Ai de mim se não enviá-lo ao mundo!
1. Uma gaveta pública cheia de rascunhos. 2. fi.a.po sm (de fio) 1 Fio tênue. 2 pop Quantidade ou porção insignificante... 3."O coletivo de um homem só, falando do nada e pra ninguém..."
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Poesia Rebelde
Ai de mim se não enviá-lo ao mundo!
domingo, 21 de novembro de 2010
O Soneto da Barbárie
O menino clamou pelo dinheiro
Sua fome era fome verdadeira
De matar o desejo traiçoeiro
E matando jogou-se por inteiro
Embaçado com o canto da sereia
Que berrava o seu grito feiticeiro
Nos limites das estreitas corredeiras
O menino que é filho sem ter pai
No gatilho o seu medo subtrai
Invisível já não mais nas prateleiras
Caminhando e vivendo sorrateira
Pelas ruas caóticas do consumo
Sua alma divaga sem ter prumo
Vai matando e morrendo até a feira
sábado, 20 de novembro de 2010
Soneto da Gratidão
sábado, 6 de novembro de 2010
Ontem bati o carro e li um livro
Ontem bati o carro. Sim, bati da forma mais patética que se pode bater um carro, numa coluna do estacionamento. Vejam só que emblemático: Um sujeito toma seu remédio tarja preta e a caminho da consulta psiquiátrica fica tonto e bate o carro. A comicidade e a tragédia são extremamente simbióticas nos fatos cotidianos.
O simbolismo do dia-dia vive confirmando aquilo que os orientais chamam de karma, mas que nada mais é que a junção do imponderável com a implacável relação de “causa-e-consequência”. Ora, o que seria mais revelador sobre mim do que esse fato. Um falso pessimista, um inquieto exacerbado, um estressado constante, um sonhador inveterado que, depois de muito sofrer, vejam só, descobre que tem déficit de atenção.
Descobre também que isso não é nenhum pesadelo, mas não tem cura. Que muitos de seus problemas, crônicos às vezes, vieram daí. Que sua insônia, seu sono atrasado, sua capacidade de se motivar rapidamente e de se desmotivar na mesma velocidade e até sua obesidade foram elementos daquela bolinha de neve crescente que vai montanha abaixo enquanto você sonhava e sofria no meio dela. Um sujeito desses com uma monografia atrasada e com tudo mais atrasado em sua vida só poderia mesmo bater o carro, tonto, numa coluna do estacionamento da clínica.
Sua dificuldade de dirigir, de se concentrar, seu angustia por gostar de ler e não consegui fazer isso mais que duas páginas... Tudo era atraso. Como seria um escritor assim? Um escritor que não ler, pode isso? Não, ele não seria um escritor agora, nem nunca, mas não era isso que importava, importava sim saber que sua tristeza ao tentar, sempre em vão, tirar o estigma jogado sobre si desde a infância acusando-o, com razão, de desorganizado, impaciente, bagunceiro e preguiçoso tinha uma base que, afinal, apresentava-se com uma explicação lógica que justificava suas derrotas diárias contra si mesmo.
Sempre achei que não conseguia prestar atenção nas pessoas porque as achava desinteressantes demais, descobri que não é apenas uma questão de opinião, que essa justificativa cortinava a verdadeira causa, encobria o fato de que eu nunca prestava atenção nas pessoas não apenas porque não quisesse, mas porque não conseguia. Era uma justificativa, lógica, mas dessa vez, improcedente para explicar uma limitação.
E, sinceramente, eu não estou nem aí se vão ou não continuar me taxando de todas as coisas que eu coloquei aqui. Ou se farão a leitura inversa colocando o déficit de atenção como álibi da “preguiça inata” dentro de mim. Isso não seria exclusividade minha e nem posso obrigar as pessoas a se colocarem no meu lugar, só posso torcer que tenham alguma sensibilidade, até porque isso não é o fim do mundo, nem algo digno de pena.
Dentre todas essas descobertas dos últimos meses descobri, há dois dias, como é estudar, como é ler um livro, como é passar 4 horas numa mesa sem sentir-se absurdamente sufocado com a monotonia tão trivial para os outros. Deve parecer mentira ou um exagero para as pessoas, mas foi assim mesmo que aconteceu. Fico pensando como os outros devem achar estranho alguém não conseguir dormir, alguém não conseguir se concentrar, alguém não conseguir prestar atenção somente em uma conversa, são coisas tão simples, não é fácil compreender quando não se consegue o simples e quais as conseqüências disso.
Não me lembro de ter lido um livro todo nunca, até hoje. Sempre passei pelas páginas com mil outros pensamentos na cabeça. As sílabas de um poema ficavam em mim, mas as de um livro de poemas se perdiam nos meus pensamentos, nos meus sonhos, nos meus pesadelos. “Tive um sonho”, “Tive um pesadelo”, ninguém pode dizer “tive um pesadelo” só porque acordou. Você ainda o tem, ele está lá sendo regado por ti, só apareceu para visitar ti quando você dormia, expulse-os ou regue-os, faça sua escolha. Os meus, sonhos e pesadelos, me visitam a toda hora em demasia.
E não reclamo de só hoje me conhecer melhor, de só hoje consegui explicações para essas coisas. Acho até que foi melhor assim, sou grato a tudo que aconteceu, no tempo que aconteceu, pois se não pude até hoje me concentrar melhor, essa limitação me fez forte, me fez pensar, ser introspectivo, me fez sensível e sei lá se não tive minha criatividade aguçada... Mas a melhor parte é que minhas dificuldades me fizeram chegar até aqui com as pessoas maravilhosas que tenho ao meu lado. Afinal, quem eu seria se tratado desde a infância? Ser saudável é necessariamente ser melhor? Não sei.
Nem da paralisia facial e da depressão eu reclamo. Medo tenho eu de não ter passado pelo que passei, de não ter fracassado, desistido e recomeçado tantas e tantas vezes e de não ter tido oportunidade de viver esse processo de construção e reconstrução de meus valores e de minhas convicções. Hoje, é bom me olhar e poder vislumbrar a potência virando ato. Não trata-se de cinismo, nem de não querer que as coisas tivessem sido mais fáceis, mas se elas não foram, trouxeram suas perdas, mas também seus valiosos ganhos.
Anteontem li um livro banal e despretensioso, parecido com esse texto. Ontem bati o carro. Tudo por causa do meu tratamento. E por causa do que me tornei hoje tive alguém que encontrei nesses atropelos da vida para me consolar, me acalmar, me ajudar. Bati o carro, li um livro, dormi como nunca e ainda farei muitas outras coisas. Ainda vou escrever, ler, produzir, trabalhar e espero não bater mais o carro. Mas caso isso aconteça que seja de novo numa coluna de estacionamento e não numa Ferrari, que eu tenha novamente uma pessoa ao meu lado para dizer que está ao meu lado e que isso seja contrabalanceado com minha boas noites de sono, meus livros lidos, meus textos escritos... E minhas fantasias, utopias e reticências que nenhum tratamento vai tirar de mim...
sábado, 26 de setembro de 2009
Cordel sobre a descriminalização do Aborto
Vim aqui pra falar para você
De um tema polêmico e complicado
Quase sempre ele é discriminado
Sem ao menos o povo compreender
Discussão pouca gente quer fazer
O assunto já causa desconforto
E mote que trago é o aborto
Tô falando da legalização
Começando minha'rgumentação
Com meu verso sagaz e meio torto
É preciso acabar com preconceito
E tratar desse tema amiúde
O aborto é um caso de saúde
Precisamos tratá-lo desse jeito
Com a mulher é preciso ter respeito
É preciso acabar com sofrimento
Dá um não nesta vida de lamento
Amargura virou o seu destino
De tentar um aborto clandestino
E morrer mutilada e sem alento
Nesse jogo entrará muitas questões
Opressão e dor no patriarcado
Subjuga a mulher, deixa de lado
Em quase todas as ocasiões
E encaram o assunto com sermões
Apelando para o tal moralismo
Espalhando um monte de achismo
Frente à luta legítima da mulher
Por um mundo diferente do que é
Acabando a ditadura do machismo
Outro tema que entra nesse fato
É a historia da tal da religião
Que quer vir com sua crença de antemão
Impedindo um verdadeiro Estado Laico
Mas nessa historia eu vou não pagar o pato
Pois não creio em verdade absoluta
Tô aqui sempre pronto pra disputa
Se sua crença é ser contra o aborto
Eu respeito, mas respeite meu conforto
De viver como quer minha conduta
Você pode ser contra o abortar
Pode achar desumano ou imoral
Mas a sua opinião é pessoal
Não é causa de criminalizar
A pessoa também pode discordar
A mulher tem o corpo soberano
E se lasque quem achar que é profano
Dar um rumo para o seu próprio corpo
É direito que só tira quando morto
Liberdade de qualquer ser humano
Me admira esse tal raciocinar
De julgar a mulher pelo aborto
Logo ela que é dona do seu corpo
Tem direito de escolher o que achar
Crime é coagir, mentir, forçar
Só porque teve o óvulo fecundo
Obrigar a botar filho nesse mundo
E depois não ter como sustentar
Sem nenhuma ajuda pra criar
E cair em um poço sem ter fundo
A mulher com um feto na barriga
Quem seria você para julga/r
O que é certo e o que é errar
Com a sua concepção de vida
Digo isso porque há quem decida
O que é certo e errado a se fazer
Como se você pudesse dizer
Como lidar com problemas tão alheios
Só olhando de galope, à passeio
Sem saber o que o outro vai viver
Para alguns a vida está presente
No momento da fecundação
Para outros é durante a gestação
Que o embrião começa a virar gente
Há também os que pensam independente
Dizem há vida só com autonomia
Não é só questão de biologia
Tem também o aspecto social
Para mim tudo isso é normal
Cada qual com a sua ideologia
O que lasca é querer uma dessas
Seja a concepção a comandar
E depois todas as outras a ditar
Como errada e aquela que não presta
Uma questão complicada como esta
Necessita da maior democracia
Respeitando toda a autonomia
E desejo subjetivo de quem quer
Escolher se é certo ou se não é
Sem crime, coerção e apologia
Pois eu digo com toda sinceridade
Que o ato de descriminalizar
Não obriga ninguém a abortar
Mas garante legitimidade
Para quem pensar na possibilidade
Ter o acompanhamento adequado
Ter seu bem-estar assegurado
Tanto físico quanto o bem- estar mental
Escolher o aborto opcional
Sendo um novo direito conquistado
Me preocupa a mulher trabalhadora
Que não tem acesso a quase nada
E acaba sempre sendo açoitada
Pela vida como uma sofredora
Como é que se taxa de agressora
Alguém que só apanhou da vida
E que sempre foi uma esquecida
Pelo Estado e políticas sociais
Sem direito a um pouco de paz
Vivendo coisas que até deus duvida
Os que dizem “mas não soube fazer?
Que assuma a responsabilidade!”
Essa fala contém muita maldade
De quem nunca consegue perceber
Não consegue ou talvez não queira ver
Como é a dura a vida dessa gente
A maioria do povo é tão carente
Como é que se cobra desse jeito
Alguém que nunca soube o que é direito
O que é Estado porque sempre esteve ausente
Colocando a culpa no indivíduo
Por questão que é bem mais geral
É herança, é ranço cultural
De política que ninguém é assíduo
Uso de método contraceptivos
E o famoso plano que é familiar
Nada disso é visto pois não há
Sendo assim eu não culpo a mulher pobre
E desse jeito a gente que descobre
Que o problema não é o abortar
Vejam só como é pedir demais
Num país que não dá educação
Onde falta a roupa, o leite, o pão
Falta a água, energia e o gás
Tratam gente pior que os animais
E fazem da mulher uma criminosa
Tudo isso esconde a arenosa
Existência submissa da mulher
Que luta por direito porque quer
Uma vida bem menos desonrosa
A mulher hoje é protagonista
Dessa luta e caminha com louvor
É guerreira e batalha com ardor
Contra o mundo patriarcalista
E a luta pra chegar nessa conquista
É fruto de muita organização
Com coragem e determinação
Pra enfrentar todos esses desafios
É por isso que apoio e anuncio
Essa luta pela legalização
Eu defendo descriminalização
Batalhando pela nossa igualdade
E buscando a sonhada liberdade
Como quem rima de improvisação
Terminando o verso nunca em vão
Procurando outra sociabilidade
Com a garra e a veracidade
Onde central seja só o que é humano
Sem opressão de fulano ou de ciclano