Não me pergunte sobre meu dia
Sobre esse trêmulo sol que me queima
Com o capricho agonizante
De quem já não teima em sonhar
Não me pergunte sobre minha noite
Obscura e em claro
Sobre meu peito rasgado
Por minha voz que calei
Pergunte-me sobre esse silêncio
Posto que é semente
Plantada por outros
Regada conosco
No centro de meu jardim
Pergunte-me sobre o silêncio
Um verso torto
Morto
Escorraçado
Cavalo alado
Que voa em mim
Esse silêncio é fiapo
Trapo de rima
Dependurado
Num fio cortado
Na estrofe do fim
É passado e é devir
Máscara de dor
Que eleva o medo
E sucumbe o desejo
De quem queria um abraço
E não precisa pedir
O silêncio é desamor
Palavra não dita
Que quer perdão
Seria consolação
Se pudesse ser quebrado
Pois tudo que quer és tu
Ao lado
Com olhos de aceitação
Esse silêncio é um grito
Aflito
Talvez em vão
Talvez
Não
1. Uma gaveta pública cheia de rascunhos. 2. fi.a.po sm (de fio) 1 Fio tênue. 2 pop Quantidade ou porção insignificante... 3."O coletivo de um homem só, falando do nada e pra ninguém..."
terça-feira, 22 de maio de 2012
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Finito
Odeio o ponto
Odeio aquilo que me encanta
E é o humano
Odeio aquilo que desaba
Que acaba
É leviano
Odeio o verso
Odeio aquilo que seduz
Que é cruz
E é profano
Odeio o que é belo
E vai embora
Odeio o que é rima
E chora
Odeio aquilo que me excita
E me despreza
A qualquer hora
Odeio aquilo que reza
Que preza
Não por mim
Mas por Nossa (Senhora)
Odeio aquilo que é humano
E berra
E erra
E é demais
Odeio aquilo que é humano
Que é fulano
E se desfaz
Odeio aquilo que é humano
mas é divino
Odeio primeiro
e primo
o tiro
certeiro
do todo
da parte
daquilo
que chora
que vem
que vai
embora
na arte
Sim
Odeio não
Odeio aquilo que é humano
Que é engano
Que é assim
Sim
Odeio o ponto
O pronto
A base
A frase
O fim
Wescley
terça-feira, 24 de abril de 2012
Trabalho
Penso em versos
Fantasio
Quase crio
Quase
um rio
de palavras
Se derrama
em alvoroço
em alvoroço
Mas não:
Fim do horário de almoço
quarta-feira, 18 de abril de 2012
Quarta-feira
Restam cinzas e lembranças
Desses dias que vivi
Pro pecado fui afoite
Fui lua daquela noite
Fui pesadelo e açoite
Que sofri e que sorri
Fantasiei-me de espelho
Fui saudade da minha rua
Fui a minha carne crua
Pronta pra queimar ao sol
Fui um peixe no anzol
E isca da alegria
E dose de nostalgia
Jogador de Futebol
Fui palhaço e feiticeiro
Fui um gole de cerveja
Fui um bolo de cereja
Que sozinho engoli
Restam cinzas e lembranças
Desses dias que vivi
Fui a cozinha do medo
Fui o tempero da vida
Adocei minha ferida
Na panela do segredo
Para os sonhos fiz a massa
Com as mãos do sentimento
Das dores fiz o fermento
Da força fiz minha graça
Esquentei-me com o abraço
E servir-me de ilusões
Fiz piada de sermões
E jantei o meu compasso
Fui a canção que ouvi
Fui teatro abandonado
Fui verso despedaçado
No poema que escrevi
Restou cinzas e lembranças
Desses dias que vivi
Wescley
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Fértil-mente
Minha abeça não para
Dispara
E não me deixa viver
Minha cabeça é gelada
Minha cabeça vê
O espetáculo
O obstáculo
Teatro menino
Teatro menino
Onde o tino e o destino
Se atracam em desatino
E em vão
Se atracam
Buscando abraçar
O meu mundo com as mãos
Assisto
Na minha cabeça eu crio
Na minha cabeça eu crio
Enquanto tremo de medo
e frio
Á fio
e frio
Á fio
No teatro de minha cabeça
Nesse ato pequenino
Suvino
Eles (tino e destino)
Estrebucham
E murcham
Alucinam tentativas
Onde sonho e pesadelo
Fotografia e espelho
Problema e solução
se abraçam (também)
em vão
(Não!)
Se agarram
Passeiam pelo vagão
No trem de uma estação
Das flores
das dores
Das flores
das dores
Outono ou
Verão
E vocês verão
Tanto o tino
como o destino
Sofrem
Sofrem
Em minha cabeça
Que (agora) voa
Numa boa
E eu no meio deles
Daquele tino tão sujo
E do destino confuso
Fujo
Vou, mas volto
Antes do inverno chegar
quinta-feira, 22 de março de 2012
Ruminante
Tenho fome
Sinto falta do ar e do mar
Sinto falta da sede
De amar
A vida me sufoca
Me soca
Pede gana
Pede grana
Escana
E eu aqui sem ar
Não paro de pensar:
Tenho fome
Grito!
Peço socorro!
Corro
Caio e perco
Esse todo
Sem nome
Que me faz
Nada mais
Que ter fome
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Amigo, feliz ano novo (Fortaleza-CE, 02/01/12)
Desculpe-me o atraso em te escrever, sabe bem como é essa época de fim de ano, muitas festas, muitos presentes, muitas luzes, pouco tempo. Você conhece bem e deve achar também uma época mágica. Há de convir que trocar o ano velho por um novinho, brilhando, cheio de energia, pronto para ser todo gasto, é pra lá de salutar!
Quero que você me conte as novidades, pois aqui está tudo muito bem! A confraternização do dia trinta e um, como foi a sua? A nossa foi uma maravilha! Fogos, votos de felicidade, promessas para emagrecer, para estudar mais, para parar de fumar... É, sem dúvidas, um tempo em que a reflexão, a solidariedade e a esperança imperam em nossos corações, alegramo-nos com a possibilidade do que o novo pode nos revelar e isso é incrível.
Aqui em nossa festa bebemos muito, vimos e ouvimos os fogos, comemos pratos deliciosos, contamos piadas, cantamos e dançamos, enquanto tínhamos a absoluta certeza de que a partir de meia noite tudo iria mudar, que nada mais seria ruim, que as palavras “amor”, “amizade”, “paz”, “sossego” se transformariam em sinônimo do cotidiano desse ano novinho que estava chegando. Aliás, que benção o ano começar num domingo ein? Uma feliz coincidência cristã, um dia de descanso, de ressureição, de fé.
Como disse, ficou difícil de escrever antes em meio a tantas sensações saborosas, com essa data e suas certezas inexoráveis que nos afogou em alegria e satisfação. Foi uma boa algazarra madrugada afora, não só aqui, com os amigos e a família, mas nas casas dos vizinhos, na multidão que foi à praia, nas grandes casas de shows, nas igrejas, etc. É muito bom iniciar o ano assim, nesse clima de otimismo e paz. Impossível não ser feliz, contigo certamente não foi diferente.
É uma sensação bem curiosa, camarada. Sobretudo hoje, dia dois de janeiro, segunda-feira, dia de começar tudo novamente, quando estamos todos prontos para materializar todo esse bem estar que temos a convicção de que agora é pra valer. É isso, estou assim, convicto, feliz, dentro da minha casa, enquanto o exercito está nas ruas da cidade, com seus fuzis, suas fardas e suas ordens tentando proteger todo esse povo inocente e bem intencionado, buscando garantir que as lojas obtenham seus lucros com tranquilidade e, principalmente, defender a integridade do governador e do patrimônio público que teme as manifestações dos policiais grevistas que estão lutando para serem valorizados.
Tenho que admitir que não demorei à escrevê-lo somente pelas festas, tem sido um pouco difícil sair de casa. Sim, mas estou certo que tudo ficará bem, nada poderá me tirar a confiança nesse novo ano, mesmo as notícias que leio nos jornais agora, com todos os acidentes, furtos e roubos que ocorreram naquelas lindas festas que exalavam boas energias antes de ontem. Nada pode me tirar esse bom sentimento! Nem esses fuzis, nem essa estranha inversão de valores de “polícia x governo”, muito menos o fato de que aqui na cidade aconteceram cinquenta homicídios nesse fim de semana. Não, esse ano vai ser diferente, mesmo que só na noite de ontem dezoito pessoas tenham sido assassinadas aqui, sim, ontem, domingo, dia de ressurreição, de fé, de esperança, o primeiro dia do ano que prometemos que seria diferente.
Amigo, ouço um barulho agora, não sei se são tiros ou fogos de alguém tão otimista quanto eu que ainda comemora esses dias de sossego, paz e prosperidade. No caso da primeira opção, talvez seja uma boa ideia improvisar um ano novo de novo, logo esse mês, caso este se desgaste demais prematuramente.
Mas quero crer que nada disso abalará o que este novo ano nos reserva. Os hospitais abandonados, as escolas sucateadas, as estradas esburacadas, nada me fará esquecer o quão firme foram aquelas promessas, quando todos disseram que fariam deste ano feliz. Não perco a fé, nem pelo fato de Bombeiros e Polícias não terem um salário digno, nem boas condições de trabalho (e não serem exceções), nem também por termos governantes tão pedantes e incompetentes, um estado falido, um salário de fome, uma desigualdade social tão acentuada e aquele velho conhecido fenômeno da corrupção perene e capilarizada, isso não é motivo para ficar triste, nem pessimista.
Não será também por que outros trabalhadores, com medo de tudo isso e cansados de também serem desrespeitados e explorados, como os bancários, os motoristas de ônibus, os socorristas das ambulâncias, estarem ameaçando parar de trabalhar, exigindo um basta nesse caos generalizado, que eu perderei a esperança em tudo aquilo que acreditei quando os ponteiros dos relógios anunciaram o novo ano. Confesso até que renova minhas esperanças.
Tenho absoluta convicção de que isso tudo faz parte de um conjunto de casos isolados, o mundo mudou, os sorrisos e as preces, as orações e as simpatias, os presentes trocados e os abraços sentidos não foram em vão, tenho fé. Talvez, não devamos prestar muita atenção nessas coisas, afinal, vida nova. Operários, professores, estudantes todos disseram que seriam felizes a partir de hoje... e somos.
Quase me esqueci, feliz ano novo! Evite sair de casa a noite, não use cordão de ouro, economize energia, obedeça as ordens de seu chefe, tente pagar a fatura do cartão de crédito esse mês e não atrase o IPVA. Eu vou ali me esconder debaixo da cama e atualizar meu currículo, depois do tiroteio irei em busca de um emprego. A propósito, onde passará o carnaval?
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Testamento
Vou morrer como canção
Como arte, como verso
Reticente e disperso
Ponto de exclamação
Então!
Morrerei na poesia
Naquela parte vazia
No nada que se anuncia
Entre uma e outra estrofe
Que sorte!
Num cordel, em corda bamba
Minha morte é aguardente
É luta, é povo, é semente
Um poema no caderno
Eterno!
Quero a morte bem assim
Como o gole de cachaça
Morrer sem choro, nem vela
Pitando minha aquarela
Arrepiando a desgraça
De graça!
E quando encontrar a terra
Ei de deixar meu resquício
Em paz, em riso, em guerra
Calando qualquer suplício
E vício!
Quero o fim como oração
Na terra e no seu cio
Quebrando métrica e rima
Como uma obra-prima
Ou verso que alforrio
E crio!
E assim eu quero o fim
Na saliva da cantiga
Vivendo a palavra amiga
Que transcende esse descrer
Viver!
É no vazio sem rima
Que enganarei a morte
Vivendo com minha sina
De ser fraco e de ser forte
Sem norte!
E morto viverei arte
Vou ser eterno na parte
Da tristeza e da alegria
Vou rimar e desrimar
E sempre ressuscitar
Nas asas da poesia
(Minha morte é noite
E dia!)
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Epílogo
Lá vai o poeta
Precioso
Precioso
Ocioso
Marginal
Um verso despedaçado
Pó ético
Ex-tático
Estético
Final
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
Oração
Vem Madrugada
Tu não és de nada
Saia da espera
Saia da espera
Venha ao combate
Cubra-me de porrada
Salte como fera
Leve-me a nocaute
Dê sua cambalhota
Soque minha face
Soque minha face
Venha até aqui
Mostre-me a derrota
Siga sua rota
E deixe-me dormir
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Prioridade
Estava com muita fome, resolveu então que iria ao shopping comprar pão.
Voltou com dois pares de tênis, uma blusa, três bonés e aquela estranha sensação de que havia esquecido algo.
Cão sem dono
Down tônico
Cão sem dono
Lambendo minhas feridas
Mal curadas
Do abandono
Descolorido platonismo
Amizades não contínuas
Nuvens de saudades do que nunca aconteceu
Só vejo preto e branco
E sinto cheiro de tudo
Nesse nada que arrebata
Meu focinho abandonado
E fico aqui
Salivando solidão
Com o rabo entre as patas
Latindo para a lua: "Down, down, donw"
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
Ironia
Plantou poesia
Colheu poesia
Comeu poesia
Mas ela vazia
Nada dizia
E ele com fome
Morreu outro dia
Triste ironia
Triste ironia
Ela e Adão
Cala a fala
Grita o falo
E ela padece
Em prece
Falece
E desce
Aos pés
do juíz
Ele
Macho
Bicho
Baixo
Baixo
Infeliz
Que ladra
E morde
Que fala
Com falo
E fode
Como quer
Como quis
Gotas de sangue
Flor-de-lis
Flor-de-lis
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