1. Uma gaveta pública cheia de rascunhos.
2. fi.a.po sm (de fio) 1 Fio tênue. 2 pop Quantidade ou porção insignificante...
3."O coletivo de um homem só, falando do nada e pra ninguém..."
Quero uma sopa de letrinhas
Temperada com lirismo
Pra cozinhar os meus versos
Na fogueira das vaidades
Quero embebedar-me de sonhos
Cambalear-me em rimas
Ressaquear a saudade
Amarga, num fim de tarde
Quero a ebriedade
Para depois vomitar
Tudo aquilo que alucina
E doses dessa verdade
Não quero as frases de defeitos
Nem nossos ditos ditados
Quero que falem os calos
Que calem os falos
E que o doce pós-banquete
Lambuze-me de ousadia
Quero tudo e quero o nada
Beber a noite, comer o dia
E vomitar madrugada
Quero que destilem em meu sangue
Gotas de versos ardentes
Que fermentem em meu espírito
O não-lugar mais bonito
Onde o que reluz é couro
E o que é louro não brilha
Quero a linha do horizonte
Pra costurar meu poema
Vou escrevê-lo com os pés
E recitá-lo com as mãos
Como contar a história de dois artistas incríveis, de um pai ex-militar, de um filho de esquerda, de um pai autoritário e ausente, de um filho revoltado e rancoroso? Como contar uma história de homens tão marcantes para a arte desse país?
Quando vi o trailler já me arrepiei com a caracterização do ator que interpretou Gonzaguinha, desde então esperei a estreia desse filme de dois personagens impressionantes. Hoje vi o filme e não me arrependi, fui coberto pela mais intensa chuva de sentimentos que essa junção de drama familiar, biografia de dois grandes artistas e espetáculo de música de qualidade dentro de uma obra audiovisual muito peculiar por esse desafio descomunal que a própria historia que propôs contar proporcionou.
O filme Gonzaga é emoção a flor da pele. Quem é fã de um ou de outro, ou de ambos não tem como não se emocionar. A complexidade de tais personagens, as contradições, os conflitos, os talentos singulares nos envolvem como a sanfona de um e o violão de outro. As diferenças e semelhanças, a construção de mitos e a desconstrução “humanizadora” com os defeitos de um Rei e as mágoas de um Príncipe, entre ausências e erros, a admiração, a arte e a superação.
O triunfo do sertão, a maestria da luta do povo, a sagacidade da cultura popular, a poesia de quem sonha outro mundo, os limites e as possibilidades, perpassadas, transformadas, contrariadas em artistas de tempos e espaços distintos, pai e filho, ao encontro e de encontro por aspectos universais, por cisões materializadas em conflitos singulares, de homens, artistas, pai, filho. O acerto de contas entre eles, dois gênios, aflorou o orgulho que tenho de ambos. A identificação estética e cultural com o pai, a identificação artística e política com o filho e uma confissão minha aqui de ter ficado com um gostinho de poder ter visto mais da trajetória, seus sonhos, suas bandeiras do Gonzaga filho, mesmo que dentro do contexto abordado tais construções tenham contemplado isso também.
O filme está à altura de sua história? Digo com toda certeza que não! Acho até que seria impossível fazer algo próximo de chegar à história tanto de Luiz Gonzaga, como de Gonzaguinha. Tarefa difícil também retratar a amplitude artística de ambos e, por último, uma relação familiar tão intensa e cheia de sentimentos dos mais diversos, mas nada disso tira o brilhantismo da obra, posto que ela chega até onde qualquer um que não seja um dos dois Gonzagas conseguiria chegar. A despeito de alguns clichês e do drama quase constante, gargalhadas aparecem, sorrisos de canto de boca, uma nostalgia bonita, seja da cultura popular tão ataca e massificada hoje em dia, seja pela saudade, pelas saudades dos artistas, do artista que é gente e do artista que é luta.
Não tem como não se emocionar com dois personagens tão incríveis, não tem como não se vê em seus conflitos como pessoas, nem tem como não admirar o sertanejo Seu Januário e ainda não se lembrar do legado dos mesmos e de sua família que ainda hoje canta com suas semelhanças e seus ineditismos tão peculiares e evidentes naquela prole.
Os Gonzagas já me encantavam e me emocionavam, cada um de sua forma. Vê-los magicamente juntos, conversando, brigando, rindo, chorando e cantando foi estado de graça. Só a arte, só a música e só o cinema para proporcionar isso tudo aqui e agora!
Não estou falando de sangue
De algo naturalizado
Nem de DNA, nem de tradições
Nem de preces e sermões
Falo de nós
Falo dos elos
Singelos
Apertados em calmaria
Nos desejos paralelos
Em tristezas e alegrias
Não falo da nostalgia
Falo dos sonhos roubados
Dos pecados perdoados
Falo dos aprendizados
Do eterno construir
Sim, falo do passado
Do presente (e do ausente)
Falo do devir
Falo dos nós
No cordão do inesperado
Dos desafios lançados
Do olho do furacão
Do alicerce testado
Firmando-se em decisão
Falo dessa compaixão
De algo maior que o sangue
Muito mais que sobrenome
Falo do que somos: Nós
Somos juntos e somos sós
Nós
Difíceis de desatar
Tão distintos e tão únicos
Mas com a capacidade de ser
De sermos
Juntos
De sermos muitos
Entrelaçados e abraçados
Sempre atentos, em vigília
Diferentes entre si
E ainda uma Família
Quando o antídoto do veneno do cinismo
E o limiar das baionetas da maldade
Se fundamentam em valores e verdades
Não há receio ao bradarmos na disputa
Se nos espera sempre em frente a vil conduta
Que seja a luta nosso norte permanente
Que seja a cor dessa coragem a semente
Para fazer de nossa ação mais forte e viva
Ao colocar nessas feridas os nossos dedos
Pois quando não há mais nenhuma expectativa
Não há medo
O pato pacato
O pinto sucinto
Viviam brigando
No labirinto
Pato e pinto
Tão concorrentes
Quanto distintos
Pinto e pato
Feito cão
Feito gato
Dando patadas
Dando pintadas
No abstrato
E assim deu-se o ato:
O pinto bicou o pato
O pato bateu no pinto
O pato pintou o pinto
E pinto pagou o pato
Até que o Pinto disse:
- Não minto!
E o Pato lhe retrucou:
- Não mato!
E o Pinto junto do Pato
Por um mandato
E o Pato junto do Pinto
Contrato extinto
Gritaram: - Sinto muito! Muito sinto!
Pinto e pato
Caminharam em ultimato
Dentro daquele recinto
Para o fim
Para o prato
Pato e pinto
Tão contentes
Quanto indistintos
Pinto e pato
Feito chão
Feito ratos
Dando patadas
Dando pintadas
No abstrato
Pato e Pinto
Amando-se no labirinto
Pinto e pato
Cozidos, casados
Traídos, tratados
Carrapichos, carrapatos
Famintos, gaiatos