1. Uma gaveta pública cheia de rascunhos.
2. fi.a.po sm (de fio) 1 Fio tênue. 2 pop Quantidade ou porção insignificante...
3."O coletivo de um homem só, falando do nada e pra ninguém..."
Ontem bati o carro. Sim, bati da forma mais patética que se pode bater um carro, numa coluna do estacionamento. Vejam só que emblemático: Um sujeito toma seu remédio tarja preta e a caminho da consulta psiquiátrica fica tonto e bate o carro. A comicidade e a tragédia são extremamente simbióticas nos fatos cotidianos.
O simbolismo do dia-dia vive confirmando aquilo que os orientais chamam de karma, mas que nada mais é que a junção do imponderável com a implacável relação de “causa-e-consequência”. Ora, o que seria mais revelador sobre mim do que esse fato. Um falso pessimista, um inquieto exacerbado, um estressado constante, um sonhador inveterado que, depois de muito sofrer, vejam só, descobre que tem déficit de atenção.
Descobre também que isso não é nenhum pesadelo, mas não tem cura. Que muitos de seus problemas, crônicos às vezes, vieram daí. Que sua insônia, seu sono atrasado, sua capacidade de se motivar rapidamente e de se desmotivar na mesma velocidade e até sua obesidade foram elementos daquela bolinha de neve crescente que vai montanha abaixo enquanto você sonhava e sofria no meio dela. Um sujeito desses com uma monografia atrasada e com tudo mais atrasado em sua vida só poderia mesmo bater o carro, tonto, numa coluna do estacionamento da clínica.
Sua dificuldade de dirigir, de se concentrar, seu angustia por gostar de ler e não consegui fazer isso mais que duas páginas... Tudo era atraso. Como seria um escritor assim? Um escritor que não ler, pode isso? Não, ele não seria um escritor agora, nem nunca, mas não era isso que importava, importava sim saber que sua tristeza ao tentar, sempre em vão, tirar o estigma jogado sobre si desde a infância acusando-o, com razão, de desorganizado, impaciente, bagunceiro e preguiçoso tinha uma base que, afinal, apresentava-se com uma explicação lógica que justificava suas derrotas diárias contra si mesmo.
Sempre achei que não conseguia prestar atenção nas pessoas porque as achava desinteressantes demais, descobri que não é apenas uma questão de opinião, que essa justificativa cortinava a verdadeira causa, encobria o fato de que eu nunca prestava atenção nas pessoas não apenas porque não quisesse, mas porque não conseguia. Era uma justificativa, lógica, mas dessa vez, improcedente para explicar uma limitação.
E, sinceramente, eu não estou nem aí se vão ou não continuar me taxando de todas as coisas que eu coloquei aqui. Ou se farão a leitura inversa colocando o déficit de atenção como álibi da “preguiça inata” dentro de mim. Isso não seria exclusividade minha e nem posso obrigar as pessoas a se colocarem no meu lugar, só posso torcer que tenham alguma sensibilidade, até porque isso não é o fim do mundo, nem algo digno de pena.
Dentre todas essas descobertas dos últimos meses descobri, há dois dias, como é estudar, como é ler um livro, como é passar 4 horas numa mesa sem sentir-se absurdamente sufocado com a monotonia tão trivial para os outros. Deve parecer mentira ou um exagero para as pessoas, mas foi assim mesmo que aconteceu. Fico pensando como os outros devem achar estranho alguém não conseguir dormir, alguém não conseguir se concentrar, alguém não conseguir prestar atenção somente em uma conversa, são coisas tão simples, não é fácil compreender quando não se consegue o simples e quais as conseqüências disso.
Não me lembro de ter lido um livro todo nunca, até hoje. Sempre passei pelas páginas com mil outros pensamentos na cabeça. As sílabas de um poema ficavam em mim, mas as de um livro de poemas se perdiam nos meus pensamentos, nos meus sonhos, nos meus pesadelos. “Tive um sonho”, “Tive um pesadelo”, ninguém pode dizer “tive um pesadelo” só porque acordou. Você ainda o tem, ele está lá sendo regado por ti, só apareceu para visitar ti quando você dormia, expulse-os ou regue-os, faça sua escolha. Os meus, sonhos e pesadelos, me visitam a toda hora em demasia.
E não reclamo de só hoje me conhecer melhor, de só hoje consegui explicações para essas coisas. Acho até que foi melhor assim, sou grato a tudo que aconteceu, no tempo que aconteceu, pois se não pude até hoje me concentrar melhor, essa limitação me fez forte, me fez pensar, ser introspectivo, me fez sensível e sei lá se não tive minha criatividade aguçada...Mas a melhor parte é que minhas dificuldades me fizeram chegar até aqui com as pessoas maravilhosas que tenho ao meu lado. Afinal, quem eu seria se tratado desde a infância? Ser saudável é necessariamente ser melhor? Não sei.
Nem da paralisia facial e da depressão eu reclamo. Medo tenho eu de não ter passado pelo que passei, de não ter fracassado, desistido e recomeçado tantas e tantas vezes e de não ter tido oportunidade de viver esse processo de construção e reconstrução de meus valores e de minhas convicções. Hoje, é bom me olhar e poder vislumbrar a potência virando ato. Não trata-se de cinismo, nem de não querer que as coisas tivessem sido mais fáceis, mas se elas não foram, trouxeram suas perdas, mas também seus valiosos ganhos.
Anteontem li um livro banal e despretensioso, parecido com esse texto. Ontem bati o carro. Tudo por causa do meu tratamento. E por causa do que me tornei hoje tive alguém que encontrei nesses atropelos da vida para me consolar, me acalmar, me ajudar. Bati o carro, li um livro, dormi como nunca e ainda farei muitas outras coisas. Ainda vou escrever, ler, produzir, trabalhar e espero não bater mais o carro. Mas caso isso aconteça que seja de novo numa coluna de estacionamento e não numa Ferrari, que eu tenha novamente uma pessoa ao meu lado para dizer que está ao meu lado e que isso seja contrabalanceado com minha boas noites de sono, meus livros lidos, meus textos escritos... E minhas fantasias, utopias e reticências que nenhum tratamento vai tirar de mim...
Bom como o cordel do Luckas fez muito sucesso, publico aqui meu outro cordel, esse fiz mais na brincadeira, já deve ter uns 6 ou 7 anos. Lembro que escrevia essas coisas durante alguma aula que não gostava, tipo matemática ou química, foi uma época produtiva nesse aspecto, hahahahahaha. Mas vamos lá, trata-se de uma história que, como diria Juca Chaves, "qualquer semelhança é mera coincidência premeditada", basta lembrar de um caso de um certo ex-deputado pelo estado do Ceará que foi acusado de ter envolvimento com o tráfico de drogas depois de anos e anos de corrupção pelos municípios do interior. Até hoje quando vou a Jaguaretama vejo gente lamentado que o mesmo não esteja no poder, com o velha, burra e ignorante máxima do "roubava mas fazia", um absurdo. Vamos ao cordel:
A Saga do DePUTAdo Dinheiro Ladrão
No inicio peço licença Eu sou muito precavido Dos homens eu não duvido Não tenho maledicência Escrevo por diversão E qualquer comparação É pura coincidência
Vim aqui para falar De um nefasto ex-deputado Com medo de ser caçado Veio a renunciar Pela sua incompetência Provando a inconsciência Do povo do Ceará
O seu respeito era enorme Tinha toda regalia No mundo da alegria Tinha tudo nos conforme Era um grande marajá Dinheiro podia dá Vivia no “come e dorme”
Ao lado das multidões Era excelente ator Graças ao interior Ganhou muitas eleições Enganando o meu povo Para se eleger de novo Com muitas contradições
Porém, quando se elegeu Roubando dinheiro alheio Só vivia no passeio “Um pra tu e dois pra eu” Subornava os prefeitos Nos projetos dava um “jeito” Pra sempre levar "o seu"
Anos atrás tava ao lado Dos ditadores impuros Mas ao prever o futuro O discurso foi mudado Com os grandes foi romper Reformas já quis fazer Foi mudar desconfiado
Aproveitando a moda “Lulinha paz e amor” No meio da onda entrou De tudo agora discorda Passou pra oposição Com muita disposição Pro eleitor pegar corda
Beijo e abraço em crianças Na campanha eleitoral Em cima de pedra e pau Só falava na mudança Alimentando a mentira E o leitor quase pira Numa falsa esperança
Encenação tal aquela Que a mim não convenceu O povo não percebeu Que a tal conversa bela Não passava de boato E caíram como pato Numa grande esparrela
Vitorioso então Ele muito se exibe Foi no Vale Jaguaribe Sua maior redenção Mostrando o coronelismo E o analfabetismo Que existe no meu sertão
Meses depois o Brasil Pelo Jornal Nacional Na denúncia crucial A carapuça serviu Em telefonemas sérios Acabava seu império E sua máscara caiu
O homem ficou tristonho Afundava o seu barco Envolvido com o tráfico O mundo ficou medonho O cerco tava fechado Ninguém fica do seu lado Se safar era um sonho
O caso repercutiu Uns queriam a cassação Outros logo a prisão Nada mais justo e sutil Tirando a imunidade E acabando a impunidade Que tanto já lhe serviu
Mas no País do faz-de-conta Polícia não tem moral Na terra do carnaval Jeito pra tudo se encontra Preconceito é violento Fazem pobre de jumento E o rico é quem se monta
Renunciou o mandato E saiu discretamente Para o povo inocente Não se lembrar de seus atos Caindo como uma luva A Ajuda de manda-chuvas Que minimizaram o fato
Eu não sou nem um vidente Mas posso vê o futuro Não fico em cima do muro Analiso o presente Estudando o passado Sem ficar alienado E sempre olhando pra frente
Povo sem educação Sem ter nada pra comer O voto faz é vender Por um pedaço de pão A historia se repete O deputado promete E deixa o povo na mão
O futuro deste povo Que não ta muito distante É uma podre constante Que fede mais do que ovo
Já na próxima eleição Vai vir cheio de sermão Para se eleger de novo
Se o poema é horroroso É que falta inspiração E peço logo perdão Se fui muito desgostoso Não queria chatear O povo do Ceará Com historia de trancoso
Wescley Pinheiro
*Literatura de Cordel escrita no final de 2002 ou em 2003, não sei ao certo
Sim companheiros, outro blog, esse definitivo (eu espero). Afinal, ano novo, blog novo (dizer isso em fevereiro é bem brasileiro e bem clichê, hehehe.)
Mas Por quê?
Porque sim (tá, tá, porque sim não é resposta)
O fato é o seguinte: eu tinha outro blog chamado “imbroblioquequiprocó”, mas ele estava imensamente abandonado e tinha um nome muito complicado. Assim, se eu queria levar nessa bagaça a sério precisava de um nome simples e que fosse ao mesmo tempo criativo. Cogitei e cheguei a levar ao ar um blog da “mómintíra”, escrevendo um manifesto, que brevemente será postado aqui (como todos os textos do outro blog), no entanto, decidi deixar essa alcunha de lado nessa questão, mudando para algo mais individual e mais amplo, encerrando um ciclo e começando outro.
A partir daí iniciou-se a saga maldita em busca de um nome que fosse legal pra mim e que estivesse disponível no blogspot. Tarefa difícil, aliás, dificílima, TUDO, absolutamente tudo já foi registrado aqui. Aqui vai uma lista de como esse blog poderia ter sido batizado:
• Na Maciota • Pá Furada • Paralelas • Conversas Paralelas • Assuntos Paralelos • Papel de Pão • Em crise • Parafraseando • Milk Shakespeare • E daí? •Enxugando Gelo
E muitos outros surgiram, até que cheguei em “No fiapo” – perfeito! “É isso!” No fiapo, ali naquele pedacinho que ninguém ver, aquela parte minúscula, que pode não ser nada se comparado ao todo, mas também pode trazer de tudo e revelar coisas interessantes que sozinho, jamais você iria encontrar.
Como está na descrição do blog (tirado do dicionário): fi.a.po sm (de fio) 1 Fio tênue. 2 pop Quantidade ou porção insignificante...
Sim, mas pra quê vai servir mesmo?
Aí é onde está a melhor parte! Não vai servir pra nada! Será um blog em que eu posto o que quiser, sobre o que eu quiser e de quem eu quiser. Então terá notícias, textos de outros blogs, fotografias, vídeos, poesias, textos meus, artigos, enfim, tudo no fiapo.
Mais alguma coisa?
Sim, não sou escritor e neste espaço eu posso abusar das aspas, dos ditados, dos erros de digitação, dos parênteses , mas prometo ser um pouco criterioso e ao menos reler o texto antes de postar.
No mais é isso, NO FIAPO é mais que um blog, é um coletivo, o coletivo de um homem só, falando do nada e para ninguém... gravem isso, pois esse é o espírito.