sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Seca


Um pingo cai
Escorre
Molha timidamente
Mas a terra rachada não o reconhece
O mato moribundo não o reconhece
O ar abafado o despreza

Não há mormaço
Nem nuvens no céu
A água é salgada, pouca
E desce de um olho
Aguando a dor e o desespero
De ser tão
Sertão

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Poser


Poeta de pose
Poeta de pó
Poeta de doze
Poeta de dose
Poeta de dó

Uma-nota-só

domingo, 23 de dezembro de 2012

Amém


Do carrasco
Tenho asco

Pego sua língua
Faço Churrasco
Em suas pragas
Eu jogo água
E cheiro o mormaço

De suas preces
Eu dou risada
E fico bem

De sua jornada
Faço piada
E digo amém

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Quero


Quero uma sopa de letrinhas
Temperada com lirismo
Pra cozinhar os meus versos
Na fogueira das vaidades
Quero embebedar-me de sonhos
Cambalear-me em rimas
Ressaquear a saudade
Amarga, num fim de tarde
Quero a ebriedade
Para depois vomitar
Tudo aquilo que alucina
E doses dessa verdade

Não quero as frases de defeitos
Nem nossos ditos ditados
Quero que falem os calos
Que calem os falos
E que o doce pós-banquete
Lambuze-me de ousadia
Quero tudo e quero o nada
Beber a noite, comer o dia
E vomitar madrugada

Quero que destilem em meu sangue
Gotas de versos ardentes
Que fermentem em meu espírito
O não-lugar mais bonito
Onde o que reluz é couro
E o que é louro não brilha

Quero a linha do horizonte
Pra costurar meu poema
Vou escrevê-lo com os pés
E recitá-lo com as mãos

sábado, 27 de outubro de 2012

Gonzagas



Como contar a história de dois artistas incríveis, de um pai ex-militar, de um filho de esquerda, de um pai autoritário e ausente, de um filho revoltado e rancoroso? Como contar uma história de homens tão marcantes para a arte desse país?

Quando vi o trailler já me arrepiei com a caracterização do ator que interpretou Gonzaguinha, desde então esperei a estreia desse filme de dois personagens impressionantes. Hoje vi o filme e não me arrependi, fui coberto pela mais intensa chuva de sentimentos que essa junção de drama familiar, biografia de dois grandes artistas e espetáculo de música de qualidade dentro de uma obra audiovisual muito peculiar por esse desafio descomunal que a própria historia que propôs contar proporcionou.

O filme Gonzaga é emoção a flor da pele. Quem é fã de um ou de outro, ou de ambos não tem como não se emocionar. A complexidade de tais personagens, as contradições, os conflitos, os talentos singulares nos envolvem como a sanfona de um e o violão de outro. As diferenças e semelhanças, a construção de mitos e a desconstrução “humanizadora” com os defeitos de um Rei e as mágoas de um Príncipe, entre ausências e erros, a admiração, a arte e a superação.

O triunfo do sertão, a maestria da luta do povo, a sagacidade da cultura popular, a poesia de quem sonha outro mundo, os limites e as possibilidades, perpassadas, transformadas, contrariadas em artistas de tempos e espaços distintos, pai e filho, ao encontro e de encontro por aspectos universais, por cisões materializadas em conflitos singulares, de homens, artistas, pai, filho. O acerto de contas entre eles, dois gênios, aflorou o orgulho que tenho de ambos. A identificação estética e cultural com o pai, a identificação artística e política com o filho e uma confissão minha aqui de ter ficado com um gostinho de poder ter visto mais da trajetória, seus sonhos, suas bandeiras do Gonzaga filho, mesmo que dentro do contexto abordado tais construções tenham contemplado isso também.

O filme está à altura de sua história? Digo com toda certeza que não! Acho até que seria impossível fazer algo próximo de chegar à história tanto de Luiz Gonzaga, como de Gonzaguinha. Tarefa difícil também retratar a amplitude artística de ambos e, por último, uma relação familiar tão intensa e cheia de sentimentos dos mais diversos, mas nada disso tira o brilhantismo da obra, posto que ela chega até onde qualquer um que não seja um dos dois Gonzagas conseguiria chegar. A despeito de alguns clichês e do drama quase constante, gargalhadas aparecem, sorrisos de canto de boca, uma nostalgia bonita, seja da cultura popular tão ataca e massificada hoje em dia, seja pela saudade, pelas saudades dos artistas, do artista que é gente e do artista que é luta.

Não tem como não se emocionar com dois personagens tão incríveis, não tem como não se vê em seus conflitos como pessoas, nem tem como não admirar o sertanejo Seu Januário e ainda não se lembrar do legado dos mesmos e de sua família que ainda hoje canta com suas semelhanças e seus ineditismos tão peculiares e evidentes naquela prole.

Os Gonzagas já me encantavam e me emocionavam, cada um de  sua forma. Vê-los magicamente juntos, conversando, brigando, rindo, chorando e cantando foi estado de graça. Só a arte, só a música e só o cinema para proporcionar isso tudo aqui e agora!

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Fiz



E fiz da luta força
E fiz da terra moça
E fiz da guerra puta
Fiz da labuta louca
E da disputa entrega
E fiz para ser livre

Mas Liberdade
Também tem suas regras

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Quatro horas



Tino e Destino
Se atracam em desatino
Já é dia
E não há sol

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Nós



Não estou falando de sangue
De algo naturalizado
Nem de DNA, nem de tradições
Nem de preces e sermões
Falo de nós

Falo dos elos
Singelos
Apertados em calmaria
Nos desejos paralelos
Em tristezas e alegrias

Não falo da nostalgia
Falo dos sonhos roubados
Dos pecados perdoados
Falo dos aprendizados
Do eterno construir
Sim, falo do passado
Do presente (e do ausente)
Falo do devir

Falo dos nós
No cordão do inesperado
Dos desafios lançados
Do olho do furacão
Do alicerce  testado
Firmando-se em decisão

Falo dessa compaixão
De algo maior que o sangue
Muito mais que sobrenome
Falo do que somos: Nós
Somos juntos e somos sós

Nós
Difíceis de desatar
Tão distintos e tão únicos
Mas com a capacidade de ser
De sermos
Juntos
De sermos muitos
Entrelaçados e abraçados
Sempre atentos, em vigília
Diferentes entre si
E ainda uma Família


Para meus pais Beto e Lídia e meu irmão Pacato 

terça-feira, 4 de setembro de 2012

POETA

Assim
Sagaz

Só Góes



Pequena homenagem do fã aqui  a uma referência, Poeta dos bons: Múcio Góeshttp://www.facebook.com/photo.php?fbid=279187212190520&set=a.108457535930156.15133.100002977317102&type=3&theater

terça-feira, 28 de agosto de 2012

A Sina do Histrião


(Essa é a sina
Do histrião
Que usa a risada
Como espada
E Faz piada
Contra opressão)

Amordaçaram
O palhaço louco
Que fazia pouco
Daquele opressor
E torturam,
Rasgaram seu corpo
Só porque ousou
Rir de tanta dor

O espancaram,
Tiraram do palco
O pobre palhaço
Que quis ser bufão
E ele torto
Fingiu-se de morto
E deu um sorriso
De subversão

(Essa é a sina
Do histrião
Que usa a risada
Como espada
E faz piada
Contra opressão)

Conta anedota
Segue a rota
Fazendo chacota
Do grande opressor
Ele é artista
Truão terrorista
Com bomba humorística
Explode o terror

Nosso palhaço
Bobo-da-corte
Xingou o açoite
E pôs-se a sorrir
E no deboche
Curou-se dos cortes
Fez pouco da morte
Resolveu partir

O tal opressor
Não entendeu nada
Como a palhaçada
Não pode acabar
Sendo a piada
A arma ilibada
Que mira na alma
Ao te alvejar

E o palhaço
De ponta-cabeça
Corre, pula e deita
No seu picadeiro
Fazendo pouco
Até ficar rouco
Compondo a vida
Peça sem roteiro:

Dores depois
Amores primeiro

sábado, 25 de agosto de 2012

A Ave de Minerva


Sonhos em vão
Tortos problemas
Bolo de pena
Voa (aparentemente) serena
Ossos e ócios na madrugada
Ela vinha, ela voa
Ateia, à toa
Tarda

Enquanto eu fito
Calo e reflito:
Pare com isto
Fogo de palha!
Voe mais alto
E nunca mais fuja
Tu és coruja
Preste atenção
Rasga-mortalha,
Não!

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Estante



Discos
Com refrãos e firulas
Folhas com rabiscos
(E censuras )
Estiletes e bilhetes
Lembranças boas
(algumas duras)

Berimbelos da Índia
(Pra dar sorte)
Aparelhos e bilotos
Lá do norte
E alguns livros velhos
Cor-de-morte

E que ninguém nunca leu

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Fronte


Quando o antídoto do veneno do cinismo
E o limiar das baionetas da maldade
Se fundamentam em valores e verdades
Não há receio ao bradarmos na disputa
Se nos espera sempre em frente a vil conduta
Que seja a luta nosso norte permanente
Que seja a cor dessa coragem a semente
Para fazer de nossa ação mais forte e viva
Ao colocar nessas feridas os nossos dedos
Pois quando não há mais nenhuma expectativa
Não há medo

sexta-feira, 27 de julho de 2012

O PATO E O PINTO (OU ESQUIZOFRENIA ELEITORAL GRATUITA)


Havia um pato faminto
Havia um pinto gaiato

O pato pacato
O pinto sucinto
Viviam brigando
No labirinto

Pato e pinto
Tão concorrentes
Quanto distintos
Pinto e pato
Feito cão
Feito gato
Dando patadas
Dando pintadas
No abstrato

E assim deu-se o ato:
O pinto bicou o pato
O pato bateu no pinto
O pato pintou o pinto
E pinto pagou o pato

Até que o Pinto disse:
- Não minto!
E o Pato lhe retrucou:
- Não mato!
E o Pinto junto do Pato
Por um mandato
E o Pato junto do Pinto
Contrato extinto
Gritaram: - Sinto muito! Muito sinto!

Pinto e pato
Caminharam em ultimato
Dentro daquele recinto
Para o fim
Para o prato
Pato e pinto
Tão contentes
Quanto indistintos
Pinto e pato
Feito chão
Feito ratos
Dando patadas
Dando pintadas
No abstrato

Pato e Pinto
Amando-se no labirinto
Pinto e pato
Cozidos, casados
Traídos, tratados
Carrapichos, carrapatos
Famintos, gaiatos

Tristes fatos

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Sina



Mal sabiam
Que o deixando com fome
Alimentavam um monstro