domingo, 23 de abril de 2017

Cúmplice

Versão e contravenção
Pirando e respirando
Tornando e retornando
Sonho, seio, subversão
O porre, a pira e o pires
Que foge, que fogo, que finge
Na palma de minha mão

Regresso

O bando
Abandonou
A bandeira

Hasteia
Teu pano
De meia

Bandeia
Teu sono
Na teia

Ao meio
O mastro
Atoa

Atua
A banda
Que soa

E bane
O barulho
Da rua

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Rafael Braga

Mais um
Menos um
Que tem cor
Que tem classe
Que não tem crime algum
Mas que tem prisão
Assim como tantos é
Tantos assim como são
Sobrou para os que sempre restam
Restou para os que sempre sobram
Menos ou mais como um ninguém
Mais-ou-menos como um nenhum
Mais um
Menos um

quarta-feira, 12 de abril de 2017

O galã

Cantando de galo
Cantadas e talos
Gola em V
Chinelos e calos
Textão e textículo
Viril, porém sensível
Amor? O líquido
Acumulação flexível

No palco, o tom professoral
Onipotente e sempre a mil
Orbitando seu próprio pau
Colecionando troféus
Na cama de um mausoléu
Diferentemente igual

domingo, 9 de abril de 2017

Distrações

Comparações
Composições
Competições
De passados
Sem sentido
E em vão

Redenção

Arredia
Arrodeou o dia
Adiantou a hora
Para deitar em meu peito
E então peitar a vida
Que agora amanhecida
Nunca mais seria a mesma

Onírico

E se teu pesadelo for prenúncio
De um desejo disfarçado de medo
Deste erro
Do desterro
De uma penitência onírica
De uma profecia maldita
Sustentada num cordão
De um escapulário
Imaginário
E pagão

Os números

Um a um
Foram sumindo
Dois ou três
Ainda davam notícias
E relembravam taciturnos
Quatro ou cinco causos de lá
Enquanto a lista daquela música
Não preenchia com tinta
Nem seis linhas do papel

quinta-feira, 6 de abril de 2017

O pedido

Dai-me teu segredo
Farei dele meu erro
Vou transformá-lo em pedra
E carregar em minhas costas

Dai-me tua dúvida
Farei dela meu espelho
Que quebrarei ao me olhar
E mastigarei os estilhaços de mim

Dai-me teu intenso passado
Farei dele meu relógio
Que trabalhará atrasado
Procurando o futuro
Onde não há

Sorte

No jogo de dardos
Sou o alvo
Esperando que tudo
Dê errado

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Alucinação

Lebre nervosa
Delirío breve
Corre chorosa
Trocando gato
Por febre

Aparto

Os cadarços entrelaçados
Sujos, velhos e necessários
Envolveram aqueles pés
Mas não as suas pegadas
Pisadas em calo de sangue
Escondidas pelos solados
Que repletos de desenhos gastos
Guardavam formas geométricas
E conteúdos impublicáveis

Aperto

A lembrança do que não vi
A visão do que não aconteceu
O que aconteceu e eu não sei
O que eu sei e não queria saber
O que não queria saber e ainda lembro

Noite, trinta e um de dezembro

Coisas que eu nunca pude

Me gabar na juventude
Mandar ou receber um nude
Ficar sem rima amiúde
Ser colecionador de virtude
Livrar-me de ser um grude
Fugir da tal solitude
Ser um macho em amplitude
Ou humano que não se ilude
Beber água do açude
Vencer na bola de gude
Não ter uma cara rude

E sempre ao ouvir espirros
Conseguir não dizer: saúde

Poeira

Bagaço
Farelo
Tudo traço
No rastro do meu chinelo

Flagelo
Amasso
Nada zelo
Nas letras do meu cansaço