sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A Fuga


Sempre após o jantar ia ao banheiro fumar escondida. Não queria que seu marido soubesse que descumprira novamente a promessa, mesmo que fosse apenas mais uma de tantas outras ocasiões e de tantas outras promessas.
Apesar dos melindres, o mau cheiro que escapava por debaixo da porta esbarrava na indiferença dos demais, impedindo que o triste e monótono habitual fosse quebrado.
A fumaça abafada parecia deixar aquele ambiente pequeno e sujo ainda mais caótico. Ela sugava o cigarro de olhos fechados, prendia respiração como se fossem seus desejos e depois baforava devagar, transferindo para esse ato toda a crosta opaca de sua vida. Repetia o gesto várias vezes.
Lá fora, a casa desarrumada, as contas espalhadas na mesa da sala, a louça suja empilhada na pia, os gritos de sua filha ao telefone, a televisão hipnotizando o marido...
Mais um trago, uma tosse forte, um escarro. Estava feliz.

Wescley Pinheiro

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O Dono


Andava sempre ligeiro
Não era pobre, nem nada
Mas achava acabada
A vida no estaleiro
Queria ter um veleiro
E sair numa jornada
Ter luxo, ir pra noitada
E viver como um banqueiro
Ir pro jogo e dá cartada
Mas só não tinha dinheiro

Cansou de ser justiceiro
Queria os louros da glória
Os discursos da vitória
Comprar um belo terreiro
Pra os amigos interesseiros
Invejar suas memórias
Queria não ser escória
Fazer seu próprio roteiro
Ser dono de sua história
Mas só não tinha dinheiro

Então virou bandoleiro
Perdeu o sonho e o sono
A primavera e outono
Em busca do financeiro
Transformou-se em traiçoeiro
Pra poder subir no trono
Não conseguiu seu abono
E sumiu sem paradeiro
Do dinheiro não foi dono
Mas seu dono era o dinheiro

Wescley Pinheiro

Aos Companheiros


Dos poetas que reviram nosso espírito
Dos guerreiros que sangraram nas jornadas
As Homéricas que sempre serão lembradas
Ou a vida de um operário aflito

Na leitura dos pensadores convictos
Na vivência daquele negro herói
Na postura da mulher que desconstrói
As paredes desses muros de conflitos

Edifico e fortaleço esse meu grito
Sobretudo no olhar dos companheiros
Os que lutam e compõem os cancioneiros
De uma vida para além do triste mito

E é neles que me espelho e me permito
Ao jogar-me nessa saga de leões
Tantas lágrimas, tantos risos e sermões
Tantas dores e amores nesse rito

Por um mundo diferente precipito
Todo verso, toda prosa, todo ato
Toda luta, todo verbo, todo fato
A vocês, companheiros, eu recito


Para todos os companheiros e companheiras que encontrei no MESS/UECE. Amigos, irmãos, camaradas. Verdadeiras referências, fonte de convicção e vontade de seguir em frente.

Soneto à "Pós"-Modernidade


Minha alma quase órfã de esperança

Contemplava esse atrito em pleno vento

Quando o sólido tornou-se fragmento

Desmanchando o valor e a pujança


Da memória resgatei belas lembranças

Almejando escapar do alçapão

Da descrença crescente da opressão

Da quimera do consenso que avança


E sangrando percebi a semelhança

Deste tempo com o outro de outrora

Deste novo amiudado e sem mudança


E com isso, libertei-me nessa hora

E os meus despejaram a vingança

Sobre a face que disfarça enquanto chora


Wescley Pinheiro

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Poesia Rebelde



Denuncie esse poema! Ele está vivo!
Não serei eu o responsável por oprimi-lo...
Esse poema que não tem rima, não tem métrica, nem regras
Nem gramatical, nem qualquer outra

Ousado, traquino e belo é esse poema
Ai de mim se não enviá-lo ao mundo!
Ai de meu peito se tentar oprimi-lo em mim
Denuncie você que tem pavor de ser alvejado por ele!
Agora, nessas palavras e versos dispersos mergulharei
Jogar-me-ei nesse concreto artístico com todo desprendimento
Nesse emaranhado de justos palavrões subliminares
Nesse texto onde não há mote, nem ritmo, nem leis

Nessas frases que descem verticalizadas
Mas que têm em si algo mais horizontal que o pôr do sol
Esse poema rasgou o romantismo, rasgou o realismo e é real
Esse poema tem cor, tem cores, tem cheiro de terra, tem gosto de seca
Tem fome e tem sede, tem coragem e energia

Ora sem vírgulas, ora com elas demais
Esse poema tem sabor de barulho
Tem jeito de povo, tem traços de grito
Esse poema corre e debate-se, estrebucha

Sua força me nutre e me perfura
Não tem rima, não tem métrica, não tem regras
Talvez, nem tenha autor
Esse poema não é meu
Estou nele e nele me permito
Permito-me ser ela
                           Ser homo
                                    Ser Negro
                                               Ser índio
                                                  Ser nordestino
                                                             Ser humano
                                                                                  Ser

Esse poema está vivo
Atrevido sou eu de assiná-lo
Pois ele não tem rima, nem métrica, nem regras
Nele, lutar rima com liberdade

Aqui, rima-se coração com juventude
Preconceito com desigualdade
Violência com exploração
Regras e métricas com prisão.

Esse poema madruga
Corta-te, penetra-te, sorrindo e chorando
Poema vadio, transcendente, travesso!
Ultraje para os verdadeiros poemas tão cheios de razão...

Vergonha para os poemas legítimos
Belos e limpos, tristes ou alegres
Esse, não tem rima, nem métrica, nem regras
É tudo ao mesmo tempo e simples como o sertão

E não se surpreenda se esse poema correr atrás de ti
Ou ao lê-lo de novo percebê-lo diferente
Ou ainda se ele resolver mudar-se em meio a um recital
Pois esse poema não tem rima, nem métrica, nem regras

Essas linhas poéticas ocupam não só o papel
Ocupam terras, fronteiras, corações e mentes
Esse poema sente dor e prazer, sente amor e saudade
Só não sente o peso da métrica e das regras

Esse poema não tem rima, tem marcas
Não aquelas fetichizadas, estampadas nas roupas das vitrines
Marcas de feridas, marcas longe das métricas
Esse poema marca, ferra a face com o fogo da inquietude

Poema feminino, de pele escura, clandestino
Imoral, ilegal, criminalizado
Letras sujas de lama, de sangue e de suor
Palavras que não fedem, exalam o mais belo aroma

Esse poema sem rima, sem métrica, sem regras
Propaga o cheiro da transformação
Essas linhas sem rima, sem métrica e sem regras pisam o chão
E tocam e riem e choram e pensam e vivem. Vivem no presente.

Dominou-me, libertou-me, inventou-me
Interrogou-me, exclamou-me, fez-se comigo
Mas além de mim, fez-se pra o além. Para o ser e o estar.
Não serei eu seu algoz, não o enquadrarei em vão

Poema do sim, cheio de nãos
Não veio do nada, mas do tudo,
Não tem ponto final, mas reticências...
Não tem rima, nem métrica, nem regras

Não é meu, nem seu, quiçá nosso
Esse poema não tem rima, nem métrica, nem regras
Atrevo-me a assiná-lo
Mas saibam: ele não tem dono!
...

domingo, 21 de novembro de 2010

O Soneto da Barbárie



O menino clamou pelo dinheiro
Sua fome era fome verdadeira
De matar o desejo traiçoeiro


E matando jogou-se por inteiro
Embaçado com o canto da sereia
Que berrava o seu grito feiticeiro


Nos limites das estreitas corredeiras
O menino que é filho sem ter pai
No gatilho o seu medo subtrai
Invisível já não mais nas prateleiras


Caminhando e vivendo sorrateira
Pelas ruas caóticas do consumo
Sua alma divaga sem ter prumo
Vai matando e morrendo até a feira

Wescley Pinheiro


sábado, 20 de novembro de 2010

Soneto da Gratidão

Do riso genuíno e tão constante
Do gesto carinhoso e verdadeiro
Da sorte de sentir o companheiro
Do gosto de viver a todo instante

Do firme e belo olhar tão penetrante
Do tom de sua voz sempre alegrada
Do jeito de ajeitar desajeitada
Da sua áurea linda, edificante

É feito nosso amor amante-amigo
Que incansavelmente se renova
E no presente vive em nosso abrigo

Assim em versos tímidos lhe digo
Da graça que em meu peito faz a prova
Não por ser minha, mas por ser comigo



sábado, 6 de novembro de 2010

Ontem bati o carro e li um livro

Ontem bati o carro. Sim, bati da forma mais patética que se pode bater um carro, numa coluna do estacionamento. Vejam só que emblemático: Um sujeito toma seu remédio tarja preta e a caminho da consulta psiquiátrica fica tonto e bate o carro. A comicidade e a tragédia são extremamente simbióticas nos fatos cotidianos.

O simbolismo do dia-dia vive confirmando aquilo que os orientais chamam de karma, mas que nada mais é que a junção do imponderável com a implacável relação de “causa-e-consequência”. Ora, o que seria mais revelador sobre mim do que esse fato. Um falso pessimista, um inquieto exacerbado, um estressado constante, um sonhador inveterado que, depois de muito sofrer, vejam só, descobre que tem déficit de atenção.

Descobre também que isso não é nenhum pesadelo, mas não tem cura. Que muitos de seus problemas, crônicos às vezes, vieram daí. Que sua insônia, seu sono atrasado, sua capacidade de se motivar rapidamente e de se desmotivar na mesma velocidade e até sua obesidade foram elementos daquela bolinha de neve crescente que vai montanha abaixo enquanto você sonhava e sofria no meio dela. Um sujeito desses com uma monografia atrasada e com tudo mais atrasado em sua vida só poderia mesmo bater o carro, tonto, numa coluna do estacionamento da clínica.

Sua dificuldade de dirigir, de se concentrar, seu angustia por gostar de ler e não consegui fazer isso mais que duas páginas... Tudo era atraso. Como seria um escritor assim? Um escritor que não ler, pode isso? Não, ele não seria um escritor agora, nem nunca, mas não era isso que importava, importava sim saber que sua tristeza ao tentar, sempre em vão, tirar o estigma jogado sobre si desde a infância acusando-o, com razão, de desorganizado, impaciente, bagunceiro e preguiçoso tinha uma base que, afinal, apresentava-se com uma explicação lógica que justificava suas derrotas diárias contra si mesmo.

Sempre achei que não conseguia prestar atenção nas pessoas porque as achava desinteressantes demais, descobri que não é apenas uma questão de opinião, que essa justificativa cortinava a verdadeira causa, encobria o fato de que eu nunca prestava atenção nas pessoas não apenas porque não quisesse, mas porque não conseguia. Era uma justificativa, lógica, mas dessa vez, improcedente para explicar uma limitação.

E, sinceramente, eu não estou nem aí se vão ou não continuar me taxando de todas as coisas que eu coloquei aqui. Ou se farão a leitura inversa colocando o déficit de atenção como álibi da “preguiça inata” dentro de mim. Isso não seria exclusividade minha e nem posso obrigar as pessoas a se colocarem no meu lugar, só posso torcer que tenham alguma sensibilidade, até porque isso não é o fim do mundo, nem algo digno de pena.

Dentre todas essas descobertas dos últimos meses descobri, há dois dias, como é estudar, como é ler um livro, como é passar 4 horas numa mesa sem sentir-se absurdamente sufocado com a monotonia tão trivial para os outros. Deve parecer mentira ou um exagero para as pessoas, mas foi assim mesmo que aconteceu. Fico pensando como os outros devem achar estranho alguém não conseguir dormir, alguém não conseguir se concentrar, alguém não conseguir prestar atenção somente em uma conversa, são coisas tão simples, não é fácil compreender quando não se consegue o simples e quais as conseqüências disso.

Não me lembro de ter lido um livro todo nunca, até hoje. Sempre passei pelas páginas com mil outros pensamentos na cabeça. As sílabas de um poema ficavam em mim, mas as de um livro de poemas se perdiam nos meus pensamentos, nos meus sonhos, nos meus pesadelos. “Tive um sonho”, “Tive um pesadelo”, ninguém pode dizer “tive um pesadelo” só porque acordou. Você ainda o tem, ele está lá sendo regado por ti, só apareceu para visitar ti quando você dormia, expulse-os ou regue-os, faça sua escolha. Os meus, sonhos e pesadelos, me visitam a toda hora em demasia.

E não reclamo de só hoje me conhecer melhor, de só hoje consegui explicações para essas coisas. Acho até que foi melhor assim, sou grato a tudo que aconteceu, no tempo que aconteceu, pois se não pude até hoje me concentrar melhor, essa limitação me fez forte, me fez pensar, ser introspectivo, me fez sensível e sei lá se não tive minha criatividade aguçada... Mas a melhor parte é que minhas dificuldades me fizeram chegar até aqui com as pessoas maravilhosas que tenho ao meu lado. Afinal, quem eu seria se tratado desde a infância? Ser saudável é necessariamente ser melhor? Não sei.

Nem da paralisia facial e da depressão eu reclamo. Medo tenho eu de não ter passado pelo que passei, de não ter fracassado, desistido e recomeçado tantas e tantas vezes e de não ter tido oportunidade de viver esse processo de construção e reconstrução de meus valores e de minhas convicções. Hoje, é bom me olhar e poder vislumbrar a potência virando ato. Não trata-se de cinismo, nem de não querer que as coisas tivessem sido mais fáceis, mas se elas não foram, trouxeram suas perdas, mas também seus valiosos ganhos.

Anteontem li um livro banal e despretensioso, parecido com esse texto. Ontem bati o carro. Tudo por causa do meu tratamento. E por causa do que me tornei hoje tive alguém que encontrei nesses atropelos da vida para me consolar, me acalmar, me ajudar. Bati o carro, li um livro, dormi como nunca e ainda farei muitas outras coisas. Ainda vou escrever, ler, produzir, trabalhar e espero não bater mais o carro. Mas caso isso aconteça que seja de novo numa coluna de estacionamento e não numa Ferrari, que eu tenha novamente uma pessoa ao meu lado para dizer que está ao meu lado e que isso seja contrabalanceado com minha boas noites de sono, meus livros lidos, meus textos escritos... E minhas fantasias, utopias e reticências que nenhum tratamento vai tirar de mim...