domingo, 9 de abril de 2017

Os números

Um a um
Foram sumindo
Dois ou três
Ainda davam notícias
E relembravam taciturnos
Quatro ou cinco causos de lá
Enquanto a lista daquela música
Não preenchia com tinta
Nem seis linhas do papel

quinta-feira, 6 de abril de 2017

O pedido

Dai-me teu segredo
Farei dele meu erro
Vou transformá-lo em pedra
E carregar em minhas costas

Dai-me tua dúvida
Farei dela meu espelho
Que quebrarei ao me olhar
E mastigarei os estilhaços de mim

Dai-me teu intenso passado
Farei dele meu relógio
Que trabalhará atrasado
Procurando o futuro
Onde não há

Sorte

No jogo de dardos
Sou o alvo
Esperando que tudo
Dê errado

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Alucinação

Lebre nervosa
Delirío breve
Corre chorosa
Trocando gato
Por febre

Aparto

Os cadarços entrelaçados
Sujos, velhos e necessários
Envolveram aqueles pés
Mas não as suas pegadas
Pisadas em calo de sangue
Escondidas pelos solados
Que repletos de desenhos gastos
Guardavam formas geométricas
E conteúdos impublicáveis

Aperto

A lembrança do que não vi
A visão do que não aconteceu
O que aconteceu e eu não sei
O que eu sei e não queria saber
O que não queria saber e ainda lembro

Noite, trinta e um de dezembro

Coisas que eu nunca pude

Me gabar na juventude
Mandar ou receber um nude
Ficar sem rima amiúde
Ser colecionador de virtude
Livrar-me de ser um grude
Fugir da tal solitude
Ser um macho em amplitude
Ou humano que não se ilude
Beber água do açude
Vencer na bola de gude
Não ter uma cara rude

E sempre ao ouvir espirros
Conseguir não dizer: saúde

Poeira

Bagaço
Farelo
Tudo traço
No rastro do meu chinelo

Flagelo
Amasso
Nada zelo
Nas letras do meu cansaço

terça-feira, 4 de abril de 2017

Anti-musa

Rasgou o papel
Pulou fora do texto
Mas que ser história
Fez história

Componho

Com uma arma na mão
Mirando fantasmas enquanto corro
Atiro palavras no chão
Como num pedido de socorro

Se vira ato
Mato
Se vira poema
Morro

Maquiagem

Um idiota
Daqueles clássicos!
Passivo-agressivo
Dissimulado
Sem auto-estima
Viciado em autoflagelação

Esparadrapo na boca
Curativos no coração
Hora de ser duro
De fingir certeza
De atuar coragem
Hora da maquiagem
No idiota do espelho

Acidente

Coberta de costuras
A pele duvidava até da água
Que a acalentava sem cessar

As cicatrizes são máscaras
Das dores já falecidas
E dos cortes em potência
No jogo do imponderável

Fracasso

Quis os versos como quiseram
Para ser quadro
Para ser canto
Para ser cantada

Quis as estrofes como faziam
Para ser discurso
Concurso
Percurso

Quis seus poemas para o ego
Para o cego
Para o lego
Valores que não carrego

Mas só sabia ser fácil
frágil
Frígido
E foice

Mantra

Frágil
Quisera ágil
Agindo como
Roberto Baggio

Chutando pra fora
Na hora H

Dissonia

Num piscar de olhos
Os medos do passado e do futuro
Massageiam o peito
Exalando o aroma da angústia
Uma explosão de pesadelos
Sob o signo do sossego