. Não era um lugar ruim, nem os seres que ali estavam eram de má índole, todos só acreditavam cumprir seu papel no roteiro destinado seja lá por quem.

Era um reino diverso, mas todos tinham hora, lugar e função específica. A disciplina com a manutenção de tudo era tida como natural até no caos, na farra, na festa e na disputa que se avizinhava em tempos como aqueles dentro da Corte. E diferenças nos seres vivos era algo que não faltava ali, tinha de tudo, no entanto um curioso elemento era evidente: aquelas que davam nome ao lugar estavam vez mais raras até na memória dos mais antigos. As temíveis e belas onças pretas de outrora, antes tão numerosas, caíram em ameaça de extinção, tornaram-se inofensivas ante a esperteza dos répteis e das aves e seus talentos infindáveis de transformar todas as outras espécies em ovelhas obedientes, presas em seus currais. O tempo não era de onças com aquela rapidez e ousadia peculiar, o tempo era de encantamento com belas plumas ou de curvatura resignada para  as perspicácias daqueles que rastejavam sobre solo fervente. Onças e suas rebeldias nunca foram tão eficazes na dinâmica da Corte que há muito tempo já se consolidava na rivalidade de répteis e aves.

Para ser bem específico, apenas uma onça velha e maltrapilha vivia em meio àquelas aves que não tinham grande capacidade voo, mas que cultivavam a inveja alheia pela postura elegante e pelo rabo robusto, e daqueles répteis não venenosos, mas com o talento da asfixia inato dessa espécie, determinando admiração pelo seu bailar rasteiro cheio de capricho. Sob o céu e sobre a terra, qualquer aparente dissidência na região da Corte Real era apenas um novo adorno de penas aqui, uma troca de pele acolá, fazendo com que as espécies que orbitavam o lugar lembrassem que o tempo das feras selvagens deveria ficar apenas no folclore e nas histórias de trancoso.
   
Havia algo mágico ali que os colocavam para dentro de uma trama obsessiva. O jogo constante era a dinâmica do reino que através da ludicidade vivenciava seus dilemas e contradições, ao passo que decidia sua organização num carnaval ou numa gincana animalesca que ninguém nunca abriu mão. Reinar ali era brincar dentro da Corte para animar o curral - "céu para as aves, terra para os répteis e animação para os outros animais" - assim era ensinado para todos e todas que ali chegavam.

Como já era esperado nas épocas do festejo sagrado, os últimos dias foram de grande movimentação. Na ala dos plebeus tudo continuava igual. Aliás, disso não se podia reclamar. Num reino que não gostava de mudanças os diversos imbróglios no pequeno e aparentemente heterogêneo grupo da corte nunca alterou de forma significativa a vida daqueles que só suavam nos pormenores da labuta. Difícil mesmo era a vida na região dos Castelos - “Tantas dificuldades, confusões, confabulações, tanto fardo político para carregar” – pensava um - “Nossa, não era à toa a dificuldade de um Rei se segurar no trono” – outro garantia!

E assim a vida se arrastava pelo caminhar do sol e da lua por tempos e tempos.  Na movimentação alegórica tradicional lá estavam eles de novo, os de sempre, nos mesmos papéis: A velha troca de acusações, as mesmas parábolas e anedotas, a tentativa de impressionar os servos que de longe assistiam o siricutico dos bichos no espetáculo perene, com ápices naqueles esperados roteiros dos períodos bianuais. Era hora da agitação! Músicas, números artísticos com animais adestrados, ora aves vistosas, ora répteis rastejantes faziam da Corte um local diferente do cotidiano e aquilo sempre deixava o curral ensandecido!

No limiar das projeções daquela exótica Corte, aquela única onça permanecia no picadeiro real. Estava no meio dos outros animais, vivia de maneira curiosa, vestida de palhaça, sempre silenciosa, acuada, era vista ora com desprezo, ora com curiosidade pela fauna hegemônica dali. Nos dias do cume das farsas tradicionais, eis que ela, maltrapilha, de roupa colorida, maquiagem no rosto e com um chapéu pra lá de jocoso resolveu descer do palco e deixar que o imbróglio fosse protagonizado pelos verdadeiros astros, um espetáculo muito complexo, cômico e dramático ao mesmo tempo.

Sob o olhar surpreso das ovelhas, a onça caminhava observando o palco onde os nobre seres da Corte experimentavam seus papéis tão repetidos, mas que para aquele rebanho parecia tão novo. E era realmente curioso como avós, pais, filhos, netos e todas as outras gerações de répteis e aves se engalfinhavam sob as mais diferentes desculpas. “Reforma, contrarreforma, revolução”  de tudo já se havia feito uso, nada mudara, aliás, vez por outra se modificou os nomes (mas nunca os sobrenomes) das dinastias que sentavam na cadeira central. Naquela guerra de foice valia de tudo: Rasteiras, puxões de cabelo, fatos e boatos! Na revolução dos bichos do Reino das Onças Pretas mudar algo só se fosse para permanecer igual, esse era o lema.

Cansada da posição inerte, a onça juntou-se às ovelhas do curral e de lá observou as pérfidas querelas, o rastejar das convicções, os voos rasos dos sonhos egoístas. Constatou como todo o carnaval de disputa da Corte era um jogo falho para o reino e perspicaz para os reis, percebeu como o reino que levava seu nome nunca fora seu, primeiro porque sempre houveram mais ovelhas do que quaisquer outras espécies ali. Depois porque a sina predatória de quem estava naquela Corte transcendia a cadeia alimentar e asseverava o que havia de mais intenso no somatório das selvas e reinos maiores, pois as relações que ali se reproduziam já não tinham muito com o que se reivindicava natural.

A onça descobriu os motivos de como ela e suas irmãs foram vencida e como todo aquele rebanho nunca se rebelou. Nesse momento viu todo o seu corpo desbotar, suas garras caírem, suas presas encolherem, viu surgir uma pele clara, peluda, grossa e macia: A onça berrou! O berro que deixou todos ali assustados era a revelação de que aquelas onças do passado sempre foram na verdade lindas e dóceis ovelhas como outras quaisquer.

Era o momento do diagnóstico real de que nunca houve sequer uma concreta resistência ao espetáculo da Corte opressora que reproduzia sua lógica desde sempre. Era essa a essência daquele lugar: O Reino das Onças Pretas que nunca foi das onças, de onças que nunca foram o que acharam ser e de reis voadores e rastejantes que se perpetuaram ao longo do tempo por meio do riso raso e do choro largo, da ilusão daqueles que acreditaram ser possível reinar e prosperar na mentira e na dor. A onça, agora ovelha, lembrou de sua roupa de palhaça e, por um instante, esboçou um tímido e tenso sorriso para sua intuição, para a compreensão do papel crucial de sua história ali, até então vista como tragédia,  agora revelada como uma farsa vital para a capilarização dos contos e anedotas que fizeram do reino um lugar  magicamente pueril. 

Ainda assustada com sua percepção, percebeu também que aquelas aves e répteis misturavam irracionalidade selvagem com hipocrisia real para ludibriar as ovelhas em divisões inexistentes, vilipendiando as motivações daquele cotidiano tão pequeno em festas pobres, em rezas curtas e em esmolas poucas. Continuando a raciocinar, a antiga onça concluiu que se ela e suas antepassadas eram também ovelhas e as aves e répteis da Corte Real eram tão mais iguais que genuinamente divergentes, talvez pudessem todos ali serem, afinal, da mesma espécie.

Pensando que todas aquelas desigualdades ali presentes poderiam ter sido uma obra construída ao longo do tempo e, assim, com uma natureza perecível, percebeu que o Reino das Onças Pretas iria continuar sua sina até o dia em que as ovelhas também alcançassem o entendimento de que não mais poderia haver répteis, aves ou onças que pudessem dominar um rebanho que perde o medo de mudar, de tomar suas rédeas, de quebrá-las ao meio, de romper as cercas dos currais para demolir o circo falso e indigno das Cortes Reais e ainda poder não se contentar apenas com a transformação de um lugarejo, mas sim buscar a vivência na propagação profunda, para além das raízes das oiticicas, dos oitões das porteiras e das estradas de terras dali, transformando o riacho maldito em testemunha da luta, no relato vivo e sangrento de que boas ovelhas berram dissonantes e que o tempo de encantar-se com o reinado alheio havia de ser superado.

Enquanto constatava e sonhava, o seu vislumbre foi interrompido por um tumulto espetacular: um desfile barulhento e massivo. Carroças e carruagens em linhas paralelas riscavam o chão de todo o reino numa velocidade incrível, nelas, aves e répteis novamente insultavam-se mutuamente, enquanto as ovelhas vibravam extasiadas ao passo que faziam uma força descomunal puxando sem cessar os veículos dos seres nobres a fim de que cada espécie real pudesse vencer a tradicional corrida.

Fitando aquela cena, a antiga onça sabia que ainda haveria muito tempo para que suas constatações se ratificassem na massa daqueles currais. Ela bem sabia que até lá sangue, suor e lágrimas banhariam mais aquele chão do que as águas tão belas e já não mais raras ali, sabia que muitas corridas e carnavais seriam feitos com os mesmos vencedores e perdedores de sempre. Aves e répteis tão díspares, tão inimigas entre si, agradeciam abraçadas nos calabouços dos castelos ao perceberem tal prognóstico: O tempo de reinados rasos e rasteiros no Reino das Onças Pretas estava garantido entre guerras e festas por séculos e séculos.

A Corte dizia amém (e o curral também).



"céu para as aves, terra para os répteis e animação para os outros animais".

segunda-feira, 25 de março de 2013

Maturidade



É olhar no olho do abismo
Tremer, mas não sucumbir
É aprender com o trem da vida
Com o fim da linha
Com a linha do fim

segunda-feira, 18 de março de 2013

Pesadelo


As palavras como marcas
O silêncio como lágrima
E a dor como cor
Do Karma