segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Quando o carnaval chegar

A carne que queima no sol é temperada pelo riso que esconde e pelo riso que desvenda. O gosto dessa carne é o gosto dessa festa, agridoce, multiforme, bela e trágica, triste e sorridente, assim como a vida, mas muito mais pujante no despejar voraz de quatro dias alegóricos.

A festa dos sonhos e dos desafios, das máscaras que assombram e que encantam , das pernas que dançam como numa luta contra o real. A festa da carne desnuda o corpo e a alma, acalenta dramas e encobre desafios.

Do lado de fora imberbes tentam compreender, alguns desmerecer, outros vilipendiar. Entre o elogio ufanista e acrítico de sempre, as críticas intelectualóides e ainda o elitismo pedante fantasiado de moralismo, passam sorrateiras as ondas da mais bela (e terrível) contradição.

As onomatopeias brigam e beijam com os mais belos versos. As figuras de linguagens mais rasas disputam e se curvam ao lirismo voraz, os acordes mais pueris bailam e se abraçam aos arranjos sofisticados. As melhores e piores músicas do mundo foram feitas para/no carnaval.

Quem só conhece o lado ruim, ou o lado bom, ou o lado de fora conhece pouco. É a celebração do absurdo, da reprodução de desvalores e da subversão deles. Não é ditadura da alegria, nem obrigação de ser feliz, mas é a coragem de sambar na cara da tristeza. O carnaval é tudo-ao-mesmo-tempo-agora e pode ser apenas o nada. Ele não tem receita nem forma. Pode ser a proteção e valorização das raízes e ainda sim a colheita de frutos melhores.

Críticas ao carnaval? Muitas! Nenhuma moralista, rabugenta ou rancorosa. Todas problematizadoras, alegres e irreverentes. Críticas por dentro, no âmago do riso denunciante e na construção e reconstrução daquilo que há de mais belo na festa popular! A rua é do povo, o povo é da alegria e é direito cantar, dançar, sorrir e sonhar. Faz parte da luta.

Esse ano o meu será lembrando dos carnavais passados e planejando os futuros. Infeliz daquele que não tem carne de carnaval, que não ousa não se levar a sério e que desconhece o viés libertador da profanação!

Bobos-da-corte, uni-vos" - Carnaval de 2014